O primeiro-ministro, Luís Montenegro, jogou golfe ao lado de Manuel Violas, presidente do grupo Solverde Casinos, no 2.º Torneio da Ordem de Mérito de 2025, realizado a 23 de fevereiro, em Espinho. O evento, que contou com a participação de 104 jogadores, decorreu dois dias depois da rejeição da moção de censura apresentada pelo Chega e foi destacado pelo Clube de Golfe dos Economistas.
“Entre os 104 jogadores participantes no torneio, destacamos a presença do Dr. Luís Montenegro, o primeiro-ministro de Portugal, do Dr. Manuel Violas, ‘chairman’ do Grupo Unicer, e do Dr. Manuel Silva Carvalho, presidente do Oporto Golf Club”, assinalou o clube nas suas comunicações.
A participação do primeiro-ministro no torneio, ao lado do dono do grupo Solverde, surge no contexto de um escrutínio crescente sobre a sua relação com a empresa, que paga uma avença mensal de 4.500 euros à consultora Spinumviva, detida pela família do chefe do Governo. Durante o debate da moção de censura, a 21 de fevereiro, Montenegro admitiu a sua amizade com os acionistas da Solverde e garantiu que se manteria afastado de quaisquer decisões governativas que pudessem afetar a empresa.
“É público: sou amigo pessoal dos acionistas dessa empresa, portanto, estarei sempre inibido, impondo a mim mesmo a inibição total de intervir em qualquer decisão que impacte diretamente com essa empresa em particular”, declarou Montenegro durante a sessão parlamentar.
O torneio de golfe não constava na agenda pública do primeiro-ministro. Montenegro terminou a prova em 27.º lugar, enquanto Manuel Violas ficou na 15.ª posição, revela o Correio da Manhã.
A participação de Luís Montenegro no torneio de golfe coincidiu com a ausência do primeiro-ministro nas cerimónias que assinalaram os três anos da guerra na Ucrânia, a 24 de fevereiro, em Kiev. A presença de Montenegro na cimeira de apoio à Ucrânia não estava prevista de forma presencial, mas o chefe do Governo português foi também um dos poucos líderes europeus a não participar na reunião por videoconferência, alegando “problemas técnicos”.
A ausência de Montenegro na cimeira gerou duras críticas por parte da oposição. O Bloco de Esquerda anunciou que vai questionar formalmente o primeiro-ministro sobre o assunto. “É importante que o primeiro-ministro esclareça se está a priorizar momentos de lazer, nomeadamente jogos de golfe em que participa o dono da Solverde e cliente da sua empresa, em detrimento da representação de Estado que lhe cabe fazer”, afirmou Fabian Figueiredo, líder parlamentar do Bloco de Esquerda.
O Livre também criticou a ausência do chefe do Governo, com Rui Tavares a classificar a situação como “grave” e “indesculpável”. O partido pretende obter esclarecimentos de Montenegro e questiona se o primeiro-ministro considera que “um torneio de golfe com um cliente da consultora da sua família era mais importante do que estar em trânsito para Kiev”.
Ana Gomes, do PS, destacou a coincidência de datas entre o torneio e a cimeira, apontando, na rede social Bluesky, que “o primeiro-ministro devia ter partido para Varsóvia, para dali tomar o comboio para estar em Kiev na manhã de 24 de fevereiro com Costa, Von der Leyen, Sánchez e outros, em solidariedade com a Ucrânia”.
Pedro Nuno Santos também reagiu, afirmando que, se estivesse no cargo, teria comparecido na cimeira. “Se fosse primeiro-ministro, claro que estaria em Kiev. É um dos temas mais importantes que ocupa a União Europeia e Portugal não pode estar de fora”, declarou o líder do PS.
Governo justifica ausência com “questões de agenda”, mas explicação levanta dúvidas
O gabinete do primeiro-ministro justificou a ausência na cimeira de Kiev com “questões de agenda”, mas a explicação foi contestada pela oposição. Segundo o Observador, Montenegro regressou do Brasil a 20 de fevereiro para participar na moção de censura no Parlamento a 21, tendo depois apenas voltado a ter agenda pública a 26 de fevereiro, com a reunião do Conselho de Ministros. No dia 23, participou no torneio de golfe em Espinho.
Além disso, fontes diplomáticas revelaram ao Observador que Portugal não foi convidado para estar presencialmente em Kiev, devido a restrições de segurança. Apenas quatro dos 27 primeiros-ministros da União Europeia estiveram fisicamente na capital ucraniana: os chefes de Governo de Espanha, Dinamarca, Estónia e Suécia. Outros líderes participaram na cimeira por videoconferência, mas Montenegro, alegadamente, enfrentou dificuldades técnicas.
Dois dias depois do evento em Kiev, o primeiro-ministro publicou na rede social X que tinha falado telefonicamente com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reiterando “o firme apoio de Portugal à Ucrânia em todas as frentes”. Zelensky também confirmou o contacto, agradecendo a Portugal pelo apoio militar e pela disponibilidade em continuar a ajudar o país.
A polémica em torno da ausência de Montenegro na cimeira e a sua participação no torneio de golfe ao lado de Manuel Violas aumentam a pressão sobre o primeiro-ministro, num momento em que o Governo já enfrenta críticas pela relação com a consultora da família do chefe do Executivo. A oposição promete continuar a exigir explicações sobre o caso.














