Primeiro foi o Golfo do México. Depois chegou a vez do Lago Ontário. Agora Donald Trump tem outra proposta para alterar o mapa — e desta vez quer colocar o próprio nome numa das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.
O presidente dos EUA sugeriu esta quarta-feira que o Estreito de Ormuz passe a chamar-se “Estreito de Trump”, depois de afirmar que Washington controla atualmente a passagem que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã.
“Agora que o temos sob controlo dos EUA, deveríamos mudar o nome de Estreito de Ormuz para Estreito de Trump?”, escreveu Trump na Truth Social, acrescentando que, tal como os Estados Unidos, seria “mais popular do que nunca”.
A publicação, noticiada pelo ‘El Español’ e entretanto reproduzida por vários meios internacionais, surge num momento de nova escalada da guerra entre os EUA e o Irão e menos de uma semana depois de Trump ter avançado com outra controversa mudança geográfica: rebatizar o Lago Ontário como “Lago América”.
A sugestão relativa a Ormuz é, para já, apenas isso mesmo: uma sugestão publicada pelo Presidente. Ao contrário do que aconteceu com outras alterações de nomes geográficos, Trump não anunciou qualquer ordem executiva para rebatizar formalmente o estreito.
E há outra diferença fundamental. O Estreito de Ormuz não é território dos EUA. A passagem marítima situa-se entre o Irão e Omã e a afirmação de Trump de que está sob controlo norte-americano é contestada por Teerão.
Um mapa que Trump já começou a mudar
A ideia não aparece isolada.
Pouco depois de regressar à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump determinou que o Governo federal passasse a utilizar “Golfo da América” em vez de Golfo do México. A mesma ordem recuperou a designação Monte McKinley para a montanha do Alasca conhecida anteriormente como Denali.
A mudança do Golfo do México tinha uma limitação evidente: uma decisão dos EUA não obriga o México nem outros países ou organizações internacionais a adotar a nova designação.
Ainda assim, a alteração passou para alguns dos serviços digitais mais utilizados do mundo, que adaptaram a nomenclatura apresentada aos utilizadores dos EUA.
E Trump voltou a fazê-lo na semana passada.
A 27 de agosto, assinou uma ordem executiva determinando que o Lago Ontário passasse a ser designado “Lago América” pelo Governo federal dos EUA.
A decisão foi particularmente polémica porque o lago é partilhado pelos EUA e pelo Canadá. Cerca de 52% da sua superfície encontra-se do lado canadiano e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, rejeitou a mudança, garantindo que para o Canadá continuará a chamar-se Lago Ontário.
A ordem de Trump não pode alterar a designação utilizada pelo Canadá. Mas já teve efeitos visíveis nos EUA: Apple e Google passaram a apresentar “Lake America” aos utilizadores americanos dos respetivos serviços de mapas. Fora dos EUA, a apresentação dos nomes varia consoante a localização do utilizador.
Desta vez quer o próprio nome
Há, contudo, uma diferença simbólica entre as mudanças anteriores e a nova ideia lançada por Trump.
“Golfo da América” e “Lago América” procuram colocar os Estados Unidos no nome de acidentes geográficos. “Estreito de Trump” colocaria diretamente o apelido do atual presidente numa passagem marítima internacional.
E não numa passagem qualquer.
O Estreito de Ormuz é um dos pontos mais importantes para o abastecimento energético mundial, ligando os produtores do Golfo Pérsico ao Mar Arábico e às principais rotas oceânicas.
A sua importância voltou a ficar evidente durante a atual guerra com o Irão. O tráfego marítimo permanece muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito e a passagem tem estado no centro da confrontação entre Washington e Teerão.
Na terça-feira, Trump anunciou novos ataques dos EUA contra alvos iranianos nas proximidades do estreito, justificando-os, entre outros motivos, com uma alegada tentativa iraniana de colocar minas na passagem. O Irão respondeu com novos ataques na região.
É neste contexto que o presidente dos EUA afirma ter Ormuz sob controlo e lança agora a ideia de alterar-lhe o nome.
Ao contrário do Golfo do México e do Lago Ontário, porém, Washington não tem autoridade para decidir unilateralmente como uma passagem marítima internacional entre o Irão e Omã deve ser designada pelo resto do mundo.
Para já, portanto, o “Estreito de Trump” existe apenas numa publicação de Donald Trump.
Mas a história recente mostra que, quando o atual presidente dos EUA decide mexer nos nomes do mapa, a ideia nem sempre fica apenas nas redes sociais.


















