Diáspora: “Portugal continua a ser uma âncora importante para mim”

Num sector onde a estabilidade, o rigor e a capacidade de adaptação são determinantes, Rui Pinto construiu uma carreira marcada por desafios sucessivos e por uma crescente exposição internacional

André Manuel Mendes

Hoje, o executivo por­tuguês assume a função de director financeiro da Baloi­se Luxembourg, uma das seguradoras mais relevantes no ecossis­tema financeiro lu­xemburguês, depois de um percurso que começou longe dos planos traçados para o sector segurador.

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Formado em engenharia comercial, foi através da auditoria que descobriu uma indústria que o atraiu pela sua comple­xidade regulatória, sofisticação técnica e dimensão estratégica. Ao longo dos anos, foi acumulando experiência em funções financeiras, gestão de risco e liderança, numa evolução que o levou de especialista técnico a responsável por decisões com impacto transversal no negócio.

Em entrevista à Executive Digest, Rui Pinto fala sobre os momentos de mudança na carreira, os desafios de liderar finanças num dos principais hubs europeus de seguros e gestão de activos, bem como a ligação a Portugal, país que continua a considerar «uma âncora importante» na sua vida pessoal e profissional.

O que diz Rui…

Que factores foram decisivos nas várias mudanças de função ao longo da sua carreira?

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Houve dois factores que moldaram de forma consistente as principais mudanças de função na minha carreira. O primeiro foi a qualidade do desafio: senti-me atraído por funções que alargavam a minha perspectiva, seja através de um novo en­quadramento regulatório, de uma agenda de transformação ou de um mandato de gestão mais amplo.

O segundo factor foram as pessoas. As organizações fortes são importantes, mas também o são líderes exigentes e ins­piradores, assim como equipas que combinam competência técnica com a atitude certa. Quando esses dois elementos se juntam – um desafio relevante e as pessoas certas – a decisão normalmente torna-se clara.

Houve algum momento em que sentiu verdadeiramente que a sua carreira estava a sair da “zona de conforto”?

Tornar-me Head of Finance foi provavelmente o momento mais evidente de saída da minha zona de conforto. Até então, o meu foco estava mais concentrado no reporting e na entrega de in­formação financeira de elevada qualidade. De repente, a função tornou-se muito mais abrangente: definir prioridades para toda a área, construir a narrativa por detrás dos números e influenciar decisões para além da própria função financeira. Exigiu também um tipo diferente de liderança – fazer escolhas com informação incompleta, interagir mais directamente com stakeholders sénior e criar alinhamento entre equipas. Foi exigente, mas também muito formativo em termos de confiança e impacto.

Assume a função de Head of Finance da Baloise Luxem­bourg. O que muda na forma como toma decisões e lidera?

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O que mais muda é a necessidade de nos afirmarmos rapida­mente num novo contexto, integrando-nos depressa, com­preendendo as novas linhas de negócio e as suas dinâmicas, e contribuindo com impacto desde o primeiro momento. Na prática, isso significa ouvir e aprender rapidamente, sendo capaz de tomar decisões claras sem o benefício de uma fami­liaridade construída ao longo do tempo.

Exige também construir credibilidade desde cedo, tanto como líder financeiro como enquanto colega à mesa de decisão ao mesmo tempo que se compreende como as prioridades, os riscos e as oportunidades de crescimento são enquadrados nesta organização específica. Nesse sentido, a função exige não apenas capacidade de julgamento e decisão, mas também adaptação rápida e capacidade de contribuir para um conjunto mais amplo de temas de negócio desde o primeiro dia.

Que aprendizagens traz das suas experiências anteriores e que considera hoje decisivas para esta nova função?

As primeiras experiências deram-me bases técnicas sólidas e disciplina em torno do controlo, da contabilidade e da regulação. As funções posteriores reforçaram a importância das finanças como verdadeiro parceiro do negócio, apoiando a transformação, a tomada de decisão estratégica e a gestão de performance e não apenas reporting.

Trabalhar no ambiente luxemburguês de seguros de vida especializados e gestão de património ensinou-me também a navegar complexidade, seja ela regulatória, operacional ou transfronteiriça.

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No conjunto, essas experiências confirmaram-me que uma liderança financeira eficaz assenta em três pilares: credibilidade técnica, capacidade de julgamento em contextos de incerteza e aptidão para ligar decisões financeiras à agenda estratégica mais ampla do negócio.

