O plano parecia simples: Marine Le Pen candidata ao Palácio do Eliseu, Jordan Bardella preparado para assumir o cargo de primeiro-ministro e a Reunião Nacional (RN) a apresentar aos franceses duas faces diferentes do mesmo projeto político.
Ela conservaria o eleitorado histórico do partido, com posições mais duras em matérias como imigração, Islão e soberania nacional. Ele procuraria conquistar eleitores mais moderados, empresários e uma direita tradicional que ainda olha para Le Pen com desconfiança.
Mas, a pouco mais de sete meses das presidenciais francesas de abril de 2027, começam a aparecer fissuras.
Pensões, economia, proibição do véu islâmico, estratégia eleitoral e até a saída de um importante conselheiro de Bardella estão a expor diferenças entre os dois principais rostos da extrema-direita francesa.
E por trás das divergências políticas existe uma questão ainda mais sensível: depois de passar meses a preparar-se para poder substituir Le Pen na corrida presidencial, Bardella parece pouco disposto a voltar simplesmente ao papel de número dois.
O ‘El País’ descreve uma relação que já não aparenta a harmonia de outros tempos. É raro os dois aparecerem juntos e Bardella nem sequer acompanhou Le Pen ao primeiro grande debate presidencial com outros seis candidatos, organizado pela principal associação patronal francesa em Roland-Garros.
Mas o que está realmente a acontecer? O que separa os dois? E até onde esta disputa pode colocar em causa a estratégia da RN para chegar finalmente ao poder em França?
O que é a dupla Le Pen-Bardella?
A estratégia foi desenhada quase como uma candidatura conjunta.
Marine Le Pen concorreria à Presidência da República. Se ganhasse e conseguisse posteriormente uma maioria parlamentar, Jordan Bardella seria a escolha natural para primeiro-ministro.
Os dois permitem à RN falar simultaneamente para eleitorados diferentes.
Le Pen representa uma tradição mais social e intervencionista do partido, combinada com posições muito duras sobre imigração, Islão e relação com a União Europeia.
Bardella tem procurado construir uma imagem mais próxima da direita económica, do mundo empresarial e de uma geração mais jovem de eleitores.
Essa diferença podia ser uma vantagem.
Em vez de escolher entre duas sensibilidades, a RN poderia apresentar ambas.
O problema começa quando essas diferenças deixam de ser complementares e passam a transformar-se em contradições públicas.
O que mudou?
Uma data ajuda a perceber a situação: 7 de julho.
Foi nesse dia que o Tribunal de Recurso de Paris confirmou a condenação de Marine Le Pen no processo relacionado com os assistentes parlamentares europeus do partido.
Apesar da decisão judicial, Le Pen anunciou que continuaria a concorrer às presidenciais de 2027.
Para Bardella, isso significava uma mudança radical.
Durante cerca de oito meses, enquanto pairava a possibilidade de Le Pen ficar politicamente impedida de disputar o Eliseu, o presidente da RN viveu como potencial candidato presidencial.
Preparou-se para essa possibilidade, ganhou protagonismo e viu crescer a sua própria popularidade.
Quando Le Pen decidiu permanecer na corrida, Bardella voltou formalmente à posição de candidato a primeiro-ministro.
Politicamente, porém, parece não ter regressado ao ponto de partida.
“É natural que cada um tenha o seu próprio caráter; por vezes temos sensibilidades, palavras ou formulações que podem diferir”, reconheceu Bardella numa entrevista à BFM TV.
O problema é que essas diferenças começam a surgir precisamente em algumas das questões mais importantes da campanha.
Onde discordam?
Há pelo menos três áreas onde a distância se tornou visível.
A primeira são as pensões.
Marine Le Pen continua a defender uma política mais próxima da tradição social da RN e pretende voltar a reduzir a idade de acesso à reforma.
Bardella tem uma visão diferente. Considera que o atual sistema de repartição enfrenta problemas de sustentabilidade, admite maior recurso a mecanismos de capitalização e tem evitado comprometer-se com algumas das promessas apresentadas pela candidata presidencial.
A segunda divergência é económica.
Bardella tem procurado aproximar-se dos empresários e transmitir uma imagem de maior disciplina orçamental e menor intervencionismo estatal.
Não é irrelevante.
Segundo o ‘El País’, parte do mundo empresarial francês continua a considerar Marine Le Pen demasiado radical, enquanto Bardella é visto como uma figura mais acessível.
Mas é a terceira diferença que está neste momento a causar maior polémica.
O véu islâmico tornou-se o símbolo da disputa
Marine Le Pen defende há anos a proibição do véu islâmico no espaço público.
A proposta remonta à campanha presidencial de 2012 e voltou agora ao centro da campanha.
Jean-Philippe Tanguy, deputado da RN e um dos homens mais próximos de Le Pen na Assembleia Nacional, foi particularmente claro: se uma mulher utilizar o véu depois da proibição, poderá ser multada.
Bardella não está convencido.
Já em abril tinha manifestado reservas dentro do partido, considerando que a medida poderia transformar-se numa desvantagem eleitoral. O Le Monde revelou que chegou mesmo a defender que a RN abandonasse a proibição, hipótese rejeitada por Le Pen.
Agora procura moderar a proposta.
Em vez de prometer uma proibição imediata, Bardella defende que a questão seja submetida aos franceses através de um referendo durante um eventual mandato presidencial de Le Pen.
A sua preferência pessoal parece ser mais limitada: proibir símbolos religiosos ostensivos — incluindo véus, quipás e grandes cruzes cristãs — dentro de edifícios públicos.
Le Pen foi novamente mais longe.
