“O desafio não está na construção nova, mas sim na transformação do parque existente”: Ricardo Figueira, Bosch Home Comfort

À frente da Bosch Home Comfort na Península Ibérica, Ricardo Figueira explica à Executive Digest a importância estratégica da unidade de Aveiro e os desafios que ainda travam a reabilitação energética.

André Manuel Mendes

A transição energética está a transformar profundamente o mercado da climatização, obrigando fabricantes, instaladores e consumidores a adaptarem-se a uma nova realidade.

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À frente da Bosch Home Comfort na Península Ibérica, Ricardo Figueira explica à Executive Digest como a empresa está a responder a esta mudança, fala da importância estratégica da unidade de Aveiro, da maior aquisição da história da Bosch e dos desafios que ainda travam a reabilitação energética.

 

O setor da climatização e conforto térmico está no centro da transição energética europeia. Como está a Bosch a reposicionar a sua divisão Home Comfort neste novo contexto?

O setor está a atravessar uma profunda transformação, impulsionada pela descarbonização, eletrificação e digitalização. Neste contexto, a Bosch Home Comfort está a reforçar a sua posição como fornecedor integrado de soluções de aquecimento, climatização e água quente sanitária, assentes na força das suas marcas premium: Vulcano e Bosch.

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Um marco importante que se junta a esta evolução é a integração da Johnson Controls-Hitachi, a maior aquisição da história da Bosch. Esta operação amplia significativamente a nossa presença global, reforça as nossas capacidades tecnológicas e industriais e permite-nos disponibilizar o portefólio mais completo do mercado, desde soluções de aquecimento e água quente sanitária até sistemas avançados de climatização para aplicações residenciais, comerciais e industriais.

O nosso objetivo é acompanhar a transição energética com uma abordagem pragmática e orientada para o cliente. Acreditamos que a descarbonização não pode ser alcançada através de uma única tecnologia, mas sim através de uma oferta ampla e flexível, que inclua desde esquentadores e termoacumuladores de elevada eficiência, a equipamentos de ar condicionado de última geração, bombas de calor, sistemas híbridos e outras soluções de elevada eficiência adaptadas às diferentes necessidades de cada cliente e edifício.

Para além de consolidarmos a nossa liderança nas áreas da água quente sanitária e do aquecimento, queremos acelerar o nosso crescimento na climatização residencial e comercial, tirando partido da complementaridade das nossas marcas, tecnologias e canais de acesso ao mercado. A nossa ambição é clara: disponibilizar soluções eficientes, sustentáveis e acessíveis que facilitem uma transição energética realista e viável para os nossos clientes.

A crescente eletrificação dos edifícios e a pressão regulatória estão a acelerar a mudança tecnológica. Quais são hoje as maiores oportunidades (e também os principais riscos) para o setor?

A descarbonização dos edifícios e a transição energética representam uma grande oportunidade para Portugal e Espanha. Ambos os países registam uma elevada penetração de energias renováveis e dispõem de um significativo potencial de melhoria da eficiência energética de habitações e edifícios, especialmente através da reabilitação do parque edificado existente. Apesar da recuperação dos níveis de construção nova, a renovação do parque habitacional continua a ser o principal eixo da transição energética. Atualmente, estamos a reabilitar entre quatro e cinco vezes menos do que o necessário para cumprir os objetivos climáticos. Isto demonstra claramente que o desafio não está na construção nova, mas sim na transformação do parque existente, cuja realidade exige uma abordagem flexível.

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A eletrificação, impulsionada por tecnologias como as bombas de calor e os sistemas de ar condicionado de elevada eficiência, terá um papel fundamental. No entanto, a realidade do mercado exige uma abordagem pragmática e tecnologicamente aberta. Nem todos os edifícios podem ser eletrificados de forma imediata, pelo que soluções como os sistemas híbridos, incluindo esquentadores e caldeiras de condensação eficientes, compatíveis com a utilização de gases renováveis, também farão parte da transição.

As principais oportunidades passam por acelerar a reabilitação energética, promover a digitalização dos sistemas e disponibilizar soluções adaptadas a cada necessidade. Por outro lado, o setor terá de enfrentar desafios importantes, como a estabilidade regulatória, a continuidade dos incentivos à reabilitação, a adaptação das redes elétricas a uma procura cada vez mais eletrificada e a disponibilidade de profissionais qualificados. A transição energética não será apenas uma questão tecnológica, mas também de execução, formação e colaboração entre administrações públicas, indústria e profissionais.

