Diáspora: “Captar capital estrangeiro para Portugal teria um efeito multiplicador enorme”

Com experiência em vários mercados internacionais, Pedro Miranda analisa os desafios de criar uma empresa global e explica porque Portugal precisa de mais capital, visão estratégica e estabilidade para crescer

André Manuel Mendes

Pedro Miranda já trabalhou em geografias tão distintas como Suécia, Nigéria, Mada­gáscar, Azerbaijão e Suíça, acumulando uma experiência internacional que moldou a sua visão sobre liderança, empreendedorismo e inovação.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Engenheiro de formação e apaixonado pelo sector energético, é co-fundador e CEO da Youdera, companhia especializada em soluções de gestão e optimização energética para empresas, com operações na Suíça, Portugal e Espanha.

Em conversa com a Executive Digest, fala sobre os desafios de construir um negócio global, a importância da independência energética para a competitividade das organizações, o potencial por explorar do mercado portu­guês e o papel que a diáspora pode ter na transformação económica do país.

Faz também uma análise crítica sobre o ecossistema nacional de empreendedorismo, defendendo mais capital privado, estabilidade regulatória e uma visão de longo prazo para reter empresas e talento.

O QUE DIZ PEDRO…

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

O seu percurso já passou por diferentes países e, actual­mente, na Suíça. Como é que estas experiências moldaram a sua visão como líder e empreendedor?

Em quase tudo, mas o ensinamento mais útil foi sobre o que procurar nas pessoas. Não em ‘equipas de alto desempenho’, mas em indivíduos. Procuro pessoas com curiosidade genuína, capacidade de resolver problemas e aquilo a que os anglo­-saxónicos chamam ‘grit’ – persistir perante a adversidade e não desistir ao primeiro obstáculo. O resto aprende-se. Outro ensinamento prende-se com o valor de ter vivido fora da ‘nossa bolha’. O meio em que crescemos influencia-nos muito – molda a forma como olhamos para o risco, a autoridade e o erro. Ter visto outras formas de pensar mudou a minha abordagem face a coisas que parecem pequenas, mas que são decisivas.

O que levou um engenheiro português a apostar no sector energético e, mais tarde, a criar a Youdera?

Sou engenheiro civil, mas sempre quis trabalhar em energia. A solar fascinou-me desde cedo e ainda é uma tecnologia notável. Entrei no sector em 2014, depois de uma carreira na indústria. A Youdera surge mais tarde, e o impulso final para a sua criação nasceu de uma experiência menos positiva: tinha acabado de concluir o MBA, quando entrei como director de Operações numa pequena empresa solar que viria a fechar. Mas foi uma escola intensiva: aprendi que é essencial diversi­ficar a base de clientes; esperar o melhor, mas preparar para o pior; e que o optimismo, sem se transformar em ingenuidade, é uma vantagem competitiva real. Por vezes, é preciso arriscar.

Viver fora altera a forma como se olha para o talento português e a sua capacidade empreendedora?

Continue a ler após a publicidade

Não sou particularmente fã da palavra ‘talento’ e o discurso sobre o brilhantismo português até pode ser, por vezes, ge­neroso. Em Portugal, não temos uma cultura orientada para o negócio. Somos adversos ao risco e pouco optimistas em relação ao futuro. Durante muito tempo, faltaram-nos figuras que nos servissem de modelo e um ecossistema de capital e inovação. Está a melhorar mas continuamos a não pensar suficientemente em escala. São poucos os projectos portu­gueses que são desenhados, desde o primeiro dia, para uma dimensão europeia. A maioria das empresas portuguesas tem no rodapé do site logótipos de programas comunitários ou de fundos públicos que as financiaram. É um indicador.

Devemos substituir progressivamente apoio público por capital privado, com regras fiscais que tornem Portugal interessante para investidores institucionais. Enquanto isso não acontecer, vamos continuar a ver bons projectos a serem vendidos cedo, por valores modestos, antes de terem escala.

Quais foram os maiores choques culturais e profissionais?

O tempo de decisão e de execução, mais do que a competência. Na Suíça, decide-se com discussão prolongada e executa-se de forma quase mecânica. Em mercados ibéricos, decide-se mais depressa, mas revisita-se muitas vezes. Em geografias mais voláteis, como a Nigéria ou Madagáscar, planeia-se sabendo que metade do plano não vai sobreviver ao terreno.

A Youdera nasce na Suíça, mas também opera em Portugal e Espanha. Que diferenças encontra entre estes mercados?

Continue a ler após a publicidade

Portugal e Espanha são mercados centrais mas distintos. Por­tugal é mais ágil nalgumas dimensões: processos comerciais mais directos, decisões mais rápidas e um ecossistema menor, mas mais fluido. Espanha é um mercado maior e tecnicamente mais maduro, mas também mais burocrático e complexo na regulamentação. Quem pensa que basta replicar a operação portuguesa em Espanha aprende depressa que não é bem assim.