O Luxemburgo é um dos hubs europeus mais relevantes para seguros e gestão de activos. O que torna este ecos­sistema tão competitivo?

A competitividade do Luxemburgo assenta numa combinação única e difícil de replicar. É um mercado inerentemente interna­cional: clientes, talento, reguladores e prestadores de serviços operam num ambiente genuinamente transfronteiriço. O país beneficia também de um ecossistema muito denso em torno dos seguros, da gestão de activos e da estruturação patrimonial, promovendo proximidade entre decisores e competências altamente especializadas. Por fim, a regulação, muitas vezes vista apenas como uma limitação, tornou-se também um factor diferenciador. Ao aprender a operar dentro de um enquadra­mento exigente, o mercado desenvolveu uma reputação não apenas de escala, mas também de fiabilidade, sofisticação e capacidade de execução em estruturas financeiras complexas.

Quais são hoje os principais riscos para a indústria segu­radora no Luxemburgo?

A questão é menos a existência de um único risco dominante e mais a forma como vários riscos interagem entre si. O risco de mercado continua a ser fundamental, sobretudo num contexto de volatilidade das taxas de juro e dos preços dos activos. No entanto, as pressões regulatórias e a complexidade operacional estão a tornar-se cada vez mais críticas, porque condicionam a capacidade de resposta das empresas.

À medida que os negócios crescem, alargam a oferta de produ­tos e enfrentam requisitos de reporte mais exigentes, o grande desafio passa por manter controlo, garantir qualidade dos dados e assegurar disciplina de execução sem perder agilidade. Neste contexto, uma abordagem baseada no risco é essencial. A comple­xidade não é apenas algo a gerir; para as empresas que conseguem antecipá-la, estruturá-la e agir sobre ela de forma decisiva, pode também tornar-se uma fonte de vantagem competitiva.

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Portugal representa cerca de 22% dos activos sob ges­tão da Baloise Vie e aproximadamente 20% dos prémios emitidos. Como explica o peso significativo de um único mercado dentro do grupo?

Uma grande parte dessa posição explica-se pelo timing e pelo papel que a empresa desempenhou no desenvolvimento do mercado. Estar presente desde cedo e contribuir para a criação e estruturação desse mercado permitiu à empresa construir um conhecimento local profundo, relações fortes e uma plata­forma com verdadeira capacidade de permanência. Ao longo do tempo, essa posição inicial foi reforçada pela relevância da oferta de produtos e pela consistência da execução.

Quando as soluções permanecem alinhadas com as neces­sidades dos clientes e são suportadas por uma entrega disci­plinada ano após ano, a liderança tende a manter-se. Assim, o peso de Portugal dentro do grupo não resulta apenas de uma concentração de negócio; reflecte um mercado em que a empresa ajudou a criar a oportunidade desde cedo e depois consolidou a sua posição através de relevância, consistência e compromisso de longo prazo.

Enquanto executivo português numa estrutura internacio­nal, sente que existe um “estilo de liderança português” reconhecido lá fora?

Teria cuidado em definir liderança de forma demasiado estreita pela nacionalidade, porque a liderança é moldada sobretudo pelo contexto, pela experiência e pelos valores pessoais. Dito isto, os executivos portugueses são frequentemente associados a adaptabilidade, pragmatismo e forte capacidade de criar relações. Vir de um país relativamente pequeno mas aberto ao exterior pode incentivar flexibilidade e facilidade de integração em ambientes internacionais.

Na minha experiência, o que mais tende a contar no estrangei­ro não é a nacionalidade em si, mas a capacidade de combinar substância, humildade e capacidade de execução.

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O que é que Portugal ainda lhe dá hoje, tanto a nível pessoal como profissional, mesmo após tantos anos no estrangeiro?

Portugal continua a ser uma âncora importante para mim. A nível pessoal, faz parte da minha identidade e é uma fonte de perspectiva e equilíbrio. Essa ligação está também muito presente na vida familiar: a minha mulher é portuguesa, as nossas filhas cresceram com o português como primeira língua e regressamos ao sul de Portugal duas ou três vezes por ano, o que mantém essa ligação cultural muito viva e concreta.

Profissionalmente, é também uma lembrança de que talen­to, ambição e oportunidade não são definidos pela geografia. Manter essa ligação é importante porque preserva tanto um sentido de raízes como uma compreensão de um mercado que continua a ter relevância no panorama empresarial mais amplo. Em muitos aspectos, viver muito tempo no estrangeiro tende mais a reforçar essa ligação do que a diluí-la.

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