Durante décadas, a discussão sobre a eletricidade centrou-se, essencialmente, no preço e na quantidade consumida. Hoje, porém, não basta saber quanta energia utilizamos: é igualmente importante perceber em que momentos a consumimos e se existe margem para ajustar esses consumos aos períodos mais económicos.
A recente publicação da Diretiva n.º 3/2026, de 19 de agosto, reforça esta realidade. A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos aprovou novos períodos horários para a eletricidade em Portugal continental, procurando adaptar as tarifas às alterações registadas na produção, no consumo e na utilização das redes elétricas.
A medida abrange cerca de 500 mil consumidores domésticos com tarifas bi-horárias ou tri-horárias e aproximadamente 70 mil clientes empresariais e industriais, responsáveis por cerca de 58% do consumo total de eletricidade.
Na tarifa bi-horária com ciclo diário, o período de vazio, associado a preços mais baixos, passará a começar às 22h30, em vez das atuais 22h00, terminando às 08h30, em vez das 08h00. Nas tarifas tri-horárias, as horas de ponta concentram-se no final do dia, deixando de existir durante a manhã. No ciclo diário, passarão a situar-se entre as 17h30 e as 21h30.
Para empresas e instalações ligadas em baixa tensão especial, média, alta e muito alta tensão, os novos horários serão aplicados a partir de 1 de abril de 2027. Para consumidores domésticos com tarifas bi-horárias ou tri-horárias, a alteração ocorrerá entre julho e dezembro desse ano. Os clientes com tarifa simples não sofrerão alterações diretas no preço em função da hora.
Os novos períodos serão obrigatórios nas tarifas de acesso às redes, tanto no mercado regulado como no liberalizado. No mercado regulado, aplicar-se-ão igualmente aos preços de venda ao consumidor final. Já no mercado liberalizado, os horários associados à componente de energia dependerão das condições contratadas com cada comercializador.
Esta alteração reflete uma transformação mais profunda do sistema elétrico. Durante o dia, o crescimento da produção solar aumenta a disponibilidade de energia. Ao final da tarde, a redução dessa produção coincide com o regresso das famílias a casa, a utilização de equipamentos domésticos e, em muitos casos, o carregamento de veículos elétricos. Este desfasamento entre os momentos de maior produção renovável e os períodos de maior consumo torna necessária uma gestão mais inteligente da energia.
É aqui que o armazenamento assume particular relevância. Uma família com painéis solares e uma bateria pode guardar a eletricidade produzida durante o dia para a utilizar ao final da tarde, quando a produção diminui e os preços podem ser mais elevados. Mesmo sem produção própria, uma bateria pode, em determinadas circunstâncias, ser carregada durante os períodos mais económicos e utilizada nas horas de maior custo.
Nas empresas, o potencial é ainda mais abrangente. Os sistemas de armazenamento podem reduzir o consumo nas horas de ponta, diminuir os encargos associados à potência, aumentar o aproveitamento da produção renovável e contribuir para uma gestão mais eficiente das necessidades energéticas. Quando combinadas com ferramentas digitais de previsão e otimização, estas soluções permitem ajustar o funcionamento das baterias às tarifas, aos consumos e à produção disponível, reforçando a competitividade empresarial.
Contudo, não existem receitas únicas. A instalação de uma bateria não representa automaticamente uma poupança, tal como uma tarifa bi-horária não é necessariamente a opção mais vantajosa para todos os consumidores. A viabilidade depende do perfil de consumo, dos horários de utilização, da existência de produção solar, da capacidade de deslocar consumos, das condições contratuais e do custo do investimento.
O verdadeiro desafio consiste, por isso, em analisar cada situação individualmente e identificar a combinação mais adequada entre tarifa, autoconsumo, armazenamento e gestão dos equipamentos. Num sistema energético em transformação, famílias e empresas que conheçam melhor os seus consumos e consigam geri-los de forma inteligente estarão mais bem preparadas para reduzir custos e aproveitar as oportunidades da transição energética.





