Uma centena de pessoas manifestou-se hoje contra a localização no concelho de Alenquer, distrito de Lisboa, de uma unidade de transformação de efluentes agropecuários em gás natural e biofertilizante agrícola, cujo projeto está em consulta pública.
Concentrados nas Marés, uma das localidades mais próximas da futura unidade, os manifestantes instalaram faixas a dizer “não decidam por nós/Biometano não/ A nossa saúde não é negociável” e “Biometano aqui não”.
A população das freguesias de Abrigada e Ota está contra a localização da unidade pela proximidade às habitações, dado o risco de explosão e de contaminação dos solos e das águas.
Entre a população, está a circular um abaixo-assinado, já subscrito por 900 pessoas, e na Internet existe uma petição, com 1.400 subscritores, contra a instalação da central de biometano.
Entretanto, o Movimento de Cidadãos de Abrigada, Marés e Ota, que liderou o protesto, anunciou que entregou à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) um requerimento para a prorrogação por mais 60 dias da consulta pública do projeto, que começou em 18 de agosto e termina na terça-feira, por considerar “insuficientes os prazos disponíveis para analisar” o processo.
Também os presidentes da Câmara Municipal de Alenquer, João Nicolau, e das duas freguesias juntaram-se aos manifestantes em solidariedade.
No âmbito da consulta pública, o município deu parecer desfavorável considerando que “não estão demonstradas evidências sobre as questões levantadas relativamente à garantia da não produção de odores e existem preocupações em matéria de acessibilidades, segurança e desempenho da rede viária, em particular da EN1/IC2”, segundo uma nota publicada nas redes sociais.
Em relação à localização do projeto nas Marés, na freguesia da Abrigada, “o município considera ainda ser necessário aprofundar a análise das alternativas de localização, designadamente quanto à possibilidade de deslocação da área de implantação para outras áreas que permitam um maior afastamento das edificações e habitações existentes, de forma a minimizar potenciais impactes sobre os recetores sensíveis e sobre a envolvente urbana”.
Habitantes das localidades afetadas têm também comparecido nas últimas reuniões de câmara a demonstrar o seu descontentamento e a apelar ao apoio do município, tendo o presidente da Câmara já explicado que em agosto de 2025 o executivo apenas aprovou o Pedido de Informação Prévia, mas não deu ainda autorização à construção do investimento no concelho e partilha das mesmas preocupações da população.
De acordo com o resumo não técnico do projeto, a unidade tem capacidade para tratar 230 toneladas por dia de resíduos, o que corresponde a 84 mil toneladas por ano.
Por ano, deverá produzir 1.357 metros cúbicos normais de biogás por hora, que vão permitir uma produção de 700 metros cúbicos de biometano, podendo evitar a emissão de 437 mil toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera.
Em relação aos riscos do projeto, é referido que “serão tomadas todas as medidas para que a sua gestão cumpra todos os requisitos legais aplicáveis e não constitua risco de contaminação do ambiente”.
O investimento de 20,5 milhões de euros aguarda pelo licenciamento ambiental, devendo obter a Declaração de Impacto Ambiental até meados de 2027, e pela licença de construção pela câmara municipal.
“Gostaríamos de começar a construir o projeto daqui a um ano”, indicou à agência Lusa o diretor-geral da Gás da Terra, Bernardo dos Santos.
A unidade vai criar cerca de sete postos de trabalho diretos e outros 20 indiretos, prevendo-se uma faturação de cerca de seis milhões de euros por ano.
A unidade está prevista para a localidade de Marés, na freguesia da Abrigada e Cabanas de Torres, um local escolhido de forma estratégica dada a ligação direta à Estrada Nacional 1 e à rede nacional de gás.
Relativamente aos impactos a nível do tráfego rodoviário, do ruído e dos maus cheiros, os promotores dizem estar empenhados em mitigá-los com a proximidade entre explorações agrícolas e a infraestrutura e o cumprimento da legislação de odores mais restritiva a nível europeu.
A empresa quer criar uma comissão de acompanhamento e um canal de contacto para receber as preocupações das populações limítrofes.













