Quando pensamos no objeto mais próximo do Sol, Mercúrio parece a resposta óbvia. É o planeta mais interior do Sistema Solar e, no ponto da sua órbita em que mais se aproxima da nossa estrela, fica a cerca de 47 milhões de quilómetros.
Mas está muito longe de deter o recorde.
Asteroides, cometas e até uma sonda construída pelo ser humano já chegaram muito mais perto do Sol. E, entre os objetos alguma vez observados, existe um que passou a uma distância extraordinária da estrela e conseguiu escapar.
Segundo o ‘Live Science’, a resposta depende também de uma distinção importante: estamos à procura do objeto que mais se aproximou do Sol e sobreviveu à passagem ou devemos incluir aqueles que mergulham diretamente na estrela e são destruídos?
Um asteroide do tamanho de um arranha-céus chega muito mais perto do que Mercúrio
Mercúrio aproxima-se do Sol até cerca de 47 milhões de quilómetros. Alguns asteroides, porém, aventuram-se muito mais para o interior do Sistema Solar.
Scott Sheppard, astrónomo da Carnegie Science, explica que os objetos cujas órbitas atravessam a de Mercúrio são conhecidos como “Mercury-crossers”. As suas órbitas são extremamente excêntricas e é provável que estes corpos não se tenham formado tão perto do Sol, tendo sido projetados para o interior do Sistema Solar a partir da cintura principal de asteroides.
Entre os objetos conhecidos desta categoria, o recordista atual é o 2024 YL3.
Com cerca de 141 metros de comprimento, comparável à dimensão de um arranha-céus, o asteroide aproxima-se do Sol até aproximadamente 10,3 milhões de quilómetros.
É menos de um quarto da distância mínima de Mercúrio.
E alguns destes asteroides poderão acabar por aproximar-se ainda mais. Por serem dinamicamente instáveis, explica Sheppard, é provável que ao longo de milhões de anos acabem por colidir com o Sol, embora também possam atingir um planeta ou ser expulsos do Sistema Solar.
E se existirem asteroides escondidos ainda mais perto do Sol?
Há uma possibilidade particularmente intrigante.
Os astrónomos propuseram a existência dos chamados Vulcanoides, uma hipotética população de asteroides que poderia orbitar permanentemente o Sol no interior da órbita de Mercúrio.
O nome deriva de Vulcano, o planeta que chegou a ser proposto para explicar determinadas características da órbita de Mercúrio, mas cuja existência nunca foi demonstrada.
Modelos numéricos indicam que estes asteroides poderiam manter órbitas estáveis entre aproximadamente 9 milhões e 37 milhões de quilómetros do centro do Sol. Alguns poderiam, portanto, aproximar-se mais do que os atuais “Mercury-crossers”.
Há apenas um problema: ninguém conseguiu provar que existem.
Uma investigação publicada em 2013 não encontrou sinais destes hipotéticos objetos.
Uma máquina construída pelo homem chegou a 7,3 milhões de quilómetros
Se passarmos dos objetos naturais para os artificiais, o recorde muda novamente.
A Parker Solar Probe, da NASA, lançada em 2018 para estudar a atmosfera exterior do Sol, conseguiu aproximar-se até cerca de 7,3 milhões de quilómetros do centro da estrela nas órbitas finais da sua missão principal.
A essa distância, a sonda atravessou a coroa solar.
Para sobreviver às condições extremas, a Parker Solar Probe foi equipada com um escudo térmico que protege os instrumentos científicos das temperaturas encontradas nas proximidades do Sol.
É uma distância extraordinária para uma máquina construída na Terra.
Mas ainda não é o recorde absoluto.
O objeto observado que chegou mais perto passou a 718 mil quilómetros
Há cometas conhecidos como “sungrazers” que levam a aproximação ao Sol a outro nível.
Alguns destes corpos passam a menos de 2,4 milhões de quilómetros do centro da estrela. Muitos dos mais pequenos acabam por fragmentar-se devido ao aquecimento desigual, enquanto a enorme força gravitacional do Sol pode destruir os maiores.
Alguns, porém, sobrevivem.
E é aqui que aparece o atual recordista.
O Grande Cometa do Sul de 1887 passou a apenas cerca de 718 mil quilómetros do centro do Sol.
Para comparação, Mercúrio não chega a menos de 47 milhões de quilómetros.
Ou seja, o cometa passou cerca de 65 vezes mais perto do centro do Sol do que Mercúrio consegue chegar.
E conseguiu escapar.
Mas há objetos capazes de ir ainda mais longe
Existe uma última categoria capaz de bater o recorde: os chamados “sundiving” ou “sunstriking comets”.
Ao contrário dos cometas que apenas passam perigosamente perto da estrela, estes atravessariam a superfície visível do Sol, a fotosfera, mergulhando efetivamente na estrela.
Para isso, um cometa teria de atingir um periélio inferior ao raio solar, aproximadamente 696 mil quilómetros medidos a partir do centro do Sol.
Nenhum objeto deste género foi ainda detetado.
E há uma diferença fundamental em relação ao Grande Cometa do Sul de 1887: não haveria viagem de regresso.
Qualquer cometa que mergulhasse no Sol seria destruído.
Assim, entre os objetos efetivamente observados, o recorde continua a pertencer ao Grande Cometa do Sul de 1887, que passou a apenas 718 mil quilómetros do centro da nossa estrela e conseguiu sobreviver à aproximação.