A disponibilidade de profissionais qualificados será um dos fatores decisivos para acelerar a transição energética. O instalador deverá assumir, cada vez mais, um perfil multidisciplinar, capaz de trabalhar com climatização, eletricidade, conectividade e consultoria em matéria de regulamentação e incentivos associados à transição energética. Por essa razão, a Bosch realiza um investimento significativo na formação, dispondo de oito centros de treino em Portugal e Espanha. Um exemplo claro deste compromisso é o Instituto de Formação Vulcano, que forma e certifica os profissionais de hoje e do futuro nas áreas das soluções de água quente sanitária, climatização e energia solar térmica. O nosso objetivo é acompanhar os profissionais na aquisição de novas competências e contribuir para reduzir um dos principais estrangulamentos do mercado.

 

Que importância estratégica assume a unidade de Aveiro dentro da cadeia de valor da Bosch Home Comfort na Europa?

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Aveiro tem uma importância muito especial para a Bosch Home Comfort e também para mim, porque foi aí que iniciei o meu percurso dentro do Grupo. Trata-se de uma unidade com uma trajetória industrial muito sólida e com um papel estratégico na cadeia de valor da divisão na Europa.

Em 2025, a unidade exportou para mais de 40 países, o que reflete a sua relevância não apenas para o mercado ibérico, mas também para a presença internacional da Bosch Home Comfort. É a nossa principal fonte de produtos e a maior unidade de produção e I&D de toda a divisão Bosch Home Comfort a nível mundial. Recebeu um investimento superior a 100 milhões de euros nos últimos três anos. Produz um leque equilibrado de tecnologias, desde esquentadores e caldeiras até soluções de aerotermia, o que nos permite responder de forma mais eficaz aos ciclos do mercado.

Adicionalmente, com a aquisição da Johnson Controls-Hitachi, passámos a contar com outra fábrica na Península Ibérica, localizada em Vacarisses, Barcelona, com cerca de 500 colaboradores e uma equipa própria de I&D. Esta unidade recebeu igualmente um investimento significativo e dispõe atualmente de 14 linhas de produção com um elevado nível de automatização.

Assim, com ambas as fábricas, não estamos a falar apenas de produção e I&D para o mercado ibérico, mas de uma plataforma industrial relevante para a Europa e outros mercados, que representa de forma exemplar a combinação que procuramos enquanto empresa: capacidade industrial, conhecimento técnico, inovação e proximidade às necessidades do mercado.

 

Em que medida o mercado ibérico está mais ou menos avançado do que outros mercados europeus na adoção de soluções de eficiência energética e climatização sustentável?

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O mercado ibérico é um mercado dinâmico e com um potencial muito significativo, mas também com particularidades que condicionam o ritmo de adoção. Em alguns países do norte da Europa, como a Alemanha, a transição para determinadas tecnologias, como as bombas de calor, tem sido acelerada por enquadramentos de apoio mais estáveis, pela predominância da habitação unifamiliar e por uma maior tradição de reabilitação energética.

Na Península Ibérica, a evolução tem sido mais gradual. Por um lado, existe uma crescente consciência relativamente à eficiência energética, ao conforto e à redução dos consumos. Verifica-se também um avanço claro da climatização eficiente, da aerotermia, das soluções conectadas e da substituição de esquentadores e caldeiras antigos por equipamentos mais eficientes. Por outro lado, o parque edificado é muito diversificado, com um peso significativo da habitação multifamiliar e de edifícios existentes onde uma substituição integral nem sempre é simples ou economicamente viável.

Por isso, nos nossos mercados – Portugal e Espanha – a transição deve ser particularmente equilibrada. Não se trata apenas de eletrificar, mas de disponibilizar soluções realistas: bombas de calor quando representam a melhor opção, sistemas híbridos quando permitem uma evolução gradual, entre outras alternativas. É precisamente aqui que vemos uma grande oportunidade para acelerar a adoção de soluções mais sustentáveis sem perder de vista a realidade do mercado.

As principais oportunidades passam por acelerar a reabilitação energética, promover a digitalização dos sistemas e disponibilizar soluções adaptadas às necessidades específicas de cada utilizador. Ao mesmo tempo, o setor terá de enfrentar desafios importantes, como a estabilidade regulatória, a continuidade dos incentivos à reabilitação, a adaptação das redes elétricas a uma procura cada vez mais eletrificada e a disponibilidade de profissionais qualificados. A transição energética não será apenas uma questão tecnológica, mas também de execução, formação e colaboração entre administrações públicas, indústria e profissionais.

 

Olhando para os seus mais de 20 anos no grupo Bosch, que experiências foram mais determinantes na forma como hoje encara a liderança e a gestão de negócio?

