Energia, controlo e competitividade: o novo papel das empresas na rede elétrica

O debate público sobre energias renováveis desperta, há vários anos, os mais diversos argumentos e controvérsias.

Pedro SilvaPedro SilvaCountry Manager Prosolia PortugalVer todos os artigos
Pedro Silva
Pedro SilvaCountry Manager Prosolia PortugalJunho 17, 2026 9:11

O debate público sobre energias renováveis desperta, há vários anos, os mais diversos argumentos e controvérsias. A discussão, nem sempre informada ou apoiada em factos, tende a apoiar-se, numa lógica favorável, nas motivações a nível de sustentabilidade e responsabilidade empresarial. Ambas são intrínsecamente válidas e verdadeiras, mas não deverão opor-se ou esmorecer a relevância de um fator decisivo para a sua efetiva implementação: as vantagens financeiras.

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Num cenário macroeconómico altamente instável, em que a energia se posiciona, cada vez mais, como um dos mais relevantes fatores de custo para uma organização, a possibilidade de reduzir esse custo, estabilizá-lo e conferir-lhe previsibilidade traduz-se num fator de competitividade da máxima relevância. As infelizes circunstâncias atuais, marcadas por um conflito no Médio Oriente que impacta diretamente estas variáveis, apenas acentuam a premência desta transformação.

Redução de custos e previsibilidade a longo prazo

A produção fotovoltaica para autoconsumo permite, em muitos casos, gerar eletricidade a um custo inferior ao preço final pago à rede, já com impostos, tarifas e encargos incluídos. Para empresas com consumos relevantes, em particular as que atuam no setor industrial, esta diferença é absolutamente estrutural e decisiva na capacidade de atuação no mercado.

Mas a vantagem não está apenas no preço unitário, mas igualmente na previsibilidade. O mercado elétrico é fortemente influenciado por fatores externos como as tensões geopolíticas, a volatilidade do preço dos combustíveis ou decisões regulatórias que podem provocar oscilações abruptas cada vez mais difíceis de antecipar. Num setor industrial onde as margens são pressionadas e contratos são negociados a médio e longo prazo, essa volatilidade representa um enorme risco.

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Ao produzir internamente parte substancial da energia que consome, a empresa transforma uma despesa variável numa estrutura de custos estável e projetável. Ganha capacidade de planeamento e protege-se de choques externos.

Independência da rede e da vontade política

Há, no entanto, um ponto menos debatido: os custos de acesso à rede.

As tarifas de acesso são uma decisão regulatória. Funcionam, na prática, como um imposto aplicado ao uso da infraestrutura elétrica. Tal como sucede com os combustíveis, uma parte relevante do preço não está associada ao custo intrínseco da energia, mas a decisões políticas.

É cada vez mais comum a opinião de que, a longo prazo, o custo tecnológico da produção renovável tenderá a descer progressivamente. Se é verdade que a energia, enquanto commodity, se aproxima de um custo marginal cada vez mais baixo, os custos de rede, pelo contrário, tendem a aumentar à medida que o sistema se torna mais complexo e exige mais investimento. No nosso país, as tarifas de acesso às redes registaram aumentos anuais que, em alguns níveis de tensão, ultrapassaram os 9% em 2025.

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O autoconsumo altera essa equação. Quando a central fotovoltaica está ligada diretamente à instalação de consumo, a empresa reduz significativamente a necessidade de recorrer à rede. Sair do sistema, neste caso, não representa um risco, mas antes a diminuição da exposição a decisões externas que dificilmente conseguirá influenciar.

De consumidores passivos a participantes ativos na rede

Durante décadas, o sistema elétrico funcionou de forma centralizada: produzia-se em grandes centrais, distribuía-se pela rede e os consumidores limitavam-se a utilizar a energia disponível. O controlo estava concentrado e a gestão era relativamente linear.

A entrada massiva de renováveis alterou profundamente essa arquitetura. Portugal tem ocupado uma posição de destaque a nível europeu na produção de energia a partir de fontes renováveis, com os dados mais recentes a revelarem que estas representaram já 78,5% do total de energia consumida no primeiro trimestre deste ano.

Perante esta transformação, a produção tornou-se descentralizada e intermitente, exigindo tecnologia avançada e sistemas inteligentes para equilibrar oferta e procura em tempo real. O modelo em que poucas centrais eram ajustadas manualmente para responder ao consumo terminou. A rede é hoje dinâmica e será ainda mais com a eletrificação crescente da economia e a expansão dos veículos elétricos.

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Neste novo contexto, os grandes consumidores industriais deixam de ser meros utilizadores passivos. Empresas com autoconsumo fotovoltaico, especialmente quando os sistemas são hibridizados com baterias, ganham capacidade para armazenar energia e deslocá-la no tempo, utilizando-a quando necessário ou disponibilizando-a à rede em momentos críticos.

Esta evolução permite também a participação nos chamados serviços de sistema. Para que a eletricidade circule de forma estável, não basta produzir energia ativa; é necessário assegurar níveis adequados de tensão e frequência. Sistemas industriais equipados com produção renovável e armazenamento podem contribuir para esse equilíbrio, injetando energia ou prestando suporte técnico em situações de instabilidade, um contributo que é remunerado.

Num contexto económico marcado por incerteza e pressão competitiva, soluções que reforçam previsibilidade, eficiência e independência tendem a assumir um papel central na agenda de gestão. A transição energética continuará a evoluir, mas, para as empresas, a questão permanece pragmática: como garantir energia estável, competitiva e alinhada com o futuro. O autoconsumo renovável apresenta-se, cada vez mais, como uma resposta consistente, vantajosa e fiável a esse desafio.

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