Outro 11 de Setembro seria hoje muito mais difícil. Mas a próxima ameaça já não precisa de 19 homens e quatro aviões

Na primeira de três entrevistas da Executive Digest sobre os 25 anos do 11 de Setembro, Nuno Miguel Lemos explica por que repetir hoje um ataque como o de 2001 seria mais difícil – mas também por que a ameaça se tornou mais imprevisível e pode encontrar em Portugal novas vulnerabilidades

Francisco Laranjeira

Há 25 anos, o mundo descobriu que 19 homens, quatro aviões comerciais e uma vulnerabilidade que praticamente ninguém levara a sério eram suficientes para mudar a História. Hoje, repetir o 11 de Setembro daquela forma seria muito mais difícil. E esse pode ser precisamente o problema.

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A ameaça aprendeu connosco. Tornou-se mais pequena, mais rápida, mais solitária e, em muitos casos, muito mais difícil de encontrar. Pode nascer diante de um ecrã e passar despercebida até ao momento do ataque. E a próxima grande vulnerabilidade pode já nem estar no céu: pode estar no fundo do Atlântico, onde passam infraestruturas das quais depende uma parte substancial da vida digital — e onde Portugal ocupa uma posição particularmente exposta.

Na primeira de três entrevistas da ‘Executive Digest’ sobre o mundo que ficou depois do 11 de Setembro, Nuno Miguel Lemos, analista de política internacional e segurança, especializado em política externa, NATO e União Europeia, ameaças híbridas, desinformação e cibersegurança, parte do inimigo que aprendemos a procurar depois de 2001 para chegar àquele que podemos não conseguir ver em 2026. Membro do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, olha para estes 25 anos a partir de uma pergunta essencial: aprendemos realmente a impedir o próximo ataque ou apenas aprendemos a impedir que o anterior se repita?

E deixa um paradoxo inquietante: “Fortificámos a porta contra o inimigo de 2001 e, ao fazê-lo, empurrámos a ameaça para uma forma que a porta já não trava.”

A célula organizada, com dezenas de pessoas, meses de preparação, movimentações financeiras, viagens e comunicações deixou demasiadas vulnerabilidades. A ameaça de 2026 pode precisar apenas de uma pessoa, um ecrã e algumas semanas.

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“O sistema de segurança não eliminou a ameaça, atomizou-a.”

Outro 11 de Setembro seria hoje muito mais difícil

Uma das grandes perguntas deixadas por aquela manhã é inevitável: depois de 25 anos de investimento em informações, vigilância, cooperação internacional e tecnologia, conseguiria hoje uma organização preparar outro 11 de Setembro sem ser descoberta?

Para Nuno Miguel Lemos, dificilmente. “Para uma operação com aquela envergadura, de tal forma estruturada, coordenada e preparada durante meses por dezenas de indivíduos, acredito que não.”

O especialista recorda que o problema em 2001 não foi propriamente a inexistência de informação. “A comunidade de informações possuía dados isolados sobre vários dos futuros terroristas, desde reuniões na Malásia a homens a tirar aulas de voo sem qualquer interesse em aprender a aterrar. A falha foi estrutural e burocrática. A incapacidade de ‘ligar os pontos’ a tempo e de partilhar informação entre agências.”

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Muito mudou desde então.

“A vigilância digital, a interconexão das redes sociais, a monitorização de transações financeiras transfronteiriças, as bases de dados biométricas e a análise de enormes volumes de dados por inteligência artificial criam um ambiente onde a ‘assinatura’ deixada por uma conspiração de dezenas de pessoas seria flagrante.”

É aqui que Nuno Miguel Lemos recupera um dos elementos centrais da preparação dos atentados: a chamada célula de Hamburgo, grupo formado na Alemanha em torno de Mohamed Atta e que incluiu vários dos homens que viriam a participar diretamente nos ataques.

Se uma estrutura semelhante tentasse hoje preparar uma operação daquela dimensão, o especialista não tem grandes dúvidas: “A célula de Hamburgo seria exposta quase de imediato.”

Mas há um reverso nesta evolução. Os sistemas de segurança aprenderam a encontrar organizações como aquela. O terrorismo também aprendeu a sobreviver sem elas.

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“Também fortificámos a porta contra o inimigo de 2001 e, ao fazê-lo, empurrámos a ameaça para uma forma que a porta já não trava.”

O terrorista que ninguém sabe que existe

Mas fechar aquela vulnerabilidade não significou eliminar o terrorismo.

Significou também obrigá-lo a mudar.

“Uma pessoa radicaliza-se sozinha, diante de um ecrã, alimentada por algoritmos que promovem conteúdos extremistas, desde a propaganda jihadista ao aceleracionismo de extrema-direita, e age cineticamente sem nunca ter recebido uma ordem direta de qualquer organização.”

É aquilo que Nuno Miguel Lemos identifica como o paradigma do “terrorismo estocástico”.

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E o tempo necessário para transformar radicalização em violência também mudou.

“O tempo médio de radicalização encurtou de anos para poucas semanas, impulsionado por propaganda de formato curto e pela exploração de vulnerabilidades psicológicas em ambientes de gaming e redes sociais.”

É precisamente a simplicidade deste novo ator que o torna difícil de encontrar. “Este ator não deixa pegada logística, adquire uma faca ou aluga uma carrinha horas antes. Não há célula para infiltrar, conversas para intercetar nem financiamento para rastrear.”

Se a estrutura da Al-Qaeda permitia aos serviços procurar pessoas, dinheiro, comunicações e hierarquias, a ausência dessa estrutura tornou-se agora parte do problema. “A hierarquia era uma vulnerabilidade, mas a sua ausência é a nova letalidade.”

Bin Laden ganhou?

