Vale a pena juntar as contas quando se vive a dois?

Há uma conversa que quase todos os casais adiam e que acaba por se resolver sozinha, quase sempre mal

Executive Digest com ComparaJá.pt

Há uma conversa que quase todos os casais adiam e que acaba por se resolver sozinha, quase sempre mal. Chega-se a um ponto em que já se divide a casa, o supermercado e as férias, mas cada um continua a pagar de onde lhe calha, com transferências a correr de um lado para o outro e ninguém a saber ao certo quem pagou o quê. Mais cedo ou mais tarde alguém pergunta se não seria mais simples juntar tudo numa conta só.

A pergunta parece administrativa e não é. Por trás dela estão três coisas diferentes que convém não confundir: como se paga o que é comum, como se decide o que é comum, e quanta autonomia cada um mantém sobre o que ganha. Juntar contas resolve a primeira e mexe nas outras duas sem avisar.

A favor da conta conjunta está sobretudo a redução de atrito. Uma única conta para as despesas partilhadas elimina o acerto permanente, torna visível o que a casa custa por mês e simplifica a vida quando um dos dois fica doente, viaja ou perde o acesso a alguma coisa. Há também uma vantagem menos falada: quando as despesas comuns saem de um sítio identificado, é muito mais fácil perceber para onde vai o dinheiro. A maior parte dos casais que faz um orçamento familiar pela primeira vez descobre que gasta bastante mais em despesa recorrente do que julgava, e a conta conjunta é o instrumento que torna esse número visível.

Contra, há riscos concretos e é honesto enunciá-los. O primeiro é a diluição da autonomia: numa conta só, qualquer compra pessoal fica exposta ao olhar do outro, e essa vigilância involuntária é uma fonte de conflito bem documentada, sobretudo quando os rendimentos são muito diferentes. O segundo é jurídico e quase nunca é considerado: numa conta solidária, cada titular pode movimentar a totalidade do saldo sozinho, e o dinheiro deixa de ter dono identificável. Em caso de separação, de dívida de um dos dois ou de falecimento, isso tem consequências práticas que apanham muita gente desprevenida. O terceiro é o desequilíbrio silencioso: dividir tudo a meias quando um ganha o dobro do outro é matematicamente igual e materialmente injusto, porque o esforço relativo é completamente diferente.

Compensa juntar a quem tem rendimentos semelhantes, uma vida financeira já entrelaçada e despesas comuns que representam a maior parte do orçamento, tipicamente casais com casa própria e filhos. Compensa também a quem sente que a gestão separada está a consumir energia e a gerar discussões de acerto de contas, porque nesses casos o problema não é o dinheiro, é a fricção.

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Não compensa a quem tem rendimentos muito desiguais e não está disposto a discutir um critério de repartição, a quem tem dívidas anteriores à relação, porque o saldo comum passa a estar exposto a elas, nem a quem tem uma atividade por conta própria com fluxos irregulares, que se mistura mal com a despesa doméstica. E não compensa, de todo, como substituto de uma conversa que não se está a ter.

A resposta, para a maioria dos casais, é sim, mas não da forma como a pergunta é feita. O modelo que funciona melhor não é uma conta, são três: uma conjunta, para onde cada um transfere todos os meses uma percentagem do que ganha, e não um valor igual, e duas individuais, que ficam intocadas. A percentagem resolve o desequilíbrio de rendimentos sem obrigar ninguém a justificar-se, e as contas individuais preservam o espaço pessoal que faz a diferença entre partilhar e fiscalizar.

Fica um passo prático para quem quiser experimentar. Antes de abrir seja o que for, vale a pena somar durante um mês tudo o que sai para despesa verdadeiramente comum: renda ou prestação da casa, luz, gás, telecomunicações, seguros, supermercado. Esse número é o que a conta conjunta tem de suportar, e é também o que determina a percentagem que cada um transfere. Uma calculadora de despesas e orçamento familiar chega para fazer a conta.

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Quase sempre, o exercício revela duas ou três despesas fixas que ninguém tinha revisto há anos, e o casal acaba a poupar antes mesmo de decidir se junta as contas.

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