Brigitte Macron gera polémica ao chamar “estúpidas” a ativistas feministas

A primeira-dama francesa, Brigitte Macron, está ‘debaixo de fogo’ e no centro de uma grande polémica política e social, depois de ter sido captada numa gravação de bastidores, entretanto apagada, a referir-se a ativistas feministas como ‘sales connes’ — uma expressão coloquial francesa que se aproxima de “estúpidas” ou “estúpidas da pior espécie”.

Pedro Zagacho Gonçalves

A primeira-dama francesa, Brigitte Macron, está ‘debaixo de fogo’ e no centro de uma grande polémica política e social, depois de ter sido captada numa gravação de bastidores, entretanto apagada, a referir-se a ativistas feministas como ‘sales connes’ — uma expressão coloquial francesa que se aproxima de “estúpidas” ou “estúpidas da pior espécie”. O vídeo foi inicialmente divulgado pela publicação Public e rapidamente desencadeou indignação entre figuras políticas, movimentos feministas e personalidades do setor cultural.

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O episódio ocorreu antes de um espetáculo do comediante Ary Abittan. No breve diálogo registado pela câmara, a primeira-dama pergunta ao humorista como se sente momentos antes de entrar em palco. Abittan responde que está “com medo”, numa referência implícita à possibilidade de interrupções durante a atuação, num contexto marcado pelas críticas ao seu regresso aos palcos.

Abittan está atualmente em digressão pela primeira vez desde que os juízes de instrução responsáveis pela investigação decidiram não avançar com qualquer acusação, após ter sido denunciado por violação. Embora a queixosa tenha sido diagnosticada com stress pós-traumático, as autoridades judiciais concluíram não existirem elementos suficientes para determinar que o ato sexual não tivesse sido consensual. O comediante sempre negou qualquer irregularidade.

Perante a inquietação manifestada por Abittan, Brigitte Macron respondeu: “Se houver estúpidas, nós tiramo-las.” A frase foi recebida com grande contestação, sobretudo porque o espetáculo estava a ser alvo de protesto por parte do movimento feminista Nous Toutes, cujos membros chegaram a interromper a atuação para denunciar aquilo que classificaram como “uma campanha de comunicação destinada a apresentá-lo como alguém traumatizado, humilhando e diminuindo a vítima”.

Numa declaração enviada à agência AFP e divulgada esta segunda-feira, o gabinete da primeira-dama afirmou que a expressão usada deve ser entendida como “uma crítica aos métodos radicais utilizados por quem perturbou e impediu o espetáculo de Ary Abittan”, procurando atenuar o impacto político e social da polémica.

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A reação pública, contudo, foi imediata e transversal. A líder dos Verdes franceses, Marine Tondelier, considerou o comentário “extremamente grave”. A senadora conservadora Agnès Evren classificou-o como “muito sexista”. Já Prisca Thévenot, deputada do partido do Presidente e antiga porta-voz do Governo, descreveu a frase como “pouco elegante”.

Também o antigo Presidente francês François Hollande se pronunciou, afirmando na rádio RTL que “quando se trata de mulheres que lutam contra a violência contra mulheres, não se fala dessa maneira”.

Entre as vozes mais críticas encontra-se a atriz Judith Godrèche, que tem desempenhado um papel central no combate à violência sexual na indústria cinematográfica. Na sua conta de Instagram, escreveu: “Eu também sou uma estúpida. E apoio todas as outras.”

A polémica mantém-se viva no debate público francês, ampliando as tensões em torno dos protestos feministas, da posição das figuras institucionais face às denúncias de violência sexual e do próprio regresso de Ary Abittan ao circuito artístico.

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