Dito isto, a Península Ibérica, no seu conjunto, é um caso de teste à escala mundial: penetração elevada de renováveis, comunidades de energia, complexidade tarifária e eventos extremos no sistema. Tudo o que aqui se passa irá repetir-se noutros mercados nos próximos anos e o que aprendemos a fazer aqui torna-se replicável. A Suíça, por sua vez, tem um

perfil completamente diferente entre estabilidade regulatória e um mercado que abre portas para os países adjacentes. É a combinação das duas vertentes – laboratório ibérico e âncora suíça – que define a Youdera.

Estamos perante uma mudança estrutural na forma como as organizações encaram a energia?

Estamos, mas é uma mudança que está longe de estar com­pleta. Boa parte das empresas continua a ser gerida por quem aprendeu a olhar para a energia como uma factura que se paga ao fim do mês e se renegoceia de dois em dois anos.

Os clientes mais avançados estão a operar em três camadas: gerem a factura, optimizando a potência contratada e elimi­nando penalizações reactivas; gerem a compra, combinando contratos a preço fixo, indexados e Acordos de Compra de Energia (PPA) em coberturas faseadas, em vez de assinarem um único contrato anual; e gerem a infra-estrutura. Quando estas três camadas funcionam em conjunto, a energia passa de custo passivo a alavanca de competitividade.

Continue a ler após a publicidade

O que continua a encontrar no mercado português que considera diferenciador?

A presença em Portugal fazia (e faz) sentido em termos pu­ramente económicos: mais sol, custos de instalação baixos e preços de retalho competitivos. Mas há um trabalho enorme a fazer na electrificação da economia portuguesa. O mercado podia ser bastante mais dinâmico. Vamos ter cada vez mais excedentes solares a meio do dia, preço mais baixo, mas não estamos a promover a mobilidade eléctrica a um ritmo compa­tível com isso. Há sinais positivos, mas o ritmo não acompanha a velocidade a que o sistema eléctrico está a mudar. Para a Youdera, é, ainda assim, um contexto útil: permite aprender, testar e refinar produtos numa escala manuseável, aplicando essas aprendizagens em geografias maiores.

O que falta a Portugal para conseguir reter mais talento empreendedor e internacional?

Um modelo coerente de capital e fiscalidade. Seria importante oferecer benefícios fiscais a empresas que se constituem ou deslocam a sua sede para Portugal. O que interessa é emprego qualificado e empresas que se alimentem umas às outras. A peça que falta no puzzle é o capital de risco. Portugal devia procurar os principais fundos internacionais de venture capital e desenhar um pacote fiscal competitivo – incluindo isenção de mais-valias na saída. Depois de anos a incubar empresas com forte probabilidade de perda de capital, os investidores não querem, no final, ser tributados agressivamente sobre o pouco que conseguiram.

A maior parte dos casos de sucesso em Portugal é vendida para o estrangeiro quando as empresas ainda valem muito pouco, porque não temos capital nem um ambiente fiscal que justifique mantêlas e fazêlas crescer. Além disso, é importante ter um sistema de justiça com prazos razoáveis, processos de licenciamento mais rápidos e maior previsibilidade sobre como se chega a um determinado resultado regulatório.

Como vê o papel da diáspora portuguesa na transformação económica e empresarial do país?

Continue a ler após a publicidade

Vejo-o cada vez menos como uma questão de regresso e cada vez mais como uma questão de rede. É, na prática, uma das maiores redes informais de pessoas qualificadas a operar em mercados sofisticados a partir de fora – e o seu valor para Portugal mede-se mais pelas pontes que constrói. O contri­buto mais relevante são os investimentos que se canalizam, as parcerias que se desbloqueiam e os mercados que se abrem para as empresas nacionais. Na Youdera, muitas das melhores decisões que tomámos sobre o mercado português vieram de leituras e conexões facilitadas por estarmos no estrangeiro.

O que é que Portugal ainda lhe dá hoje?

Gosto de viver na Suíça, porque é um país excelente para tra­balhar e criar família. Já em Portugal, há aspectos com os quais eu não me identifico: o ciclo noticioso de 24 horas centra-nos quase exclusivamente na adversidade e no escape do futebol. Mas o que mais me preocupa é a desconfiança generalizada nas instituições e no sistema, bem como a falta de planeamento a longo prazo. Sem confiança institucional e sem horizonte de longo prazo, não se constrói um modelo duradouro.

Por outro lado, Portugal continua a dar-me coisas que ne­nhum outro país me daria: a rede da família e amigos, a textura cultural que ainda valorizo – o lado afectuoso, bem-humorado, espontâneo e o domínio da arte da conversa fiada com a leveza que muitos povos não têm e o sol, a comida e o mar. É uma com­binação que parece simples até se viver alguns anos sem ela.

 

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.