Usar IA como psicólogo já é um “problema de saúde pública”, alerta bastonária

A utilização de ferramentas de inteligência artificial como substituto de acompanhamento psicológico já representa um “problema de saúde pública”, alerta Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Executive Digest

A utilização de ferramentas de inteligência artificial como substituto de acompanhamento psicológico já representa um “problema de saúde pública”, alerta Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A responsável chama a atenção para os riscos associados ao recurso a chatbots, aplicações e plataformas digitais por pessoas que procuram respostas para situações de ansiedade, depressão, problemas relacionais ou até pensamentos suicidas, sobretudo quando essas ferramentas são utilizadas sem acompanhamento de um profissional especializado.

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Em entrevista à Rádio Renascença, por ocasião do Dia Nacional do Psicólogo, que se assinala esta sexta-feira, Sofia Ramalho compara algumas destas práticas à chamada “pseudopsicologia” e alerta para a existência de aplicações de saúde mental que prometem respostas para a ansiedade ou sintomas depressivos sem cumprirem, em determinados casos, requisitos científicos. A preocupação torna-se maior quando sistemas de inteligência artificial de utilização generalista assumem perante o utilizador um papel semelhante ao de um psicólogo, uma vez que “não está do outro lado um profissional competente para poder colocar as questões certas, para poder perceber exatamente qual é o contexto que a pessoa está a viver”, sublinha a bastonária.

Sofia Ramalho dá como exemplo uma pessoa que descreve a um chatbot sintomas de tristeza e pergunta de que perturbação poderá sofrer. “Poderiam aparecer várias, mas o Chat se calhar até só vai responder que é uma depressão”, exemplifica, considerando que uma resposta simplificada pode ser particularmente problemática quando está em causa a saúde mental. “Estamos, de facto, em situações que são perigosas, porque estamos a falar de situações de saúde”, acrescenta a responsável, para quem o recurso à inteligência artificial “sem qualquer acompanhamento de um profissional especializado” já constitui um problema de saúde pública.

Apesar dos alertas, a Ordem dos Psicólogos Portugueses não defende uma rejeição da inteligência artificial. A instituição publicou, em maio, um documento com bases para a integração destas tecnologias na intervenção psicológica, defendendo uma utilização ética, cientificamente sustentada e capaz de garantir a proteção dos utentes. Já em janeiro, uma tomada de posição conjunta da Ordem, de instituições de ensino superior e de sociedades de psicoterapia tinha defendido que o eventual papel da IA como assistente da intervenção psicológica deveria ser aprofundado, mas sempre com recurso a investigação rigorosa. Sofia Ramalho considera ainda essencial formar os próprios psicólogos para que possam utilizar estas ferramentas de forma adequada e em benefício dos cidadãos, num contexto em que “a transformação tecnológica está a acontecer a uma velocidade muito rápida”.

A utilização de inteligência artificial na saúde mental enquadra-se também num novo contexto regulatório europeu. Desde agosto começaram a aplicar-se novas obrigações previstas no AI Act, o Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, que estabelece regras para o desenvolvimento e utilização destes sistemas. Entre as exigências de transparência estão situações em que determinados chatbots e sistemas interativos devem informar claramente os utilizadores de que estão a interagir com inteligência artificial e não com uma pessoa. Para a Ordem dos Psicólogos, a tecnologia pode ter um papel complementar, mas não deve ser confundida com acompanhamento psicológico profissional, sobretudo quando estão em causa sintomas ou situações que exigem avaliação clínica adequada.

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