A guerra ainda não terminou e a reconstrução da Ucrânia deverá prolongar-se durante anos, mas Kiev já começa a pensar num futuro muito para lá do conflito. E nele poderá estar a organização do maior evento do futebol mundial.
Ucrânia e Polónia estão a discutir a possibilidade de avançarem com uma candidatura conjunta à organização de um Campeonato do Mundo masculino de futebol na década de 2040, revelou esta sexta-feira Matvii Bidnyi, ministro ucraniano do Desporto.
A informação foi avançada pelo ‘Kyiv Post’, que cita também o ‘POLITICO’. Uma fonte conhecedora das discussões no Governo polaco confirmou que Varsóvia está a analisar a ideia, embora, nesta fase, não exista qualquer processo formal de candidatura.
“A data disponível mais próxima para o Mundial será algures na década de 2040, por isso temos de começar já a planear com essa perspetiva”, afirmou Bidnyi.
A ideia recuperaria uma parceria que os dois países já experimentaram: Ucrânia e Polónia organizaram conjuntamente o Euro’2012.
“Seria muito lógico repetir este caso de sucesso”, defendeu o ministro ucraniano, que vê num eventual Mundial não apenas um projeto desportivo, mas também uma forma de atrair investimento internacional para a reconstrução do país.
Do Euro’2012 para um Mundial
O projeto terá sido discutido também à margem da Ukraine Recovery Conference realizada este ano em Gdańsk, segundo uma fonte polaca citada pelo ‘POLITICO’.
Ainda assim, está longe de existir uma candidatura. Bidnyi salientou que uma iniciativa formal teria de partir das federações de futebol ou da própria comunidade desportiva dos dois países.
“Estamos interessados, mas começa com as iniciativas da comunidade desportiva ou da federação. Veremos”, explicou.
Há ainda muito tempo pela frente. Espanha, Portugal e Marrocos vão organizar conjuntamente o Mundial de 2030, enquanto a edição de 2034 será realizada na Arábia Saudita. É, por isso, para a década seguinte que Kiev e Varsóvia começam a olhar.
Para a Ucrânia, porém, organizar um Mundial dependeria de condições muito mais profundas do que construir ou modernizar estádios.
Primeiro será preciso reconstruir um país
Qualquer candidatura ucraniana pressupõe o fim da guerra com a Rússia, condições de segurança duradouras e uma enorme operação de reconstrução de estádios, estradas, transportes, hotéis e outras infraestruturas necessárias para receber milhões de adeptos.
A dimensão do desafio é gigantesca. A mais recente avaliação conjunta do Governo ucraniano, Banco Mundial, Comissão Europeia e Nações Unidas estima em quase 588 mil milhões de dólares — mais de 500 mil milhões de euros — as necessidades de reconstrução e recuperação da Ucrânia ao longo da próxima década. O transporte é, aliás, o setor com maiores necessidades, acima dos 96 mil milhões de dólares.
Um dos símbolos do problema está em Donetsk.
A Donbas Arena recebeu cinco partidas do Euro’2012, incluindo uma meia-final. Dois anos depois, a cidade foi ocupada por forças apoiadas pela Rússia e o estádio viria a sofrer danos. O Shakhtar Donetsk teve de abandonar a cidade e nunca mais regressou àquela que era a sua casa.
Vasyl Mokan, vice-presidente da Comissão da Juventude e Desporto do Parlamento ucraniano, disse ao ‘Kyiv Post’ não ter recebido qualquer confirmação oficial sobre negociações para uma candidatura, mas classificou a ideia como “convincente e cheia de potencial”.
Para Mokan, organizar um Mundial juntamente com a Polónia poderia tornar-se “muito mais do que um grande evento desportivo” e funcionar como “um poderoso símbolo da solidariedade europeia com a Ucrânia”.
Mas colocou uma condição inequívoca: primeiro terá de existir paz.
O fim da guerra, uma paz “justa e duradoura” e garantias de segurança credíveis a longo prazo seriam indispensáveis. “Sem estas condições, seria prematuro falar sobre receber um Campeonato do Mundo FIFA na Ucrânia”, salientou.
Há também um problema entre Kiev e Varsóvia
Nem todas as dificuldades estão relacionadas com a guerra ou com dinheiro.
Apesar de a Polónia ter sido um dos principais apoiantes da Ucrânia desde o início da invasão russa em larga escala, as relações entre Varsóvia e Kiev atravessam um período de maior tensão, sobretudo devido a disputas históricas.
Segundo o ‘Kyiv Post’, um inquérito realizado em agosto pelo instituto público polaco CBOS mostrou que 46% dos inquiridos avaliavam negativamente as relações entre os dois países, o valor mais elevado alguma vez registado nesse estudo. Apenas 12% tinham uma avaliação positiva.
O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, tem defendido que as divergências sobre a memória histórica não devem prejudicar a parceria estratégica entre os dois países nem acabar por beneficiar a Rússia.
Assim, por enquanto, o Mundial continua a ser apenas uma ideia para um futuro distante. Para chegar à década de 2040 com condições para receber algumas das maiores seleções e milhões de adeptos, a Ucrânia terá primeiro de terminar uma guerra, garantir a sua segurança e reconstruir uma parte significativa do país.
Só depois poderá tentar repetir, numa escala muito maior, aquilo que fez ao lado da Polónia em 2012.



















