Explicador. O plano para “sangrar” os EUA: como Irão e Rússia podem transformar uma guerra curta num conflito interminável

Seis meses depois do início da guerra contra o Irão, uma pergunta começa, porém, a ganhar força: estará Washington a entrar precisamente numa nova guerra sem fim?

Francisco Laranjeira

Donald Trump fez das chamadas “guerras eternas” dos EUA uma das suas grandes críticas à política externa de Washington. Iraque e Afeganistão seriam exemplos do que não deveria voltar a acontecer: conflitos fáceis de começar, difíceis de ganhar e ainda mais difíceis de terminar.

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Seis meses depois do início da guerra contra o Irão, uma pergunta começa, porém, a ganhar força: estará Washington a entrar precisamente numa nova guerra sem fim?

É essa a tese levantada numa análise publicada pelo ‘The Independent’, que aponta para uma estratégia através da qual Teerão — com ajuda crescente da Rússia — não precisa necessariamente de derrotar militarmente os EUA. Basta conseguir prolongar o conflito, aumentar os seus custos económicos e militares e tornar cada vez mais difícil a Washington encontrar uma saída.

Os acontecimentos dos últimos dias dão peso à questão.

Depois de várias semanas de relativa acalmia, forças dos EUA voltaram a atacar alvos iranianos junto ao Estreito de Ormuz. Seguiu-se uma nova vaga de ataques contra sistemas de defesa aérea, radares, meios marítimos e capacidades de colocação de minas da Guarda Revolucionária iraniana.

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Teerão respondeu com ataques contra instalações ligadas aos EUA na Jordânia, Bahrain, Kuwait e Iraque. A ‘Reuters’ descreveu esta nova troca de ataques como a escalada mais grave das últimas semanas.

E é precisamente aqui que começa o problema.

O Irão não precisa de vencer os EUA

Numa guerra convencional, a diferença de poder militar entre os dois países é enorme. O orçamento, a aviação, a capacidade naval, os sistemas de vigilância e o poder de ataque de longo alcance colocam Washington num patamar que Teerão não consegue igualar.

Mas essa pode ser a pergunta errada.

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O objetivo iraniano não tem necessariamente de ser derrotar militarmente os EUA. Pode simplesmente passar por tornar a guerra suficientemente longa, dispendiosa e politicamente dolorosa para obrigar Washington a reconsiderar a permanência no conflito.

É uma estratégia de desgaste.

O Irão dispõe para isso de uma combinação particularmente difícil de neutralizar: mísseis balísticos, drones, capacidade de atacar instalações militares dos EUA espalhadas pela região e, sobretudo, uma localização geográfica que lhe permite ameaçar uma das artérias energéticas mais importantes do mundo.

O Estreito de Ormuz é o melhor exemplo.

A passagem marítima entre o Irão e Omã é uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo e gás. Desde o início da guerra, o tráfego sofreu fortes perturbações e os EUA começaram a escoltar navios através de uma rota próxima da costa de Omã.

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Washington garante que essa passagem é segura. Teerão contesta-a e continua a demonstrar capacidade para atingir navios que atravessam a região. Segundo uma avaliação do Institute for the Study of War, os ataques iranianos de 30 e 31 de agosto mostraram que o país conserva meios para perturbar mesmo essa rota alternativa.

Ou seja: o Irão pode não conseguir controlar completamente Ormuz, mas também não precisa de o fazer para provocar danos.

Basta manter o risco suficientemente elevado.

Seguradoras aumentam prémios, armadores alteram rotas, os mercados incorporam o risco geopolítico e qualquer novo ataque pode fazer oscilar o preço do petróleo.

A guerra deixa então de acontecer apenas entre aviões, navios e sistemas de mísseis. Passa também para os mercados energéticos.

Há outro problema: as bases dos EUA estão espalhadas pela região

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Washington construiu ao longo de décadas uma vasta presença militar no Médio Oriente.

A Quinta Frota da Marinha dos EUA está sediada no Bahrain. O Qatar alberga a base aérea de Al Udeid, uma das instalações militares mais importantes dos EUA na região. Há ainda forças, sistemas de defesa e infraestruturas militares na Jordânia, Kuwait, Iraque e Emirados Árabes Unidos.

Em tempos de paz, esta rede permite a Washington projetar poder rapidamente.

Numa guerra prolongada, transforma também vários países em potenciais frentes de combate.

Os ataques iranianos dos últimos dias mostram precisamente esse risco. Teerão lançou mísseis e drones contra alvos associados às forças dos EUA em vários países depois dos novos bombardeamentos americanos.

