A Coreia do Norte negou oficialmente um dos mitos mais antigos sobre a sua dinastia governante, rejeitando a ideia de que Kim Il Sung, fundador do país, possuía poderes sobrenaturais. A decisão, divulgada pelos media estatais ‘Rodong Shinmun’, é vista como um sinal de que Kim Jong Un procura afastar a aura mística construída em torno dos seus antecessores e projetar uma imagem mais pragmática.
Segundo o jornal norte-coreano, “as pessoas não podem desaparecer e reaparecer dobrando o espaço”, numa referência direta à técnica lendária chukjibop, uma espécie de “teletransporte” inspirada nas artes marciais asiáticas. Durante décadas, a propaganda oficial atribuía a Kim Il Sung a capacidade de usar essa técnica para derrotar tropas japonesas no período colonial.
De acordo com o Ministério da Unificação da Coreia do Sul, esta é a primeira vez que a imprensa estatal nega explicitamente um mito ligado à família Kim. O gesto segue-se a comentários recentes de Kim Jong Un, que em outubro criticou publicamente decisões tomadas pelos seus antecessores, descrevendo como “equivocada” a política que levou à criação do resort inter-coreano no Monte Kumgang, atualmente abandonado.
Desde que assumiu o poder em 2011, Kim Jong Un tem procurado suavizar o tom de veneração quase divina que marcou a propaganda em torno do seu pai, Kim Jong Il, e do seu avô, Kim Il Sung. De acordo com analistas sul-coreanos, a narrativa estatal passou a privilegiar histórias mais plausíveis, reduzindo o número de feitos sobrenaturais atribuídos à família.
“Kim Jong Un estudou na Europa e tem uma mentalidade mais racional”, explicou Yoo Dong-ryul, do Instituto Coreano de Democracia Liberal, citado pela Rádio ‘Free Asia’. “A propaganda norte-coreana tenta agora ser mais verossímil, porque mitos absurdos já não convencem nem o público interno nem o estrangeiro.”
Kwak Gil Sup, diretor da organização ‘One Korea Center’, considera que essa estratégia também serve para reforçar a autoestima dos cidadãos, aproximando a liderança do povo. Já Kim Hyung-suk, ex-vice-ministro da Unificação sul-coreano, vê a negação do chukjibop como “um rompimento simbólico com o excesso de idolatria do passado”, mas sublinha que não se trata de apagar o legado da família Kim.
Segundo o ex-governante, “a nova linha de propaganda pretende manter o respeito pelos líderes anteriores, mas com base em princípios práticos e realistas”.
Com esta viragem discursiva, Kim Jong Un parece querer consolidar a sua própria autoridade num equilíbrio delicado entre tradição, racionalidade e controle da narrativa política.













