Águas cristalinas, praias praticamente desertas, paisagens difíceis de encontrar noutro lugar do planeta e algumas das árvores mais invulgares do mundo. Nas redes sociais, a ilha de Socotra começa a aparecer como um dos destinos que é preciso conhecer antes de toda a gente. Há apenas um problema: pertence ao Iémen, um país em guerra.
Segundo avança o ‘El Confidencial’, vários influenciadores de viagens têm promovido Socotra como uma espécie de novo Bali, apesar dos alertas oficiais para evitar o território. Por trás das imagens paradisíacas existe, porém, uma realidade bastante mais complexa: a ilha ocupa uma posição estratégica nas rotas marítimas entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho e tornou-se também uma peça no jogo de influência dos Emirados Árabes Unidos no Iémen.
Um dos casos destacados pelo jornal espanhol é o do influenciador Cristian Delgado, que passou sete dias em Socotra no final de 2025 e apresentou a ilha como um dos grandes destinos a descobrir.
Delgado destacou a exclusividade do local — são permitidos, segundo o ‘El Confidencial’, apenas cerca de 3.500 turistas por ano, que têm de ser acompanhados — e chegou posteriormente a considerar Socotra o destino de 2026, colocando-a acima de Bali, das Maurícias e do Japão.
Espanha diz para não ir
A visão paradisíaca das redes sociais contrasta fortemente com os avisos oficiais.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros espanhol desaconselha viagens ao Iémen “em quaisquer circunstâncias”, incluindo especificamente Socotra, e recomenda aos cidadãos espanhóis que já estejam no país que saiam “o mais rapidamente possível”. Delgado chegou a publicar um vídeo criticando essa recomendação.
E não está sozinho. Outros criadores de conteúdos têm ajudado a colocar Socotra nas listas internacionais de destinos a descobrir, promovendo-a como alternativa a locais turísticos já saturados.
O problema é aquilo que muitas dessas imagens deixam fora do enquadramento.
O Iémen permanece profundamente fragmentado. O governo reconhecido internacionalmente tem uma capacidade limitada, enquanto os houthis controlam grande parte do norte e oeste do país e governam de facto uma zona onde vive a maioria da população. A sul operam ainda forças separatistas, incluindo o Conselho de Transição do Sul.
Porque é Socotra tão importante?
A localização ajuda a explicar o interesse pela ilha.
O Iémen encontra-se junto ao estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem fundamental entre o Oceano Índico, o Mar Vermelho e, através do Suez, o Mediterrâneo. Socotra ocupa uma posição privilegiada para acompanhar as rotas marítimas desta região.
É neste ponto que entram os Emirados Árabes Unidos.
Abu Dhabi desenvolveu fortes relações com forças separatistas do sul do Iémen e, em 2018, enviou tropas para Socotra sem informar previamente o governo iemenita, segundo relata o ‘El Confidencial’. Mais de 50 militares e veículos blindados terão chegado inicialmente à ilha, seguindo-se novos contingentes e equipamento.
As forças dos Emirados ocuparam posições em instalações estratégicas, incluindo o aeroporto de Socotra, e bandeiras dos EAU chegaram a ser hasteadas em edifícios governamentais. A situação provocou a intervenção da Arábia Saudita, que mediou posteriormente um acordo para restaurar o controlo administrativo iemenita sobre o aeroporto e o porto.
Turismo também é influência
É aqui que o crescimento de Socotra nas redes sociais ganha outra dimensão.
O ‘El Confidencial’ associa a promoção da ilha através de agências de viagens e influenciadores a uma forma mais subtil de diplomacia e projeção de influência dos Emirados. Mesmo depois de anunciar a retirada das restantes forças do Iémen, Abu Dhabi mantém uma ampla rede de relações políticas, militares e económicas no sul do país.
O jornal espanhol considera que Socotra é um exemplo de “geopolítica de influenciadores”: destinos e imagens aparentemente desligados da política podem contribuir para melhorar a perceção de um território e apagar do enquadramento a guerra, os interesses estratégicos e a crise humanitária.
E o contraste é particularmente forte. Enquanto vídeos apresentam Socotra como o próximo destino paradisíaco a descobrir, o ‘El Confidencial’ lembra que, segundo organizações humanitárias, 21 milhões de pessoas no Iémen necessitam de ajuda.
Socotra pode parecer, nas redes sociais, uma ilha perdida no Índico à espera de ser descoberta. Mas por trás das praias, das águas cristalinas e das imagens perfeitas para Instagram está uma das regiões geopoliticamente mais disputadas do planeta.














