Entre guerras externas e tensão interna: o balanço do primeiro ano do segundo mandato de Trump

Segundo a agência ‘Reuters’, ao entrar no segundo ano de mandato, o presidente americano surge cada vez menos condicionado por travões institucionais, avançando com políticas que aprofundaram divisões no país e redesenharam a posição dos EUA no mundo

Francisco Laranjeira

Donald Trump completa esta terça-feira um ano desde o regresso à Casa Branca para um segundo mandato marcado por decisões de grande impacto interno e externo, pela expansão do poder presidencial e por um agravamento da polarização política nos Estados Unidos.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Segundo a agência ‘Reuters’, ao entrar no segundo ano de mandato, o presidente americano surge cada vez menos condicionado por travões institucionais, avançando com políticas que aprofundaram divisões no país e redesenharam a posição dos EUA no mundo.

Nas últimas semanas, Trump ordenou uma ofensiva federal mais agressiva contra a imigração ilegal no Minnesota, uma operação que resultou na morte a tiro de uma pessoa desarmada por um agente federal. Supervisionou ainda uma operação militar na Venezuela destinada à captura do presidente Nicolás Maduro, retomou o controverso plano de anexação da Gronelândia, ameaçou bombardear o Irão e desvalorizou as preocupações em torno de uma investigação criminal envolvendo o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell.

“Não me importo”, afirmou Trump numa entrevista à ‘Reuters’ na Sala Oval, quando questionado sobre eventuais consequências económicas de uma investigação contra Powell. Noutra entrevista, concedida ao ‘The New York Times’ a 7 de janeiro, o presidente declarou que o único limite à sua atuação militar no exterior era “a minha própria moralidade”, reforçando a ideia de uma presidência guiada sobretudo pelo seu julgamento pessoal.

A Casa Branca sustenta que a diplomacia continua a ser a primeira opção. A porta-voz Anna Kelly afirmou que Trump pondera todas as decisões, mas mantém “todas as opções em aberto”. Segundo a mesma fonte, o envio de forças americanas para a Venezuela e o bombardeamento de três instalações nucleares iranianas, no ano passado, ocorreram após falharem tentativas de negociação com ambos os países.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Um dos presidentes mais poderosos da era moderna

Desde o regresso ao poder, a 20 de janeiro de 2025, Trump prometeu reformular a economia, a burocracia federal, a política de imigração e aspetos centrais da vida cultural americana. Grande parte dessa agenda foi concretizada, levando analistas a considerá-lo um dos presidentes mais poderosos da história recente dos Estados Unidos, de acordo com a ‘Reuters’.

No primeiro ano do segundo mandato, Trump reduziu significativamente a força de trabalho civil federal, encerrou e desmantelou agências governamentais, cortou ajuda humanitária externa, ordenou operações de deportação em larga escala e enviou tropas da Guarda Nacional para cidades governadas por democratas. Lançou ainda guerras comerciais através da imposição de tarifas a produtos de numerosos países, aprovou um vasto pacote de cortes de impostos e despesas e promoveu ações judiciais contra adversários políticos, além de restringir o acesso a algumas vacinas e de atacar universidades, escritórios de advogados e órgãos de comunicação social.

Apesar de ter prometido pôr fim à guerra da Rússia contra a Ucrânia no primeiro dia de mandato, os progressos nesse sentido têm sido limitados. Trump afirma ter encerrado oito guerras, uma alegação amplamente contestada face à persistência de conflitos em vários desses cenários.

Popularidade baixa e risco político

Continue a ler após a publicidade

Como acontece com presidentes impedidos de se recandidatar, Trump enfrenta um previsível desgaste de poder à medida que avança o mandato. Continua a ser uma figura profundamente impopular junto de uma parte significativa do eleitorado, sobretudo no que toca à gestão da economia e ao custo de vida.

Uma sondagem ‘Reuters/Ipsos’ realizada na semana passada indica uma taxa de aprovação de 41%, com 58% dos adultos a desaprovar o seu desempenho. Embora o valor seja baixo para padrões históricos, não representa o pior registo do seu segundo mandato. As opiniões mantêm-se, no entanto, fortemente polarizadas, com Trump a conservar um apoio sólido entre a sua base eleitoral.

O estratega democrata Alex Floyd acusou Trump de um “total desrespeito pelo Estado de Direito e pelos mecanismos básicos de controlo e equilíbrio”, argumentando que isso tornou os americanos menos seguros e poderá levar os eleitores a penalizar os republicanos nas urnas.

O próprio presidente reconheceu à ‘Reuters’ o risco de os republicanos perderem o controlo do Congresso nas eleições intercalares de novembro, admitindo que a história raramente favorece o partido do presidente nesses atos eleitorais. Alertou ainda legisladores do seu partido para a possibilidade de uma nova maioria democrata na Câmara dos Representantes avançar com um terceiro processo de destituição.

Economia no centro das preocupações

Continue a ler após a publicidade

Questionado sobre os elevados preços, principal preocupação dos eleitores, Trump reiterou que a economia é a “mais forte” da história, apesar de os dados indicarem uma inflação persistentemente elevada. Nos últimos discursos, tentou responder às preocupações com o custo de vida, mas complicou a mensagem ao classificar simultaneamente o tema da acessibilidade como uma “farsa” dos democratas.

Historiadores e analistas sublinham que todos os presidentes modernos procuraram alargar os seus poderes, mas consideram que Trump o fez a um ritmo raro, recorrendo a ordens executivas e declarações de emergência que transferiram competências do Congresso para a Casa Branca. A maioria conservadora no Supremo Tribunal alinhou em grande parte com o presidente, enquanto um Congresso controlado pelos republicanos mostrou pouca vontade de o travar.

O historiador presidencial Timothy Naftali considera que Trump exerceu o poder com menos restrições do que qualquer presidente desde Franklin D. Roosevelt. Ainda assim, estrategas republicanos admitem que a dificuldade em convencer os eleitores de que compreende os seus problemas económicos pode levar alguns parlamentares a distanciar-se do presidente para protegerem os seus mandatos.

Assessores indicam que Trump deverá intensificar viagens pelo país para promover a sua agenda económica, embora a dispersão e falta de foco das suas mensagens recentes, aliadas à forte atenção dedicada à política externa, estejam a gerar apreensão dentro do próprio Partido Republicano, conclui a Reuters.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.