Cada ataque coloca ainda os governos desses países perante um dilema: manter a cooperação militar com Washington significa correr o risco de serem arrastados para uma guerra que não controlam.

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É um dos motivos pelos quais vários países da região têm insistido numa solução diplomática.

E depois há a Rússia

É aqui que a análise se torna particularmente relevante.

Moscovo não precisa de enviar tropas para combater diretamente os EUA para tornar a guerra mais difícil para Washington.

Pode ajudar o Irão a melhorar precisamente as capacidades necessárias para aumentar o custo de uma presença militar dos EUA no Golfo.

Uma investigação publicada esta quarta-feira pelo ‘Financial Times’ revelou que a Rússia tem ajudado secretamente Teerão a desenvolver tecnologia para uma nova geração de mísseis de cruzeiro supersónicos.

O programa, conhecido pelo código C430L, terá começado em 2023 e continuou durante a guerra deste ano. Especialistas russos deslocaram-se repetidamente ao Irão e o projeto envolve tecnologia de propulsão ramjet, que permite manter velocidades várias vezes superiores à do som.

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A importância militar é evidente.

Um míssil mais rápido e capaz de voar a baixa altitude reduz o tempo disponível para os sistemas de defesa detetarem, acompanharem e intercetarem a ameaça. Entre os potenciais alvos encontram-se navios de guerra e porta-aviões dos EUA no Médio Oriente.

O Irão já terá construído e testado em voo o sistema de propulsão, embora não exista até agora prova de que um míssil desenvolvido com esta tecnologia esteja operacional.

A relação funciona também no sentido contrário. O Irão forneceu à Rússia drones Shahed utilizados na guerra da Ucrânia, enquanto a cooperação militar entre os dois países se aprofundou nos últimos anos.

Para Moscovo, há ainda uma vantagem estratégica óbvia: quanto mais recursos militares, políticos e financeiros Washington tiver de dedicar ao Médio Oriente, menos atenção poderá dedicar a outras regiões — incluindo a Ucrânia.

Porque se fala então numa “guerra eterna”?

Uma “forever war” não significa necessariamente combates constantes durante décadas.

O Iraque e o Afeganistão demonstraram outra coisa: uma guerra pode começar com objetivos aparentemente claros e limitados e, progressivamente, adquirir novas missões, novos inimigos e novas razões para continuar.

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É esse o risco atual.

Os EUA atacam meios iranianos para proteger a navegação. O Irão responde contra bases dos EUA. Washington volta a atacar para impedir novos ataques. Teerão aumenta novamente a pressão.

Cada ação passa a justificar a seguinte.

Esta semana oferece um exemplo particularmente claro. Os EUA justificaram novos ataques contra radares e outros meios da Guarda Revolucionária com os ataques iranianos a navios e forças americanas. O Irão respondeu depois aos bombardeamentos dos EUA com novos lançamentos contra posições americanas na região.

O perigo é o conflito passar a alimentar-se a si próprio.

E o que pode acontecer agora?

Há essencialmente três caminhos.

O primeiro é uma desescalada negociada. Washington e Teerão encontram uma fórmula que permita reduzir os ataques, reabrir Ormuz em condições aceitáveis e regressar à diplomacia sobre o programa nuclear iraniano.

É também o cenário que vários países da região e outras potências continuam a defender.

O segundo é uma guerra de baixa intensidade prolongada: ataques ocasionais, operações contra navios, drones, mísseis, sabotagem e períodos de relativa calma interrompidos por novas escaladas. Este é talvez o cenário que mais se aproxima da ideia de uma nova “guerra eterna”.

O terceiro é o mais perigoso: um ataque provoca muitas baixas americanas, iranianas ou de um país aliado e desencadeia uma resposta muito maior. Nesse cenário, o conflito poderia alargar-se rapidamente a outras bases, instalações energéticas e rotas marítimas do Golfo.

Os últimos dias mostram como essa escalada pode acontecer. Depois dos novos ataques dos EUA, o Irão voltou a atingir alvos na região e Washington ampliou a lista de objetivos iranianos.

Há ainda um fator que torna qualquer previsão mais difícil: a Rússia tem interesse estratégico em impedir que o Irão saia enfraquecido e está a fornecer a Teerão tecnologia que poderá aumentar a ameaça às forças dos EUA.

É por isso que a pergunta central talvez já não seja quem consegue vencer esta guerra.

Pode ser outra: quanto tempo consegue cada lado suportá-la?

E nesse tipo de conflito, possuir os aviões mais avançados, os maiores porta-aviões ou os mísseis mais sofisticados não garante necessariamente uma saída rápida.

Foi precisamente esse o problema das “guerras eternas” que Donald Trump prometeu não repetir.

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