As empresas portuguesas mostram vontade de crescer, expandir mercados e acelerar a digitalização e a utilização de inteligência artificial. Mas, para João Duque, professor catedrático do ISEG, há uma questão difícil de ignorar: se as estratégias apontam para crescimento, porque é que o investimento não acompanha essa ambição?
Na sua análise à XLIX edição do Barómetro da Executive Digest, o economista parte precisamente desta contradição para identificar aquele que considera ser um dos principais bloqueios ao desenvolvimento da economia portuguesa: a falta de capital e a dificuldade em atraí-lo.
Empresas sabem o que querem do Governo
João Duque considera que as respostas dos empresários revelam uma visão positiva e clara sobre aquilo que esperam do Governo.
Os pedidos repetem-se ao longo do Barómetro: menos burocracia e uma carga fiscal mais reduzida. Para o professor catedrático do ISEG, esta clareza torna mais fácil perceber quais são os principais anseios dos empreendedores.
Ao mesmo tempo, as expectativas das empresas relativamente ao futuro permanecem moderadamente positivas, com perspetivas de crescimento entre 5% e 20%.
Crescer e digitalizar exige mais investimento
As prioridades empresariais reforçam, na leitura de João Duque, a dimensão do paradoxo.
As empresas mostram-se focadas no crescimento económico, na expansão de mercados, na digitalização e na utilização da inteligência artificial. São estratégias que, segundo o economista, deveriam exigir níveis crescentes de investimento.
No entanto, as expectativas apontam sobretudo para a manutenção do ritmo de investimento.
É esta diferença entre ambição e capacidade de concretização que leva João Duque a questionar por que razão a economia portuguesa não consegue crescer mais e melhor.
“Não se investe mais porque não temos capital”
Para o professor do ISEG, a explicação é direta: o investimento não aumenta porque Portugal não dispõe de capital suficiente e também não tem conseguido atraí-lo.
João Duque sublinha que a inovação exige atualmente volumes de capital que os portugueses não parecem ter disponíveis e que o mercado de capitais também não consegue oferecer.
Na sua perspetiva, esta limitação condiciona estratégias que, noutras circunstâncias, poderiam permitir às empresas acelerar o crescimento, expandir-se para novos mercados e investir mais intensamente na transformação tecnológica.
Poupança continua concentrada na banca
Outro dos problemas identificados pelo economista é a forma como o aforro continua concentrado na intermediação bancária.
João Duque considera que esta situação beneficia o setor bancário, mas não proporciona os ganhos de eficiência que poderiam resultar de um mercado de capitais mais desenvolvido.
Na sua leitura, reforçar o papel do mercado de capitais permitiria criar melhores condições para financiar as empresas e apoiar projetos que exigem maiores volumes de investimento.
Portugal tem tudo preparado, menos o “filme”
João Duque encerra a sua análise com uma metáfora para explicar aquilo que considera faltar à economia portuguesa.
Portugal seria como uma máquina fotográfica em que o fotógrafo dispõe de uma excelente posição, de um bom enquadramento, de luz favorável, do equipamento adequado e está preparado para disparar.
Falta apenas o “filme”.
Na leitura do professor catedrático do ISEG, esse elemento em falta é o capital necessário para transformar estratégias de crescimento, expansão, digitalização e inteligência artificial em investimento efetivo.
Este testemunho de João Duque, professor catedrático do ISEG, foi publicado na edição de agosto, n.º 245, da Executive Digest, no âmbito da XLIX edição do seu Barómetro.














