Quantas vezes teria de falar com o ChatGPT para gastar tanta água como aquela que é necessária para produzir uma única amêndoa?
Segundo Sam Altman, a resposta é surpreendente: cerca de 38 mil.
O CEO da OpenAI recorreu à comparação durante uma participação no podcast “Sources”, de Alex Heath, ao abordar uma das críticas que mais tem acompanhado a explosão da inteligência artificial: a enorme quantidade de recursos necessária para alimentar e refrigerar os centros de dados onde funcionam estes sistemas.
“Por cada 38 mil perguntas ao ChatGPT, é utilizada a mesma quantidade de água que na produção de uma única amêndoa na Califórnia”, afirmou Altman.
Há, contudo, um problema: ninguém parece conseguir confirmar que a conta esteja certa.
Uma amêndoa contra 38 mil perguntas
A comparação é particularmente eficaz porque transforma um problema gigantesco — centros de dados, servidores, sistemas de refrigeração e milhares de milhões de pedidos feitos a modelos de IA — numa coisa que cabe entre dois dedos.
Altman argumenta que as preocupações em torno do consumo de água da IA estão sobrestimadas. Na mesma entrevista, comparou o consumo de água de um grande centro de dados moderno ao de um edifício de escritórios, tendo em conta utilizações quotidianas como torneiras e casas de banho.
Mas uma análise da CalMatters às declarações encontrou uma dificuldade fundamental: não existem dados públicos suficientes para verificar a comparação das 38 mil perguntas.
Shaolei Ren, professor de engenharia elétrica e informática da Universidade da Califórnia em Riverside e investigador do impacto ambiental da IA, salientou precisamente essa falta de informação.
O consumo pode variar consoante o centro de dados, localização, temperatura exterior, sistema de refrigeração, modelo utilizado e até o tamanho e complexidade da pergunta e da resposta.
Então quantas perguntas são realmente necessárias?
Provavelmente bastante menos do que 38 mil — mas nem sequer aqui existe uma resposta única.
O PolitiFact analisou posteriormente a declaração e classificou-a como “Mostly False”, concluindo que Altman juntou uma estimativa relativamente baixa para o consumo do ChatGPT a uma estimativa elevada para a água necessária para produzir uma amêndoa.
Considerando cerca de seis litros de água doce para produzir uma amêndoa na Califórnia, as estimativas disponíveis apontariam para algo entre aproximadamente mil e 10 mil pedidos a uma IA conversacional para chegar ao mesmo consumo — uma margem enorme que demonstra precisamente a dificuldade de fazer este tipo de comparação.
O próprio Altman admitiu no podcast que o número poderia não estar exatamente correto, embora tenha defendido que estaria próximo.
O verdadeiro problema pode não caber numa amêndoa
Por detrás da comparação divertida existe, contudo, uma questão muito maior.
Os centros de dados estão a consumir cada vez mais água. Segundo dados citados pela CalMatters, o consumo direto dos centros de dados nos EUA passou de cerca de 5,6 mil milhões de galões em 2014 para aproximadamente 17 mil milhões em 2023.
E a expansão da IA deverá aumentar significativamente a pressão sobre os recursos.
Um relatório da Universidade das Nações Unidas publicado este ano estima que, em 2030, a pegada hídrica associada aos centros de dados que suportam a inteligência artificial poderá equivaler às necessidades domésticas básicas anuais de água de 1,3 mil milhões de pessoas na África subsaariana.
Há ainda outro pormenor importante: poupar água num centro de dados não significa necessariamente resolver o problema ambiental. Sistemas de refrigeração que consomem menos água podem exigir mais eletricidade, transferindo parte do impacto de um recurso para outro.
É precisamente por isso que reduzir toda a discussão a uma amêndoa pode ser tentador, mas também enganador.
A comparação de Sam Altman deixa, pelo menos, uma certeza: podemos ainda não saber exatamente quantas perguntas ao ChatGPT equivalem à água necessária para produzir uma amêndoa. Mas sabemos que a resposta é consideravelmente mais complicada do que “38 mil”.













