Varoufakis: “Começou a desintegração da zona euro. Austeridade será pior do que em 2011”

O antigo ministro das finanças grego critica Mário Centeno, dizendo que o pacote europeu de 500 mil milhões para combater a crise é o início do fim do euro e afirma ainda que «vai haver austeridade».

Simone Silva

O ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis disse, em entrevista à ‘TSF’ que o acordo aprovado pelo Eurogrupo, de um pacote de mais de 500 mil euros para combater as consequências económicas do novo coronavírus, é «o início da desintegração europeia».

Varoufakis considera que «os 500 mil milhões são quase só empréstimos. É exactamente o que a Europa não precisa, especialmente nos países que estão a sofrer mais, como Itália, Espanha ou Grécia, que têm menor capacidade de aumentar a dívida pública».

Sobre os ‘eurobonds’ (pedidos por nove países, inclusive Portugal) considera que são essenciais porque constituem uma reestruturação da dívida num modelo que permite que seja partilhada pela Europa. «Espalhando a dívida, o valor líquido diminui nos próximos 20 anos, tornando-se mais fácil de gerir», refere.

«Ao rejeitar os ‘eurobonds’, e optando por empréstimos via Mecanismo Europeu de Estabilidade ou mercados, países como a Grécia ou Portugal vão estar tão endividados no próximo ano que, mesmo sem restrições orçamentais europeias, vai haver um nível de austeridade pior do que em 2011», afirma Varoufakis.

O responsável afirma ainda que «Berlim já começou a falar em retomar o travão da dívida no próximo ano», deixando o alerta: «Não se enganem, eles vão pedir consolidação fiscal a Portugal, Grécia, Espanha e Itália, em 2021. Não pode haver melhor presente para os eurocéticos, para os nacionalistas que querem destruir a União», defende.

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Quando questionado sobre se o problema está na natureza da solução ou no valor, Varoufakis considera que está em ambos. «O valor até dá pena. O resto do mundo está a rir-se da Europa, e com razão. É só 0,2% do PIB da zona euro. O resto são empréstimos, e os empréstimos são inúteis. Um problema de bancarrota não se resolve com empréstimos e é esse o problema que enfrentamos», afirma.

«Não vejo como é que a zona euro pode sobreviver cometendo erros da mesma natureza dos de 2010, quando tratou os problemas de insolvência dos nossos dois países como se pudessem ser solucionados com empréstimos», refere, adiantando que por esse motivo acredita que «o Eurogrupo de dia 9 de abril vai ser lembrado como o momento em que a desintegração da União Europeia e da zona euro começou».

No que diz respeito a Mário Centeno e ao seu desempenho no Eurogrupo, o ex-ministro grego é claro nas palavras: «vergonhoso, devia baixar a cabeça com vergonha por ter arranjado este não-acordo. Se esta não fosse uma situação trágica seria uma piada», defende.

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«Centeno vem de um país que conhece a dor da austeridade, que sabe que a zona euro nunca lidou racionalmente com a enorme crise de 2010 e 2011. Tinha o dever moral e político para com os povos português e europeu de não repetir os desempenhos de Juncker e Dijsselbloem, enquanto presidentes do Eurogrupo», afirma.

Relativamente à polémica do ministro holandês com António Costa, que considerou o seu discurso «repugnante», Varoufakis considera que tanto a Grécia como Portugal estão errados em pedir solidariedade ao ministro holandês. «O ministro holandês tem razão. Ele não tem uma obrigação de concordar com ‘eurobonds’ em nome da solidariedade. Mas tem a obrigação de aceitar os eurobonds porque é a única opção sensata e que também é no interesse da Holanda», refere.

«O que eles (Holanda) têm de compreender é que o motivo pelo qual têm contas públicas melhores que as de Portugal ou Espanha ou da Grécia é que tiveram taxas de juro negativas que fizeram a dívida descer, mesmo sem terem feito nada», afirma, acrescentando que «as exportações deles foram altas porque o euro estava baixo. E estava baixo porque na zona euro há países com défices».

O ex-ministro grego «não tem dúvidas» de que esta crise pode mesmo conduzir ao fim da zona euro «se continuarmos neste caminho», isto porque «Itália vai ter de pedir enormes quantidades de dinheiro emprestado. Vai ter um colapso de 10% no PIB. O rácio de dívida sobre o PIB vai rapidamente aumentar para 180% ou mais. O défice vai ser gigantesco: 15%, talvez 20%».

«No próximo ano, Bruxelas vai dizer, por exemplo: “vão ter de reduzir de 18% para 7%”. Isto é um programa de austeridade de 11% do PIB. Qualquer governo que tenha de implementar um programa assim vai para a rua rapidamente. Matteo Salvini vai cavalgar para o poder e garanto que a primeira coisa que vai fazer é um plano para a Itália sair do euro. E se a Itália sair, saímos todos», defende o especialista.

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O responsável acredita que a recessão vai ser pesada. «Não tenho dúvidas de que o lamentável Eurogrupo, ao qual Centeno presidiu, condenou a zona euro a ser um bloco económico doente. A China, os Estados Unidos e o Reino Unido vão ter uma recuperação muito mais rápida. A falta de um estímulo forte na zona euro garante que vamos sair desta crise com as economias muito enfraquecidas e com os desequilíbrios entre os países do Norte e do Sul muito mais fortes».

Quando questionado sobre se se arrepende de alguma coisa enquanto ministro das finanças, o especialista responde que «teria feito muitas coisas diferentes. Mas a questão principal é: o que eu teria feito, com a mesma informação que tinha na altura? E eu teria sido muito menos conciliatório com a troika. Devia ter sido muito mais duro. Devia ter feito um ultimato: ou temos uma reestruturação da dívida, ou saímos do euro hoje mesmo».

Relativamente à forma como o governo grego tem tratado os refugiados, Varoufakis classifica como «desprezível»., considerando que o governo «tem tratado os refugiados como sub-humanos. Não fez nada para lhes dar condições».

«O nosso partido, o MeRA25, que represento no Parlamento, pediu desde o primeiro dia que fossem deslocados. Temos tantos hotéis vazios, agora que não há turismo. Que acabem com os campos e os coloquem nos hotéis temporariamente e paguem aos hóteis», apela».

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