Os empresários portugueses querem investir, crescer e digitalizar, mas continuam a encontrar obstáculos que limitam essa ambição. Para José Borralho, presidente executivo e fundador da Consumerchoice Europe, o problema não está na falta de vontade das empresas, mas no excesso de entraves com que têm de lidar antes mesmo de conseguirem competir plenamente no mercado.
Na sua leitura da XLIX edição do Barómetro da Executive Digest, o responsável destaca um paradoxo que considera cada vez mais evidente: as empresas parecem acreditar mais na sua própria capacidade do que no país onde operam.
Segundo José Borralho, os empresários já perceberam que a inteligência artificial não é uma moda passageira e que o mundo não vai esperar que Portugal esteja preparado. Ainda assim, quando olham para as condições existentes no país, acabam por travar decisões de investimento e crescimento.
“Portugal não tem falta de ambição empresarial”
Para José Borralho, Portugal não sofre de falta de ambição empresarial, mas de um excesso de obstáculos à ambição.
O responsável considera que o debate sobre competitividade tem sido colocado muitas vezes do lado errado. Em vez de se discutir apenas como tornar as empresas portuguesas mais competitivas, defende que também é necessário perceber quanto dessa competitividade é destruída antes sequer de as empresas chegarem ao mercado.
Na sua perspetiva, uma empresa portuguesa não compete apenas com concorrentes espanhóis, franceses ou americanos. Compete também com formulários, licenças, diferentes interpretações da mesma lei, meses de espera por decisões, uma carga excessiva de impostos, legislação laboral que considera obsoleta e processos difíceis de compreender.
Um “imposto invisível” sobre a iniciativa
José Borralho descreve este conjunto de obstáculos como uma espécie de “imposto invisível” sobre a iniciativa empresarial.
Não aparece numa fatura, mas, na sua análise, acaba por ser pago em horas de gestão desperdiçadas, investimentos adiados, oportunidades perdidas e empresários que deixam de arriscar.
O responsável considera ainda que este ambiente pode levar as empresas a aprender que, em Portugal, por vezes é mais importante saber navegar no sistema do que saber competir no mercado.
É também neste contexto que enquadra os resultados do Barómetro, que mostram vontade de investir e crescer, ao mesmo tempo que identificam fiscalidade e burocracia como grandes bloqueios à competitividade.
Empresas parecem confiar mais nelas próprias do que no país
Para o presidente executivo da Consumerchoice Europe, este é um paradoxo que já vem sendo observado há alguns meses.
As empresas mantêm ambição, querem crescer e estão disponíveis para investir, mas revelam reservas quando avaliam o contexto em que desenvolvem a atividade.
José Borralho considera que esta diferença entre confiança interna e desconfiança nas condições externas ajuda a explicar por que razão os empresários continuam a apontar a fiscalidade e a burocracia como obstáculos centrais.
“Precisamos que nos atrapalhem menos”
Outro dos sinais destacados pelo responsável surge quando as empresas são questionadas sobre aquilo que pretendem do Estado.
A simplificação administrativa aparece entre as principais prioridades, algo que José Borralho interpreta de forma direta: os empresários não estão necessariamente a pedir mais ajuda, mas menos entraves.
Para o responsável, existe uma contradição quando o Estado cria programas, incentivos, fundos, agendas ou estratégias para compensar dificuldades que o próprio funcionamento do Estado ajudou a criar.
Na sua perspetiva, um incentivo destinado a compensar um problema criado pelo próprio sistema não resolve verdadeiramente esse problema e acaba por financiar a própria ineficiência.
“Os empresários parecem preparados para correr”
José Borralho resume a situação com uma imagem: os empresários parecem preparados para correr, enquanto Portugal continua a discutir se lhes dá autorização para apertar os atacadores.
Para o responsável, a grande reforma económica de que o país precisa pode não passar por inventar mais uma política destinada a fazer crescer as empresas, mas por reduzir o peso do Estado sobre a atividade empresarial e colocá-lo ao lado das empresas, em vez de sobre elas.
Este testemunho de José Borralho, presidente executivo e fundador da Consumerchoice Europe, foi publicado na edição de agosto, n.º 245, da Executive Digest, no âmbito da XLIX edição do seu Barómetro.