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Destacaria a oportunidade de conhecer o negócio a partir de perspetivas muito diferentes. Desempenhei funções tanto em organizações de vendas como em unidades de negócio, liderei equipas internacionais e vivi em cinco países. Esta diversidade ensinou-me que a liderança consiste, acima de tudo, em ligar a estratégia à execução através das pessoas.

Também tive a oportunidade de liderar processos de transformação em diferentes mercados e contextos. Dessas experiências aprendi que as mudanças sustentáveis não são impulsionadas pelas estruturas, mas sim por equipas comprometidas, com um propósito claro e capacidade de adaptação. Hoje, num setor que está a viver uma profunda transformação impulsionada pela transição energética e pela eletrificação, continuo a acreditar que as chaves da liderança são as mesmas: proximidade às pessoas, orientação para o cliente, mentalidade empreendedora e uma atitude permanente de aprendizagem.

 

Iniciou o seu percurso na unidade de Aveiro e passou por vários mercados internacionais. De que forma essa diversidade geográfica moldou a sua visão estratégica?

A experiência de ter trabalhado em Portugal, Espanha, Alemanha, Colômbia e México foi fundamental para moldar a minha visão estratégica. Permitiu-me compreender que não existe uma única forma de criar valor e que o sucesso depende de combinar uma visão global com uma execução adaptada à realidade de cada mercado. Além disso, também me ensinou a importância de escutar, compreender diferentes perspetivas e manter sempre o cliente no centro das decisões. Hoje, como VP Sales Iberia, essa experiência ajuda-me a ligar a força global da Bosch – a sua tecnologia, capacidade industrial e força da marca – às necessidades específicas dos nossos clientes, parceiros e mercados locais, transformando essa combinação numa vantagem competitiva.

Ao longo da sua carreira, liderou equipas em contextos culturais e de mercado muito distintos. O que aprendeu sobre liderança em ambientes de transformação acelerada?

Aprendi que, em momentos de transformação, a liderança deve ser muito clara na definição da direção, mas também muito próxima na execução. Quando um setor muda tão rapidamente como o nosso, as equipas precisam de compreender para onde estamos a caminhar, porque tomamos determinadas decisões e qual o seu papel nesse processo.

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Também aprendi que ouvir é fundamental. Em contextos culturais e de mercado distintos, não é possível liderar apenas a partir de uma visão centralizada. É necessário ouvir o cliente, o instalador, as equipas locais e as equipas transversais. Muitas vezes, as melhores decisões surgem da combinação entre uma estratégia global e o conhecimento daqueles que estão mais próximos do mercado.

Outro ensinamento importante é que a transformação não se alcança apenas com tecnologia. Exige talento, formação, confiança e capacidade para gerir a incerteza. Na Bosch Home Comfort, estamos a viver uma fase de mudança particularmente relevante, tanto devido à evolução energética do setor como à integração de novas capacidades globais. Neste contexto, liderar significa ajudar as equipas a adaptarem-se, criar espaços de colaboração e manter o foco no cliente e numa perspetiva de longo prazo.

 

Que desafios pessoais e profissionais considera mais exigentes nesta nova fase?

Estamos num momento particularmente entusiasmante para o nosso setor. A transição energética, a eletrificação e a digitalização estão a transformar a forma como as habitações e os edifícios gerem o conforto, e o nosso desafio é converter essa transformação em soluções eficientes, acessíveis e adaptadas às necessidades reais dos clientes.

Neste contexto, a digitalização será um fator cada vez mais decisivo. A conectividade permite aos utilizadores otimizar os consumos e melhorar a sua experiência, aos profissionais prestar um serviço mais ágil e eficiente, e aos fabricantes desenvolver produtos mais bem adaptados à utilização real. Tudo isto, naturalmente, garantindo os mais elevados padrões de cibersegurança.

Mas, para além da tecnologia, o verdadeiro desafio passa por acelerar a adoção destas soluções em conjunto com toda a cadeia de valor: instaladores, distribuidores, prescritores e consumidores. A inovação só gera impacto quando é simples de implementar e acrescenta valor tangível ao mercado.

Numa perspetiva pessoal, o desafio consiste em liderar esta nova etapa mantendo o equilíbrio entre visão estratégica e proximidade às pessoas. Depois de mais de 20 anos na Bosch, continuo convencido de que as transformações mais bem-sucedidas são aquelas que combinam uma direção clara, equipas comprometidas e uma execução próxima do cliente.

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A minha ambição para esta nova fase é continuar a impulsionar o crescimento da Bosch Home Comfort na Península Ibérica e contribuir para que a transição energética deixe de ser apenas um objetivo para o futuro e passe a ser uma realidade concreta para os nossos clientes e para a sociedade.

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