Num mercado em rápida transformação, o calçado de segurança deixou de ser um produto meramente funcional para passar a integrar exigências de conforto, ergonomia, sustentabilidade e design – e é nesse território mais exigente que a empresa portuguesa quer consolidar a sua posição internacional e estar, não na boca do mundo, mas nos seus pés.
Com mais de 25 anos de actividade e presença em mais de 45 mercados, a AMF Safety Shoes evoluiu de uma operação industrial tradicional para um grupo integrado que controla o desenvolvimento, a produção e o fabrico de componentes técnicos, através de marcas e unidades complementares como a TOWORKFOR e a ALOFT.
Num contexto marcado pela pressão sobre os custos, pela mudança dos padrões de consumo, pela Inteligência Artificial (IA) e pela necessidade de afirmação da indústria europeia, falámos com Albano Fernandes, CEO e fundador da empresa, sobre os desafios do sector, o futuro do calçado técnico e o posicionamento de Portugal na indústria global dos equipamentos de protecção.
Como caracteriza hoje o mercado global de calçado de segurança?
É um mercado em crescimento, mas sobretudo em transformação. Durante muitos anos, o calçado de segurança foi encarado como um produto funcional e obrigatório. Hoje é muito mais do que isso. As empresas procuram protecção, mas também conforto, ergonomia, durabilidade, imagem, sustentabilidade, design e cumprimento rigoroso das normas.
Há uma mudança clara na expectativa do utilizador. O trabalhador já não aceita facilmente um produto pesado, desconfortável ou pouco adaptado ao seu dia-a-dia. E as empresas mais evoluídas perceberam que um bom equipamento de protecção individual tem impacto directo na segurança, na produtividade e até no absentismo.
Ao mesmo tempo, é um mercado muito competitivo e global. Existem segmentos altamente pressionados pelo preço, mas também existe uma procura crescente por produtos técnicos, certificados e desenvolvidos para riscos específicos. É neste segundo território que a indústria europeia, e em particular a indústria portuguesa, pode afirmar-se.
Como é que a pressão de custos e concorrência asiática tem impactado o sector?
A pressão é permanente. A concorrência asiática tem uma capacidade muito forte de competir em preço, e isso influencia muitas decisões de compra, sobretudo quando o cliente olha apenas para o custo imediato do par.
Mas esta pressão também obrigou a indústria europeia a clarificar o seu posicionamento. Não podemos, nem devemos, competir apenas pelo preço mais baixo. O nosso caminho passa pela qualidade, pela consistência, pela proximidade, pela rapidez de resposta, pela capacidade de desenvolvimento e pela confiança.
Na AMF, essa pressão levou-nos a investir em tecnologia, eficiência produtiva, laboratório, controlo de qualidade e desenvolvimento de produto. Quando falamos de segurança no trabalho, o preço não pode ser analisado isoladamente. É preciso olhar para protecção, conforto, durabilidade e adequação ao risco.
Claro que esta situação é agravada quando competimos com mercados onde as regras de produção e as exigências legislativas são muito diferentes, com impacto directo no custo produtivo. As empresas europeias estão sujeitas a uma pressão concorrencial desleal, que não resulta apenas dos salários mais elevados, mas também de custos de contexto bastante superiores.
Portugal tem uma estratégia industrial suficientemente clara para sectores como o calçado técnico?
Portugal tem uma base industrial muito competente no sector do calçado. Temos conhecimento, experiência, fornecedores, centros tecnológicos, capacidade exportadora e uma reputação internacional construída ao longo de décadas em saber fazer bom calçado.
Mas quando falamos de calçado técnico, segurança, defesa ou equipamento profissional, penso que ainda há espaço para uma visão industrial mais clara e mais estratégica. Este sector não deve ser visto apenas como uma extensão do calçado tradicional. É uma área ligada à segurança no trabalho, à saúde ocupacional, à produtividade industrial e até à autonomia estratégica europeia.
