Portugal quer transformar Marrocos numa nova porta de entrada de eletricidade perante o risco crescente de que a nova capacidade de produção não seja suficiente para acompanhar o forte aumento do consumo previsto para a próxima década.
O projeto de interligação elétrica entre os dois países, relançado este verão, ganha assim uma nova importância depois de o Governo português e a REN terem identificado riscos para a suficiência do sistema elétrico a partir de 2028, segundo o ‘elEconomista’.
A avaliação nacional portuguesa de adequação de recursos aponta para problemas de cobertura em 2028, 2030 e 2035. O indicador de perda esperada de carga, conhecido pela sigla LOLE, ultrapassa nos três anos o padrão de fiabilidade português de 1,46 horas anuais.
A estimativa chega às 1,71 horas em 2028, sobe para 8,29 horas em 2030 e dispara para 68,3 horas em 2035. A avaliação europeia ERAA 2025, em contraste, praticamente afastava este problema.
A Agência da União Europeia para a Cooperação dos Reguladores da Energia (ACER) considera que algumas das hipóteses utilizadas por Portugal poderão estar a sobrestimar o défice, mas reconhece que existem razões que justificam a preocupação.
Entre elas estão uma instalação de capacidade eólica e solar inferior ao previsto e, sobretudo, o forte crescimento esperado do consumo de eletricidade associado a novos centros de dados e grandes consumidores industriais.
Portugal só está ligado eletricamente ao exterior através de Espanha
É neste contexto que ganha relevância o acordo entre Portugal e Marrocos para recuperar um projeto de interligação elétrica que está há vários anos em cima da mesa.
Lisboa e Rabat acordaram solicitar apoio à Comissão Europeia e estudar a possibilidade de recorrer a financiamento privado para construir a ligação, cujo primeiro estudo remonta a 2018. Portugal pretende ainda que a infraestrutura possa ser reconhecida como projeto europeu estratégico e, dessa forma, beneficiar de financiamento comunitário.
A questão é particularmente importante para Portugal porque, atualmente, o país apenas dispõe de interligação elétrica internacional através de Espanha.
Uma ligação adicional a Marrocos poderia criar uma nova fonte potencial de eletricidade durante períodos de escassez e reduzir a dependência portuguesa da existência de excedentes suficientes no sistema espanhol para exportação precisamente nos momentos de maior pressão sobre a rede.
Cabo direto para Marrocos ou ligação através de Espanha
O projeto encontra-se ainda numa fase inicial e estão a ser analisadas diferentes soluções.
Portugal e Marrocos estudam tanto a construção de um cabo submarino direto entre os dois países como alternativas que aproveitem infraestruturas através de Espanha, que já dispõe de uma interligação elétrica com Marrocos.
A diferença é relevante para a segurança do abastecimento. Uma ligação direta entre Portugal e Marrocos daria ao sistema português uma segunda conexão física internacional independente de Espanha.
Uma solução através da rede espanhola poderia aumentar as possibilidades comerciais de troca de eletricidade, mas manteria Portugal mais dependente das infraestruturas da Península Ibérica.
Também o custo permanece em aberto. Os primeiros estudos, realizados em 2018, apontavam para um investimento de cerca de 800 milhões de euros, mas o Governo português considera que esse valor está desatualizado.
Portugal e Marrocos pretendem procurar apoio em Bruxelas e, simultaneamente, avaliar o interesse de operadores de redes, empresas energéticas e outros investidores privados, procurando evitar que todo o custo da infraestrutura recaia sobre os consumidores.
Entre os próximos passos estão uma reunião com as instituições europeias e uma cimeira entre Portugal e Marrocos prevista para o início de 2027.
Centros de dados fazem disparar procura de eletricidade
A procura de novas fontes de flexibilidade para o sistema elétrico português está diretamente relacionada com a dimensão dos pedidos de ligação à rede.
Em fevereiro de 2026, grandes consumidores tinham apresentado pedidos de acesso correspondentes a aproximadamente 41 GW. Desse total, cerca de 9,2 GW já tinham garantido autorizações de ligação e outros 4,6 GW estavam abrangidos por um processo avançado de atribuição.