Há outra forma de olhar para o que aconteceu depois de 2001.

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O terrorismo não pretende apenas provocar vítimas. Pretende provocar uma reação.

E, nesse sentido, Nuno Miguel Lemos considera que o verdadeiro triunfo tático da Al-Qaeda não esteve apenas nos atentados, mas na resposta que conseguiu desencadear.

“Bin Laden não esperava derrotar militarmente a hiperpotência, pretendia esgotá-la em terrenos pantanosos, drenar-lhe os recursos e, sobretudo, incitá-la a uma resposta de tal forma desproporcionada que radicalizasse o mundo muçulmano a seu favor.”

Afeganistão e Iraque acabariam por consumir duas décadas de recursos, vidas e atenção política.

“Os próprios atentados foram o estímulo, mas o verdadeiro triunfo tático foi termos executado quase à perfeição o guião que os teóricos jihadistas tinham escrito.”

Nuno Miguel Lemos resume a assimetria numa frase: “Reagimos com o relógio de Washington a um adversário que jogava com o calendário da história.”

Isso não significa, porém, que Osama bin Laden tenha alcançado aquilo que pretendia. “Não ergueu o califado, não uniu o mundo islâmico sob a sua bandeira, e a Al-Qaeda original foi desmantelada estruturalmente e os seus líderes eliminados.”

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Mas se o objetivo era também enfraquecer os Estados Unidos, a resposta torna-se mais desconfortável.

“Temos de admitir que conseguiu, não porque tivesse a força para o fazer, mas porque nos induziu a fazê-lo a nós próprios.”

E deixa uma das imagens mais fortes desta leitura dos últimos 25 anos:

“Bin Laden obteve a ruína que desejava para o inimigo, e nenhuma da ordem que desejava para os seus. O fogo que ateou consumiu Washington e consumiu-o a ele.”

Qual é a “porta do cockpit” de 2026?

Os aviões de 2001 expuseram uma vulnerabilidade que existia à vista de todos. As portas dos cockpits não tinham sido concebidas para impedir que um avião comercial fosse transformado numa arma.

Qual é o equivalente em 2026?

Nuno Miguel Lemos não aponta para aeroportos, centrais nucleares ou inteligência artificial. Aponta para o fundo do oceano.

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“O equivalente contemporâneo não está no ar, está no oceano.”

Em causa estão as infraestruturas digitais submarinas e, em particular, os cabos de fibra ótica que ligam continentes.

E Portugal encontra-se numa posição especialmente sensível.

“Somos uma placa giratória de dados à escala global: cabos como o Equiano e o EllaLink amarram em solo português, em polos como Sines e Carcavelos.”

Por estas infraestruturas passa grande parte das comunicações digitais entre continentes, desde operações financeiras a comunicações governamentais e empresariais.

“Tal como as portas do cockpit em 2001, é uma vulnerabilidade à vista de todos cujo verdadeiro perigo não interiorizámos.”

Uma sabotagem coordenada de pontos críticos poderia ter consequências muito para além de uma simples falha de Internet.

O especialista aponta para o risco de “colapso do sistema de pagamentos, paralisia das cadeias logísticas e alimentares” e perda de capacidade de comunicação.

E deixa um aviso: “Compreenderemos esta dependência total, receio, apenas quando for demasiado tarde para a mitigar.”

Portugal deixou de ser periferia

É também aqui que a história do 11 de Setembro deixa definitivamente os Estados Unidos e chega a Portugal.

Questionado sobre qual é a ameaça à segurança nacional que os portugueses mais subestimam, Nuno Miguel Lemos não escolhe o terrorismo.

Escolhe o mar.

“Os portugueses continuam a imaginar a segurança em termos essencialmente territoriais e terrestres, quando o verdadeiro valor, e a verdadeira vulnerabilidade, de Portugal é marítimo e infraestrutural.”

A posição atlântica portuguesa, durante muito tempo encarada sobretudo como vantagem geográfica, é também uma exposição.

“Temos uma das maiores zonas económicas exclusivas da Europa e uma posição de charneira que liga a Europa às Américas e a África, mas os meios de vigilância e proteção desse domínio não acompanham, de longe, a exposição.”

É uma inversão da forma tradicional de pensar Portugal.

“É aí que somos simultaneamente mais indispensáveis aos nossos aliados e mais apetecíveis aos nossos adversários, e menos capazes de nos defender.”

Para Nuno Miguel Lemos, existe um fosso entre aquilo que o cidadão considera uma ameaça e aquilo que pode efetivamente causar danos sistémicos ao país. “Falta que a opinião pública, e alguma da classe política, percebam que a nossa geografia deixou de ser periférica e tornou-se um alvo.”

A geração que não se lembra do mundo anterior

Há, finalmente, uma particularidade na pessoa que olha para estes 25 anos.

Nuno Miguel Lemos não se lembra do 11 de Setembro. Não poderia. “Tinha cerca de oito meses. Enquanto o mundo assistia, em direto, à queda das torres, o meu maior desafio geopolítico era, presumivelmente, a hora da papa.”

A ausência de memória, porém, diz qualquer coisa sobre o mundo que aqueles atentados deixaram. “Pertenço à primeira geração que não guarda memória de um mundo pré-11 de Setembro.”

Para essa geração, aquilo que para milhões de pessoas representou uma mudança abrupta passou a ser simplesmente normalidade. “A segurança apertada nos aeroportos, a ‘guerra ao terror’, a normalização do Estado de vigilância, nada disto foi uma rutura traumática.”

Nuno Miguel Lemos nasceu poucos meses antes de um acontecimento que viria a marcar grande parte do mundo em que cresceu. “Foi, desde sempre, a água em que aprendemos a nadar.”

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