“Novembro é prioridade.” A frase, atribuída a um responsável da Casa Branca, resume o cálculo que estará neste momento a condicionar a estratégia dos EUA na guerra com o Irão.
Altos responsáveis da Administração de Donald Trump estão a pressionar para impedir uma nova escalada militar antes das eleições intercalares de novembro, numa tentativa de limitar os danos eleitorais para o Partido Republicano, revelaram quatro fontes familiarizadas com as discussões internas à ‘Reuters’, numa informação avançada também pelo ‘The Independent’.
A estratégia não significa retirar pressão sobre Teerão. Pelo contrário: Washington pretende intensificar, para já, o cerco económico ao Irão, tentando obter através de sanções e do bloqueio naval concessões que vários meses de operações militares não conseguiram alcançar.
“Estamos a manter a pressão sobre o Irão. Mas novembro é uma prioridade”, explicou um responsável da Casa Branca à ‘Reuters’.
Depois das eleições de 3 de novembro, uma intensificação das operações militares voltará a estar em cima da mesa, segundo as mesmas fontes, embora um regresso à guerra em grande escala esteja longe de ser uma decisão tomada.
Porquê novembro? Os números ajudam a explicar.
Apenas 31% dos americanos aprovam atualmente a guerra com o Irão, enquanto 63% a desaprovam, segundo uma sondagem ‘Reuters/Ipsos’ realizada no final de agosto. Os eleitores mostram-se também particularmente insatisfeitos com os preços elevados dos combustíveis.
A própria popularidade de Trump sofreu uma quebra significativa desde o início do conflito, passando de 40% para 33%.
Com os republicanos a defenderem maiorias estreitas tanto no Senado como na Câmara dos Representantes, impedir que uma guerra impopular domine a campanha eleitoral tornou-se uma preocupação dentro da Casa Branca.
Não é apenas política: começam a faltar munições
O calendário eleitoral não será, contudo, o único motivo para procurar conter o conflito.
Uma pausa tática permitiria também às Forças Armadas dos EUA recuperar stocks de munições fortemente afetados por meses de operações.
A ‘Reuters’ revelou em agosto que os militares tinham utilizado “praticamente todo” o stock disponível de determinados tipos de mísseis de precisão.
Mais recentemente, o ‘Washington Post’ noticiou que os responsáveis máximos do Exército, Marinha e Força Aérea alertaram o secretário da Defesa, Pete Hegseth, de que prolongar a guerra seria insustentável e prejudicaria a capacidade militar dos EUA para responder noutros pontos do mundo.
O Pentágono rejeita, porém, a ideia de que esteja sem meios para continuar as operações, garantindo dispor de “tudo o que precisa” para cumprir a missão.
A Casa Branca também apresenta publicamente uma imagem de força.
“O presidente Trump destruiu as capacidades militares do Irão e está a paralisar o que resta da sua economia com o mais poderoso bloqueio naval da história mundial e sanções esmagadoras”, afirmou a porta-voz Olivia Wales, acrescentando que Trump “nunca permitirá que o Irão tenha uma arma nuclear”.
Estratégia já está sob pressão
Manter a guerra relativamente contida até novembro poderá, porém, ser muito mais difícil do que pretende Washington.
Depois de cerca de um mês de relativa acalmia, os EUA atacaram durante o fim de semana lançadores de foguetes na ilha iraniana de Larak. O Irão respondeu disparando mísseis em direção à Jordânia e aos Emirados Árabes Unidos.
Esta terça-feira, forças dos EUA voltaram a atacar alvos iranianos nas proximidades do Estreito de Ormuz.
A intensidade dos ataques aumentou entretanto e Teerão prometeu responder com “golpes esmagadores e devastadores”.
Segundo o ‘The Independent’, meios estatais iranianos relataram explosões em várias zonas costeiras do sul do país, incluindo Bandar Abbas e a ilha de Qeshm. As autoridades iranianas afirmam também que ataques dos EUA atingiram locais civis na província de Hormozgan e um aeroporto civil na província de Kerman.
Um dos ataques terá atingido uma casa em Kuhestak onde decorria uma cerimónia de casamento, provocando cinco mortos, entre os quais uma criança, e pelo menos 68 feridos, segundo autoridades provinciais iranianas.
O Comando Central dos EUA (CENTCOM) indicou que a sua mais recente vaga de ataques contra alvos militares iranianos terminou na noite de terça-feira.
Vance e Rubio defendem contenção
Dentro da Administração Trump, a ideia de manter o conflito relativamente “calmo” até novembro terá apoio ao mais alto nível.
Segundo dois responsáveis da Casa Branca ouvidos pela ‘Reuters’, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio encontram-se entre os altos responsáveis favoráveis à estratégia.
Também os aliados dos EUA no Golfo terão pressionado Washington para reduzir a escalada depois dos confrontos registados no final de julho.
A alternativa, nas próximas semanas, passa sobretudo pela economia. Washington está a intensificar a campanha de isolamento do Irão, ameaçando com pesadas sanções países que mantenham relações comerciais com Teerão e conservando simultaneamente o bloqueio no Estreito de Ormuz.
Mas essa estratégia enfrenta obstáculos. O Irão vive há décadas sob sucessivas vagas de sanções e algumas das principais potências mundiais, sobretudo a China, não acompanham os esforços dos EUA para isolar completamente Teerão.
Existe ainda o risco de a própria pressão económica provocar precisamente aquilo que a Casa Branca procura evitar.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, admitiu no domingo que o agravamento da pressão pode levar o Irão a responder militarmente.
E há uma última variável impossível de ignorar: Donald Trump.
As fontes ouvidas pela ‘Reuters’ indicam que o presidente não está atualmente interessado numa escalada, embora possa mudar de posição em função dos acontecimentos. Na terça-feira, o próprio Trump avisou que, se Teerão retaliar contra os últimos ataques dos EUA, será atingido “a um nível muito mais duro e elevado”.
Publicamente, Trump nega que as eleições estejam a condicionar as decisões militares. Dentro da Casa Branca, porém, as fontes ouvidas pela ‘Reuters’ descrevem outra realidade.
“O calendário mudou”, resumiu um alto responsável.
Outro foi ainda mais claro: “É o calendário que está a ditar os tempos do Irão.”



















