Rússia ajuda secretamente o Irão a desenvolver uma arma que Teerão procura há décadas: o alvo são navios de guerra

No centro da operação está um programa secreto com o nome de código C430L, iniciado em 2023 e que continuou ativo em 2026, mesmo durante a guerra entre os EUA, Israel e o Irão

Francisco Laranjeira

A Rússia tem ajudado secretamente o Irão a desenvolver tecnologia para uma nova geração de mísseis de cruzeiro supersónicos capaz de ameaçar porta-aviões e outros navios de guerra dos EUA no Médio Oriente. A cooperação decorre há vários anos e envolve alguns dos mais experientes especialistas russos em tecnologia de mísseis.

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A revelação consta de uma investigação do ‘Financial Times’ (FT), citada esta quarta-feira pelo ‘Kyiv Post’, baseada em correspondência russa obtida pelo jornal, registos de viagens e análise de patentes militares.

No centro da operação está um programa secreto com o nome de código C430L, iniciado em 2023 e que continuou ativo em 2026, mesmo durante a guerra entre os EUA, Israel e o Irão.

O objetivo é particularmente sensível: ajudar Teerão a dominar sistemas de propulsão ramjet, uma tecnologia que permite a um míssil de cruzeiro manter velocidades várias vezes superiores à velocidade do som.

“Esta é a transferência de uma tecnologia militar altamente sensível do ponto de vista estratégico por parte da Rússia, que os iranianos tentam adquirir há décadas”, explicou ao FT Fabian Hinz, especialista em mísseis iranianos e analista sénior da Conflict Armament Research.

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Porque pode esta tecnologia preocupar os EUA?

Um míssil de cruzeiro supersónico combina duas características particularmente exigentes para os sistemas de defesa: elevada velocidade e capacidade de voar a baixa altitude.

Essa combinação reduz o tempo disponível para detetar, acompanhar e tentar intercetar o projétil, algo especialmente relevante no Golfo, onde estão posicionadas forças navais dos EUA e sofisticados sistemas de defesa.

Segundo a investigação, o Irão já construiu e testou em voo um sistema de propulsão ramjet. Não existem, contudo, provas de que um míssil de cruzeiro supersónico desenvolvido com assistência russa tenha sido colocado ao serviço.

O potencial da tecnologia é, ainda assim, significativo.

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“Para os iranianos, isto dar-lhes-ia um sistema de armas estratégicas qualitativamente novo que poderia ameaçar navios da Marinha dos EUA”, afirmou ao FT Jim Lamson, antigo analista militar da CIA especializado no Irão.

Engenheiros russos viajaram várias vezes para o Irão

O programa terá sido organizado pela Rosoboronexport, empresa estatal responsável pelas exportações de armamento russo, em colaboração com a NPO Mashinostroyenia, um dos principais fabricantes russos de sistemas de mísseis.

Registos analisados pelo Financial Times indicam que altos responsáveis e engenheiros russos viajaram repetidamente para o Irão antes mesmo de o contrato C430L ser formalmente assinado com o Ministério da Defesa iraniano, em novembro de 2023.

Entre os especialistas identificados encontra-se Alexander Dergachev, responsável pelo desenvolvimento de mísseis lançados a partir do mar e sistemas de mísseis de cruzeiro.

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Alexander Chebakov, responsável por uma área dedicada a sistemas de propulsão que utilizam o ar atmosférico, terá visitado Teerão três vezes em 2023. Patentes russas analisadas pelo FT identificam-no como especialista em tecnologia ramjet supersónica aplicada a mísseis de cruzeiro.

Outro dos especialistas associados ao programa, Yuri Prokhorchuk, surge como inventor numa patente relativa a um míssil de cruzeiro hipersónico equipado com ramjet e concebido para atingir alvos navais e terrestres.

Russos analisaram testes feitos pelo Irão

A colaboração terá ido bastante além do fornecimento de desenhos ou componentes.

Em 2025, a NPO Mashinostroyenia recebeu documentação técnica iraniana relacionada com o sistema de propulsão. Os engenheiros russos analisaram posteriormente dados provenientes de um teste de voo realizado pelo Irão e enviaram a Teerão várias questões técnicas.

Entre os pontos analisados estavam o sistema de combustível, a estabilidade da combustão, a entrada de ar e o bocal do motor, além dos dados de telemetria recolhidos durante o voo.

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Em abril de 2025, a Rosoboronexport chegou a propor o envio de cerca de duas dezenas de especialistas russos para o Irão para consultas técnicas relacionadas com o C430L.

A diferença é importante: em vez de simplesmente vender uma arma pronta, Moscovo estará a ajudar Teerão a adquirir conhecimento que lhe permita desenvolver e aperfeiçoar autonomamente este tipo de tecnologia.

Programa continuou em 2026

Nem a guerra travou a cooperação.

Segundo documentos analisados pelo ‘Financial Times’, em junho deste ano a Rosoboronexport e o Irão continuavam a discutir uma nova fase do C430L e relatórios técnicos preparados pelos especialistas russos.

A investigação surge num contexto de crescente aproximação militar entre os dois países. O Irão forneceu à Rússia drones de ataque Shahed utilizados na guerra contra a Ucrânia e ajudou Moscovo a estabelecer a sua produção em território russo.

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Autoridades ocidentais e ucranianas têm, por sua vez, acusado Moscovo de prestar assistência militar a Teerão, incluindo através de imagens de satélite, apoio relacionado com drones e componentes para armamento.

Para Nicole Grajewski, professora da Sciences Po, em Paris, o programa secreto de ramjet mostra que a Rússia procura alargar as consequências da guerra na Ucrânia a outros teatros e aumentar a pressão sobre os EUA.

Uma tecnologia que o Irão procura há décadas

Teerão possui já um vasto programa de mísseis balísticos e capacidade para produzir motores destinados a mísseis de cruzeiro mais lentos. Dominar um míssil supersónico com propulsão ramjet sustentada continua, porém, a representar um desafio tecnológico considerável.

A ambição não é recente. Em 2016, o então ministro da Defesa iraniano anunciou a intenção de desenvolver mísseis antinavio supersónicos. Dois anos depois, dois diplomatas iranianos foram detidos na Ucrânia quando alegadamente tentavam obter componentes e documentação relativos ao Kh-31A, um míssil antinavio supersónico desenvolvido na antiga União Soviética.

Em 2019, o Irão exibiu publicamente um motor ramjet desenvolvido internamente e, em agosto de 2023, a agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária iraniana, anunciou o início dos testes de um protótipo de míssil de cruzeiro supersónico.

A ajuda dos especialistas russos poderá permitir ultrapassar algumas das dificuldades que têm impedido Teerão de transformar essas experiências numa arma operacional.

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Caso consiga dominar a tecnologia, o Irão poderá não apenas desenvolver mísseis mais avançados, mas também aperfeiçoar sucessivas gerações destas armas e diminuir a dependência de fornecedores estrangeiros.

O Kremlin, a Rosoboronexport, a NPO Mashinostroyenia e o Governo iraniano não responderam às questões colocadas pelo Financial Times sobre o programa.

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