Precisamos de políticas que valorizem a produção em Portugal e na Europa. Isso passa por formação técnica, investimento em automação, energia competitiva, apoio à inovação, simplificação administrativa e valorização da indústria como carreira. Temos empresas com capacidade para competir globalmente, mas é essencial que o país tenha uma estratégia consistente para transformar conhecimento industrial em valor económico.
E é na parte do valor económico que estamos, infelizmente, com políticas pouco assertivas por parte dos nossos governos, o valor acrescentado do produto não está no lado da produção, mas antes no lado da venda, e é aí que estamos menos bem, não temos empresas com marcas fortes que possam vender com valor acrescentado nos mercados europeus. E também não temos políticas fortes de incentivo à venda de marcas nos mercados internacionais. Se eu quiser um apoio de três ou quatro milhões de euros para comprar uma máquina e continuar a vender minutos de produção a uma marca internacional, existem incentivos com relativa facilidade. Pelo contrário, se quiser investir o mesmo montante na criação de redes comerciais ou na valorização de uma marca própria nos mercados europeus, não existem incentivos ou os que existem são muito castradores…
Qual o maior desafio diário na gestão de uma operação industrial desta escala?
As pessoas. Construir equipas motivadas em contexto industrial é um desafio brutal. Temos o problema da atracção e da retenção. Hoje, a rotatividade dos trabalhadores é cada vez maior, o que coloca desafios enormes às empresas, e em particular às PME, que pelas suas limitações de dimensão as coloca sempre como alternativa no mercado de trabalho.
Um outro desafio é gerir o equilíbrio. Numa operação industrial, tudo está interligado: pessoas, matérias-primas, planeamento, qualidade, prazos, clientes, certificações, custos e inovação.
No caso da AMF Safety Shoes, trata-se de uma operação com capacidade diária para milhares de pares, com duas máquinas de injecção DESMA e linhas de calçado colado, o que permite responder a diferentes necessidades do mercado. Esta escala exige rigor absoluto no planeamento e na execução.
Até que ponto ainda existe subvalorização do calçado de segurança por parte das empresas ou dos trabalhadores?
Ainda existe alguma subvalorização, embora o mercado tenha evoluído muito. Durante anos, o calçado de segurança foi visto como uma obrigação legal. Comprava-se porque era necessário cumprir a norma, não necessariamente porque se compreendia o seu impacto.
Hoje há empresas muito mais conscientes. Sabem que o calçado certo reduz riscos, melhora o conforto, diminui a fadiga e contribui para uma maior produtividade. Mas ainda encontramos decisões excessivamente centradas no preço.
Também existe, por vezes, resistência por parte dos trabalhadores, quase sempre associada a más experiências anteriores: calçado pesado, quente, rígido ou desconfortável. A nossa responsabilidade enquanto fabricantes é mudar essa percepção. Um equipamento de protecção só cumpre verdadeiramente a sua função se for usado correctamente e de forma consistente.
Por isso, o desafio passa também por aproximar o produto das expectativas reais do utilizador. No caso da TOWORKFOR, essa preocupação está muito presente: desenvolver calçado de segurança tecnicamente exigente, mas também leve, confortável e visualmente apelativo. Esta aproximação entre proteção, conforto e utilização real é essencial para que o calçado de segurança deixe de ser visto apenas como uma obrigação e passe a ser reconhecido como uma ferramenta de trabalho.
O preço continua a ser o maior inimigo da segurança no trabalho?
Diria que o maior inimigo não é o preço. É a visão de curto prazo.
Naturalmente, o preço é importante. Todas as empresas têm de gerir custos. Mas quando falamos de segurança no trabalho, escolher apenas pelo valor mais baixo pode sair muito caro. Um calçado inadequado pode gerar desconforto, menor utilização, maior desgaste, acidentes, absentismo e perda de produtividade.
O desafio é ajudar o mercado a olhar para o custo total e não apenas para o preço de compra. Um bom calçado de segurança deve proteger, durar, ser confortável e estar ajustado ao risco da função. Quando esses factores são considerados, a decisão deixa de ser apenas financeira e passa a ser uma decisão de gestão de risco.
Quais os maiores riscos laborais que o calçado de segurança tem de responder?
