Vale a pena comprar casa em vez de continuar a arrendar?

Há uma frase que se repete em quase todas as conversas sobre habitação em Portugal e que passou a funcionar como um axioma: pagar renda é deitar dinheiro fora

Executive Digest com ComparaJá.pt

Há uma frase que se repete em quase todas as conversas sobre habitação em Portugal e que passou a funcionar como um axioma: pagar renda é deitar dinheiro fora. Quem a diz raramente a explica, e quem a ouve raramente a contesta. Serve para encerrar a discussão antes de ela começar, e é precisamente por isso que vale a pena reabri-la.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

A pergunta parece ser sobre imóveis e não é. É sobre três coisas que costumam andar misturadas: onde uma pessoa quer estar daqui a dez anos, quanto dinheiro tem disponível hoje sem tocar na almofada de segurança, e quanta variação mensal consegue absorver sem alterar a vida. A resposta muda consoante estas três, e não consoante o preço do metro quadrado.

A favor da compra está um argumento que é mais sólido do que o slogan que costuma acompanhá-lo, e que a análise do ComparaJá sobre comprar ou arrendar casa já detalhava antes de os preços atingirem os níveis atuais. Comprar transforma uma despesa que sobe indefinidamente numa despesa que, cumprido o prazo, termina. Um contrato de arrendamento atualiza-se todos os anos e não tem horizonte; uma prestação de crédito tem uma data em que deixa de existir. Há ainda o efeito de poupança forçada: parte de cada prestação amortiza capital, e essa parte é dinheiro que fica, ao contrário da renda. E há a estabilidade, que não aparece em nenhuma folha de cálculo mas pesa muito na decisão de quem tem filhos em idade escolar ou trabalho fixo numa zona concreta.

Contra a compra há custos que quase nunca entram na comparação. O primeiro é a entrada, que hoje representa a maior barreira real: os dados do ComparaJá mostram uma poupança inicial média de 35.982 euros nos compradores com menos de 35 anos e de 117.158 euros nos restantes, e esse dinheiro sai de circulação no dia da escritura. O segundo é o conjunto de encargos que não desaparecem depois: imposto municipal, condomínio, seguros obrigatórios e manutenção, que numa casa antiga podem consumir um mês de prestação por ano. O terceiro, e o mais subestimado, é a perda de mobilidade. Vender um imóvel demora meses e tem custos de transação, o que significa que uma oportunidade profissional noutra cidade passa a ter um preço.

Compensa comprar a quem tem horizonte longo na mesma zona, entrada disponível sem esvaziar a poupança de segurança, e rendimento estável o suficiente para absorver uma subida do indexante sem entrar em esforço. A regra prática que a maior parte dos especialistas subscreve é a dos cinco anos: abaixo desse período, os custos de entrada e de saída raramente são recuperados pela valorização.

Continue a ler após a publicidade

Não compensa a quem está no início de carreira e ainda não sabe onde vai estar, a quem teria de usar toda a poupança na entrada e ficaria sem margem para um imprevisto, e a quem vive numa zona onde a renda representa uma fração baixa do valor do imóvel. Nesses casos, arrendar não é desperdício: é o preço de manter opções em aberto, e as opções valem dinheiro.

A resposta honesta é que a pergunta está mal formulada. Comprar não é sempre melhor do que arrendar, nem o contrário. Comprar é melhor para quem já sabe onde quer estar; arrendar é melhor para quem ainda não sabe. E o erro mais caro que se comete nesta decisão não é escolher mal entre as duas, é comprar cedo demais por pressão social e ficar preso a uma casa que já não serve, com uma prestação que passou a pesar mais do que a renda que se recusava a pagar.

Fica um exercício prático para quem estiver a hesitar. Somar durante um ano tudo o que uma casa própria custaria além da prestação, incluindo imposto, condomínio, seguros e uma reserva para reparações, e comparar esse total com a renda atual. Depois, verificar quanto sobraria da poupança depois de paga a entrada e as despesas da escritura. Se o que sobra não cobrir seis meses de despesas fixas, a conversa não é sobre comprar ou arrendar, é sobre esperar mais um ano. Uma calculadora de despesas e orçamento familiar chega para fazer as duas contas, e o resultado costuma ser mais claro do que a discussão que o precede.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.