Isto significa que aproximadamente 13,8 GW estavam já garantidos ou numa fase avançada.
Os centros de dados assumem um peso relevante nestas projeções. Segundo o ‘elEconomista’, a ACER considera que as elevadas previsões de procura utilizadas pelas autoridades portuguesas são sustentadas por pedidos formais de ligação e planos de investimento, embora alerte que nem todos os projetos acabarão necessariamente por avançar.
O crescimento esperado do consumo surge, ao mesmo tempo, numa altura em que a instalação de nova capacidade renovável está a avançar abaixo dos objetivos oficiais.
A avaliação portuguesa estima que, em 2030, a capacidade conjunta de energia eólica e solar poderá corresponder aproximadamente a metade daquela que é considerada no cenário europeu.
A ACER considera esta previsão mais conservadora justificada, uma vez que reflete o ritmo observado na construção e no licenciamento dos projetos.
Nova ligação a Espanha acrescentou 1.000 MW
Portugal reforçou recentemente aquela que continua a ser a sua principal válvula de segurança elétrica.
Espanha e Portugal inauguraram em julho uma nova interligação de 400 kV entre a Galiza e o norte de Portugal, acrescentando cerca de 1.000 MW à capacidade de troca de eletricidade.
Depois da entrada em funcionamento desta infraestrutura, a capacidade de interligação passou para aproximadamente 4.200 MW de Espanha para Portugal e 3.500 MW no sentido inverso, de acordo com a Comissão Europeia.
Mas depender exclusivamente de Espanha acrescenta outra variável ao problema: a própria capacidade do sistema elétrico espanhol para responder à procura.
A ACER considera que a evolução do mercado de capacidade que está a ser preparado pelo Governo espanhol poderá ter consequências para Portugal, uma vez que determinará a quantidade de produção disponível em Espanha durante períodos de escassez e, consequentemente, a eletricidade que poderá ser exportada para Portugal.
O regulador europeu refere mesmo que o prolongamento da central nuclear de Almaraz até meados de 2030 poderá ter impacto nessa capacidade de exportação.
Apagão ibérico voltou a colocar interligações no centro do debate
Uma futura ligação a Marrocos pode, por isso, assumir uma dimensão superior à de um simples projeto bilateral.
Portugal procura diversificar as possibilidades de abastecimento de um sistema elétrico situado no extremo ocidental da Europa e condicionado pelas ainda reduzidas interligações da Península Ibérica com o resto do continente.
O apagão ibérico de abril de 2025 contribuiu para reabrir o debate. Portugal e Marrocos recuperaram o projeto depois de o episódio ter voltado a evidenciar o relativo isolamento da Península Ibérica em relação ao sistema elétrico continental.
Lisboa pretende agora apresentar a infraestrutura como uma ligação estratégica entre a Europa e África.
A interligação com Marrocos, contudo, não resolveria por si só os problemas de suficiência identificados por Portugal.
O contributo dependerá da capacidade que vier efetivamente a ser instalada, da disponibilidade de produção elétrica em Marrocos nos períodos em que Portugal enfrentar escassez e da possibilidade de os dois sistemas atravessarem situações de tensão simultaneamente.
A ACER defende também que Portugal deve desenvolver soluções de armazenamento através de baterias e mecanismos de resposta da procura, além de contabilizar corretamente recursos de reserva, como os 990 MW da central a gás da Tapada do Outeiro, antes de determinar a dimensão efetiva do défice.
Ainda assim, a avaliação da ACER reforça o argumento da segurança de abastecimento para a ligação a Marrocos. Portugal poderá passar, em poucos anos, de um sistema com períodos frequentes de excedente de produção renovável para outro que necessite de novas fontes de capacidade firme e flexibilidade para acompanhar o aumento do consumo.
Nesse cenário, a ligação a Marrocos deixaria de servir apenas para facilitar o comércio de energia renovável entre África e Europa e poderia transformar-se numa peça da segurança elétrica portuguesa.














