Os “ilegais”: o programa secreto de espionagem russo com agentes (também) na península ibérica

O termo “ilegais” refere-se a espiões que não têm passaporte diplomático nem trabalham oficialmente em missões de inteligência, mas que se infiltram em países estrangeiros fingindo ser cidadãos comuns.

Executive Digest

Um dos programas mais secretos de espionagem da Rússia — conhecido como “os ilegais” — consiste em agentes do serviço secreto russo que operam em países ocidentais com identidades inteiramente falsas, integrados em sociedades civis e muitas vezes sem cobertura diplomática. A revelação é feita pelo jornalista britânico Shaun Walker no seu livro sobre este fenómeno, que traça a história deste esquema clandestino desde os tempos da União Soviética até à atualidade.

O termo “ilegais” refere-se a espiões que não têm passaporte diplomático nem trabalham oficialmente em missões de inteligência, mas que se infiltram em países estrangeiros fingindo ser cidadãos comuns. O programa começou nos primeiros anos da União Soviética e ganhou importância sob líderes como Lenin e Stalin, mantendo papel relevante durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Após o colapso da URSS, perdeu força, mas foi reativado quando Vladimir Putin chegou ao poder.

Casos emblemáticos

A primeira grande revelação pública sobre este programa ocorreu em 2010, quando Aleksandr Poteyev, um alto funcionário dos serviços de inteligência russos, denunciou a existência de “ilegais” às autoridades dos Estados Unidos. Essa informação permitiu que o FBI detivesse e expulsasse dez agentes russos que viviam como civis nos EUA, numa operação apelidada de Ghost Stories.

Um desses casos ficou marcado pelo impacto emocional nos filhos dos espiões: Tim Heathfield e o irmão Alex descobriram no dia do 20.º aniversário de Tim que os seus pais, Don Heathfield e Ann Foley, que viviam em Massachusetts como cidadãos canadianos comuns, eram na verdade agentes da KGB com identidades falsas.

Continue a ler após a publicidade

O programa também chegou à Península Ibérica. Segundo Walker, um “ilegal” com o nome real de Sergei Cherepanov viveu em Espanha sob a identidade de Henry Frith e com passaporte neozelandês. Foi contactado em Madrid por responsáveis dos serviços russos, mas negou ser espião, desapareceu e regressou a Moscovo. O seu papel exato em Espanha continua desconhecido.

Contexto actual

Após a invasão da Ucrânia em 2022, vários diplomatas russos foram expulsos de países ocidentais e a Rússia passou a ser observada com maior desconfiança. Neste contexto, os serviços secretos russos retomaram a utilização de “ilegais”, incluindo agentes que estavam em posição dormente e foram reativados para trabalhar no estrangeiro.

Continue a ler após a publicidade

O próprio Putin tem destacado repetidamente a ideia de que nenhum país possui espiões como os russos, o que tem contribuído para a manutenção deste programa, apesar dos elevados custos e dos riscos associados.

A história destes espiões clandestinos, das operações da Guerra Fria à sua reativação recente, lança luz sobre um dos aspectos mais discretos e complexos dos serviços de inteligência russos e recorda a longevidade e sofisticação de um aparelho de espionagem que continua ativo no mundo atual.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.