Garantiu que apresentará aos franceses, através de referendo, uma lei contra aquilo que chama de “ideologias islamistas”, incluindo a criminalização do uso do véu islâmico no espaço público.
A proposta enfrenta obstáculos constitucionais significativos. Especialistas e responsáveis institucionais franceses têm alertado que uma proibição geral colidiria com direitos fundamentais protegidos pela Constituição e pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos. A estratégia de recorrer a referendo também poderá exigir previamente uma revisão constitucional.
Porque é que Bardella não quer simplesmente ceder?
Porque 2026 mudou a sua posição dentro da RN.
Bardella já não é apenas o jovem protegido escolhido por Marine Le Pen. Preside ao partido, tornou-se uma das figuras políticas mais populares da direita francesa e passou meses perante a possibilidade real de ser ele próprio candidato ao Eliseu.
Aos 22 anos já era porta-voz da RN. Aos 23 encabeçou a lista para as eleições europeias. Aos 26 tornou-se presidente do partido.
E durante os meses em que o futuro judicial de Le Pen ameaçou retirar a líder da corrida presidencial, Bardella passou a ser visto como o sucessor natural.
Segundo o ‘El País’, chegou mesmo a sentir-se candidato durante oito meses.
É difícil regressar dessa posição para a de simples coadjuvante.
Há também uma luta dentro do próprio partido?
Os sinais apontam para a existência de sensibilidades cada vez mais distintas.
O episódio de François Durvye, até recentemente um dos principais conselheiros de Bardella, tornou isso particularmente evidente.
Durvye aproximara Bardella dos círculos empresariais e, segundo informações publicadas pela imprensa francesa, terá aconselhado o líder da RN a avançar com uma candidatura presidencial mesmo depois de Le Pen decidir continuar na corrida.
“Saia e diga que vai ser candidato”, terá sugerido.
Bardella não o fez.
Mas a informação terá chegado ao círculo de Le Pen e Durvye acabou afastado da campanha.
Até sobre o que aconteceu existem versões diferentes.
O círculo de Le Pen associa a saída à alegada deslealdade. Bardella limitou-se a dizer que Durvye tomou “uma decisão pessoal”.
O episódio reforçou a perceção de que existem agora dois centros de poder dentro da mesma organização.
Isto significa que Bardella pode desafiar Le Pen?
Neste momento, não.
Marine Le Pen é candidata presidencial da RN e Bardella continua publicamente comprometido com a estratégia de chegar ao Governo ao seu lado.
Também não existem sinais de que esteja a preparar uma candidatura contra ela.
Mas a relação mudou.
O próprio Bardella reivindica a existência de um “binómio executivo” no qual os dois dirigentes tenham voz própria, em vez de uma estrutura onde Le Pen decide e o restante partido simplesmente acompanha.
É uma diferença importante.
Quanto mais Bardella procurar construir uma identidade política autónoma, maior será a possibilidade de discordar publicamente da candidata que deveria servir como primeiro-ministro.
O que está realmente em causa?
Muito mais do que uma discussão sobre o véu ou as pensões.
A RN construiu para 2027 uma estratégia baseada precisamente na complementaridade entre os dois dirigentes.
Le Pen pode mobilizar o eleitorado histórico da extrema-direita e apresentar-se como uma candidata com quatro campanhas presidenciais de experiência.
Bardella pode ajudar a chegar a setores onde ela continua a enfrentar resistência, nomeadamente empresários, jovens e parte da direita tradicional.
A fórmula funciona enquanto as diferenças forem apresentadas como sensibilidades complementares.
Torna-se um problema se os franceses começarem a vê-las como dois programas diferentes.
E existe uma dificuldade adicional: em França, Presidente e primeiro-ministro precisam de trabalhar juntos, sobretudo quando pertencem à mesma maioria política.
Se já discordam antes das eleições sobre medidas centrais do programa, os adversários da RN poderão perguntar o que aconteceria depois de chegarem ao poder.
Pode esta divisão prejudicar Marine Le Pen?
Pode, mas não necessariamente.
Uma certa distância de Bardella pode até ser eleitoralmente útil.
Permite à RN falar para dois públicos: Le Pen mantém posições capazes de mobilizar o núcleo mais fiel do partido, enquanto Bardella oferece uma versão mais moderada aos eleitores que ainda hesitam em votar na extrema-direita.
É a lógica original da dupla.
O risco surge se os desacordos começarem a transmitir desorganização, rivalidade ou falta de autoridade.
E já existem sinais de preocupação interna.
O ‘Le Monde’ cita um dirigente da RN inquieto com a imagem transmitida pelo arranque da campanha: “Não dá uma imagem de coesão, está tudo a ir em todas as direções e isso é problemático.”
E o que acontece a seguir?
Os próximos meses vão mostrar se estamos perante uma divisão estrutural ou apenas uma fase de ajustamento depois de Bardella ter passado grande parte do ano preparado para substituir Le Pen.
Dentro da RN há quem acredite que a hierarquia acabará por se impor.
Um dirigente experiente citado pelo ‘Le Monde’ considera que Bardella ainda terá algum tempo para afirmar as suas diferenças, mas acabará por se adaptar quando a campanha presidencial ganhar velocidade.
A ideia é simples: Marine Le Pen é a candidata. Se ganhar, Bardella será o primeiro-ministro.
Mas essa fórmula contém também o problema que a RN terá de resolver até abril.
Bardella passou meses a preparar-se para poder suceder a Le Pen. Ganhou protagonismo, construiu a sua própria base política e aproximou-se de setores que continuam desconfiados da candidata presidencial.
Agora pedem-lhe que volte a ser o número dois.
E ele parece cada vez menos disposto a comportar-se como tal.

















