Durante séculos, estudiosos, religiosos e investigadores tentaram transformar uma das descrições mais famosas da Bíblia num lugar que pudesse ser encontrado num mapa. Onde ficava o Jardim do Éden?
Uma Bíblia impressa em 1599 guarda uma resposta com mais de quatro séculos.
No seu interior encontra-se um mapa intitulado “The Situation of the Garden of Eden”, que coloca o paraíso bíblico na região então identificada como Grande Arménia, junto a montanhas associadas ao Monte Ararat, na atual Turquia.
Segundo o ‘Daily Mail’, a localização indicada pelo mapa corresponde, traduzida para a geografia moderna, a uma região do leste da Turquia, relativamente próxima das atuais fronteiras com a Arménia e o Irão.
Não significa, naturalmente, que tenha sido descoberto o Jardim do Éden. O documento revela antes algo diferente: onde estudiosos do século XVI acreditavam poder localizar geograficamente o paraíso descrito no Génesis.
E por detrás do mapa encontra-se uma tentativa engenhosa de resolver um problema que atravessou séculos.
Quatro rios que não se encontram
O Livro do Génesis descreve um rio que saía do Éden e posteriormente se dividia em quatro: Pisom, Giom, Tigre e Eufrates.
Dois são relativamente fáceis de associar à geografia atual: o Tigre e o Eufrates.
Os outros dois deram origem a interpretações muito diferentes. Durante séculos, o Pisom e o Giom chegaram a ser identificados, respetivamente, com rios tão distantes como o Ganges e o Nilo.
A hipótese criava um problema evidente.
Esses quatro rios não pertencem ao mesmo sistema hidrográfico e não se encontram num ponto que corresponda à descrição bíblica.
Foi precisamente esta contradição que o reformador protestante João Calvino tentou resolver no século XVI.
A solução de João Calvino
O mapa encontrado na Bíblia de 1599 é uma cópia de outro elaborado a partir da interpretação de Calvino e publicado pela primeira vez no seu comentário ao Génesis, em 1554.
De acordo com um estudo em pré-publicação de Justine Angelique Walden, que ensinou História na Universidade de Wisconsin-Madison, Calvino propôs uma leitura diferente do texto.
O termo bíblico traduzido como “cabeceiras” poderia, segundo a sua interpretação, referir-se tanto ao início como à foz de um rio.
A partir daí, Calvino defendeu que Pisom e Giom não seriam necessariamente rios independentes. Poderiam corresponder a designações atribuídas às secções inferiores ou às saídas do Tigre e do Eufrates.
Desta forma, os quatro nomes poderiam pertencer ao mesmo grande sistema hidrográfico.
E o problema geográfico ficava, pelo menos para Calvino, resolvido.
O Éden poderia ter existido na Mesopotâmia.
O mapa ainda mostra lugares que reconhecemos hoje
O documento inclui referências à Mesopotâmia, Babilónia, Havilá, ao deserto da Arábia, ao Golfo Pérsico e ao Mar Cáspio.
O Eufrates aparece a nascer entre as montanhas e a seguir para oeste, enquanto o Mar Cáspio surge a leste.
A disposição coloca o Éden nas proximidades das cabeceiras montanhosas do Eufrates e da região associada ao Monte Ararat.
Há, porém, um detalhe particularmente curioso.
O mapa indica a região geral onde o Éden teria estado, mas não desenha claramente as fronteiras do Jardim.
Para Walden, essa ambiguidade permitia transmitir simultaneamente duas ideias: o paraíso tinha sido um lugar real e geograficamente localizável, mas já não existia da forma descrita no Génesis.
“Eden tinha sido precisamente localizável; agora restavam apenas vestígios da sua existência, como os quatro rios”, escreve a historiadora no trabalho citado pelo ‘Daily Mail’.
Uma Bíblia com uma história própria
O exemplar pertence à chamada Bíblia de Genebra, produzida por estudiosos protestantes ingleses que abandonaram Inglaterra e se refugiaram na Suíça.
Estima-se que tenham sido impressos até 360 mil exemplares entre 1560 e 1644.
O mapa de 1599 mostra assim muito mais do que uma tentativa de localizar um lugar bíblico. É também um retrato da forma como estudiosos europeus do século XVI tentavam conciliar textos religiosos antigos com o conhecimento geográfico disponível.
Mais de 400 anos depois, a pergunta continua sem uma resposta demonstrável.
E as hipóteses continuam a aparecer.
Outra teoria coloca o Éden em África
Em 2025, uma investigação não revista por pares apresentou uma localização completamente diferente.
Mahmood Jawaid, engenheiro químico no Texas, propôs que o Jardim do Éden poderia ter ficado na região de Bahir Dar, no noroeste da Etiópia, junto ao Lago Tana, onde nasce o Nilo Azul.
A hipótese baseia-se numa leitura da Bíblia e do Alcorão e procura novamente fazer corresponder os rios descritos nos textos religiosos à geografia real.
Jawaid associa o Giom ao Nilo Azul e destaca uma pista bíblica: o rio é descrito como aquele que circunda a terra de Cuxe, designação antiga frequentemente associada à região da Etiópia.
Na sua reconstrução, o Lago Tana corresponderia ao Éden e o Jardim propriamente dito localizar-se-ia imediatamente a sul, na região de Bahir Dar.
O investigador propõe até uma interpretação para a “espada flamejante” que, segundo o Génesis, guardaria a entrada do Jardim depois da expulsão de Adão e Eva: as formações vulcânicas existentes nas terras altas etíopes.
É uma hipótese especulativa e o próprio trabalho não passou por revisão por pares.
Tal como acontece com todas as tentativas anteriores, não constitui prova da localização histórica do Jardim do Éden.
Mas o mapa escondido naquela Bíblia de 1599 mostra que a vontade de encontrar o paraíso na geografia terrestre está longe de ser uma curiosidade moderna.
Há mais de quatro séculos, alguém já tentava colocar um ponto no mapa.














