A riqueza de terras raras da Ucrânia é um dos temas do momento, fruto do acordo entre Kiev e Washington. No entanto, a Ucrânia não é, de forma alguma, um país rico nestes minerais, essenciais para a indústria de Defesa, smartphones ou baterias de carros elétricos: Zelensky prepara-se para viajar para os EUA na próxima sexta-feira para assinar o acordo.
No entanto, a Ucrânia não possui grandes reservas de terras raras que tenham sido reconhecidas internacionalmente como economicamente viáveis: o Serviço Geológico ucraniano relatou vários depósitos, mas estão pouco investigados e muito pouco se sabe sobre o seu potencial, apontou o jornal espanhol ‘El Economista’. Aliás, a maioria das descobertas são subprodutos da produção de materiais como fosfatos e outros minerais que estão em áreas sob controlo russo.
O que são as terras raras?
Constituem um conjunto de 17 elementos metálicos, agrupados por semelhanças químicas: o lutécio ou disprósio, por exemplo, são usados tanto em iPhones como em máquinas médicas, passando por sistemas de orientações de mísseis. O mais conhecido do público em geral é o lítio, usado para baterias de smartphones como de carros elétricos.
O Instituto Geológico ucraniano indicou que o país possui elementos de terras raras, como lantânio e cério, usados em televisores e sistemas de iluminação; o neodímio, essencial para turbinas eólicas e baterias de carros elétricos; o érbio e ítrio, cujas aplicações variam desde a energia nuclear aos lasers – um estudo financiado pelo EU indicou que Kiev tem reservas de escândio.
O organismo ucraniano garantiu que a Ucrânia possui 5% das “matérias-primas críticas” do mundo, onde estariam incluídos 19 milhões de toneladas de reservas comprovadas de grafite, material usado para baterias de carros elétricos – isso tornaria o país “um dos cinco líderes” no fornecimento deste material.
O Governo de Zelensky não escondeu o interesse de promover a exploração desses materiais cruciais na sua procura por mais apoio militar e económico: em novembro último, o presidente ucraniano, desesperado para construir relações com Donald Trump, apresentou-lhe um “plano de vitória” no qual enfatizou o potencial dos recursos minerais. A 3 de fevereiro, Trump começou a defender a ideia de que os ucranianos tinham “elementos de terras raras muito valiosos”. Por isso, é provável que a Presidência ucraniana tenha dado impulso à questão, sabendo que não havia informações sobre exploração lucrativa.
De acordo com Willis Thomas, consultor principal do CRU Group, esses tipos de matérias-primas são tão específicos que muitas vezes não há estudos detalhados, pelo que “simplesmente não há informações suficientes”. A intenção de Trump era garantir 500 mil milhões de dólares em nova produção, uma margem que Kiev não seria capaz de atingir mesmo se fossem encontradas terras raras nos 603.628 quimómetros quadrados do território ucraniano.
O mercado global de terras raras está estimado em 11 mil milhões de dólares, podendo subir para 21,7 mil milhões até 2031. Mesmo que Kiev tenha um grande reservatório destes materiais, não conseguiria atingir a meta exigida pelos Estados Unidos, pelo que poderão estar a hipotecar-se para o resto da vida.
Combater a China ‘no seu jogo’
O interesse de Donald Trump em terras raras vem do facto de a China ter o maior abastecimento global: segundo o Serviço Geológico dos EUA, aproximadamente 80% dos materiais usados pela indústria americana vêm do gigante asiático. Até 2023, a China produzirá 240 mil toneladas métricas de óxidos de terras raras, respondendo por aproximadamente 70% da produção global. Os Estados Unidos ocupam o 2º lugar no mundo, mas estão muito atrás da China, que produziram 38 mil toneladas métricas no mesmo ano. Mas o mais importante é que quase 90% da capacidade de separação e refinação também pertence à China.
“Mesmo que a Ucrânia tivesse depósitos economicamente viáveis, o Ocidente ainda enfrentaria um desafio maior. A maioria dos países deve enviar os minerais raros que extraem para a China para refinação, já que a China domina o processamento desses materiais”, frisaram os especialistas da ‘Bloomberg’.
É por isso que o gigante asiático também aproveitou a falta de interesse da UE e dos EUA pela América do Sul para se aproximar dos países do chamado ‘triângulo do lítio’ – Argentina, Bolívia e Chile contêm mais da metade do lítio do mundo. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos, a Bolívia lidera com 21 milhões de toneladas de lítio, seguida pela Argentina com 20 milhões e pelo Chile com 11 milhões.