Variam consoante o sector, mas há alguns que são transversais: impacto, compressão, perfuração, escorregamento, contacto com óleos ou hidrocarbonetos, electricidade estática, humidade, temperaturas extremas e fadiga associada a muitas horas de trabalho em pé.
Na construção, os riscos mecânicos são muito relevantes. Na logística, a exigência está muitas vezes no conforto, na leveza e na resistência ao uso intensivo. Na indústria, entram riscos químicos, térmicos, eléctricos e de escorregamento. Em sectores mais especializados, como energia, manutenção técnica ou defesa, a exigência pode ser ainda mais elevada.
Por isso, não existe uma solução única. O calçado de segurança tem de ser desenvolvido a partir do risco real do utilizador. É aí que o conhecimento técnico, os testes laboratoriais e a capacidade de desenvolvimento fazem a diferença.
Quais são hoje os principais desafios de gestão de uma empresa industrial exportadora em Portugal?
O primeiro é a competitividade. Produzir em Portugal tem muitas vantagens, nomeadamente qualidade, proximidade ao mercado europeu, conhecimento técnico e capacidade de resposta. Mas também implica custos relevantes, desde a energia e as matérias-primas até ao contexto fiscal, ao contexto legal, ao financiamento e à burocracia.
O segundo é a incerteza. Uma empresa exportadora está exposta a oscilações da procura, da inflação, das taxas de juro, dos custos logísticos, alterações regulatórias e instabilidade geopolítica.
O terceiro é o talento. A indústria precisa de conseguir atrair e reter pessoas qualificadas. Não apenas operadores especializados, mas também engenheiros, técnicos de qualidade, designers, comerciais internacionais e gestores de produto.
E depois há o desafio da escala. Para competir globalmente, é preciso investir, inovar, certificar, comunicar e estar próximo dos clientes. A dimensão ajuda, mas a clareza estratégica é decisiva.
Que mercados estão a crescer mais para a AMF neste momento?
Temos uma forte presença internacional e trabalhamos com grandes marcas europeias através de projectos de private label. A Europa continua a ser o nosso espaço natural de crescimento, porque é um mercado exigente, regulado e cada vez mais atento à origem, à qualidade e à fiabilidade dos fornecedores.
Mais do que falar apenas de geografias, diria que estamos a crescer em segmentos onde a exigência técnica é maior. A indústria, a logística, a construção, a energia, a manutenção, as forças de segurança e os equipamentos profissionais especializados são áreas onde vemos oportunidades relevantes.
A AMF está presente em mais de 45 mercados e isso dá-nos uma leitura muito próxima das tendências internacionais. O crescimento vem de mercados que valorizam produtos certificados, capacidade de desenvolvimento, rapidez de resposta e consistência industrial.
Esta evolução também se reflecte na TOWORKFOR, a marca própria da AMF, que tem vindo a ganhar espaço precisamente nos segmentos onde a exigência técnica, o conforto e a fiabilidade são mais valorizados. A marca permite-nos responder de forma mais directa a necessidades concretas do mercado, mantendo a mesma base industrial, técnica e certificada que caracteriza a AMF.
No futuro, o calçado de segurança vai ser cada vez mais “invisível”, mais leve, mais confortável, ou mais tecnológico e visível?
Será as duas coisas. Para o utilizador, o melhor calçado de segurança será cada vez mais “invisível”. Ou seja, mais leve, mais confortável, mais respirável e mais próximo da experiência de utilização de um calçado desportivo ou lifestyle.
Mas, do ponto de vista do desenvolvimento, será cada vez mais tecnológico. Teremos materiais mais avançados, solas com maior performance, componentes mais sustentáveis, melhor ergonomia, maior rastreabilidade e, em alguns contextos, a integração de tecnologia associada à monitorização ou à segurança.
O futuro não passa por saber escolher entre protecção e conforto. Será entregar protecção com conforto, performance com design, segurança com mobilidade. Essa é precisamente a evolução que a AMF e a TOWORKFOR têm procurado antecipar: transformar o calçado de segurança num produto técnico, desejável e adaptado à realidade dos profissionais modernos.














