A Coreia do Norte construiu uma nova instalação de dois pisos para enriquecimento de urânio no principal complexo nuclear de Yongbyon, numa expansão que está a provocar “séria preocupação” na Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).
Segundo a ‘BBC’, o novo edifício terá capacidade para albergar até 28 cascatas de centrifugadoras utilizadas no processo de enriquecimento de urânio, material que, quando enriquecido a níveis elevados, pode ser utilizado na produção de armas nucleares.
Mas Yongbyon não é o único motivo de preocupação.
Num relatório divulgado no final de agosto, a AIEA indicou também existirem sinais de que a Coreia do Norte começou a operar uma ampliação construída noutra instalação de enriquecimento, em Kangson, perto de Pyongyang.
As descobertas apontam para uma expansão continuada da infraestrutura nuclear do regime de Kim Jong Un, numa altura em que a agência internacional não tem inspetores dentro do país e depende essencialmente de imagens de satélite para acompanhar o programa.
“A continuação e o desenvolvimento adicional do programa nuclear da RPDC são violações claras das resoluções relevantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e são profundamente lamentáveis”, afirmou esta semana Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA.
Até 28 cascatas de centrifugadoras
A existência do novo edifício em Yongbyon já tinha sido referida pela AIEA em junho, embora Grossi tivesse levantado essa possibilidade anteriormente.
Nesse mês, a agência indicou que Kim Jong Un tinha visitado, a 3 de junho, aquilo que os meios de comunicação estatais norte-coreanos apresentaram como uma “fábrica de produção de materiais nucleares recentemente inaugurada”.
A AIEA identificou o local como a instalação de enriquecimento de Yongbyon.
Durante a visita, Kim elogiou a “capacidade de produção significativamente ampliada” do país e afirmou que esta permitiria executar “planos maiores”, segundo a informação citada pela agência.
O novo edifício tem dois pisos e, de acordo com a avaliação da AIEA reproduzida pela BBC, poderá acomodar até 28 cascatas de centrifugadoras.
Estas máquinas são utilizadas para aumentar a concentração do isótopo urânio-235. O processo pode produzir combustível para determinados reatores nucleares, mas, quando levado a níveis de enriquecimento muito superiores, pode também fornecer material para armas nucleares.
O problema é aquilo que os satélites não conseguem ver
A AIEA enfrenta uma dificuldade adicional para determinar a verdadeira dimensão do programa de Pyongyang.
A agência não mantém inspetores na Coreia do Norte desde 2009, quando estes foram expulsos pelo regime, pelo que grande parte da monitorização depende atualmente de imagens de satélite e outras informações recolhidas à distância.
Edward Howell, professor da Universidade de Oxford, salientou à ‘BBC’ que precisamente esta falta de visibilidade torna o programa particularmente difícil de acompanhar.
“O que torna o programa nuclear da Coreia do Norte tão preocupante é que muitas das suas instalações são desconhecidas, estão escondidas e, por isso, são difíceis de atingir”, explicou.
E Yongbyon não é o único complexo conhecido.
“Além de Yongbyon, sabemos que existem outras instalações: Kangson, por exemplo”, acrescentou Howell, considerando que o papel central atribuído às armas nucleares na política interna e externa norte-coreana torna provável a existência de outros locais de produção escondidos.
Há sinais de atividade também em Kangson
A própria AIEA encontrou indícios de expansão para lá de Yongbyon.
Segundo a agência, há sinais de que uma instalação de enriquecimento em Kangson, perto da capital norte-coreana, começou a operar em janeiro deste ano.
Uma ampliação daquele complexo tinha sido construída em 2024.
Já em abril, a agência internacional tinha alertado que Pyongyang parecia estar a aumentar a capacidade para produzir armas nucleares e acompanhava atentamente a expansão observada em Yongbyon.
Os desenvolvimentos agora identificados reforçam essa avaliação.
Programa acelerou durante liderança de Kim
O programa nuclear e de mísseis norte-coreano avançou significativamente durante a liderança de Kim Jong Un.
O país realizou seis testes nucleares, o último dos quais em setembro de 2017, e efetuou numerosos lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais desde que começou a testar sistemas de longo alcance naquele ano.
Em 2022, a Coreia do Norte declarou-se oficialmente uma potência nuclear e prometeu não abdicar do seu arsenal.
Não existe um número confirmado publicamente de ogivas nucleares norte-coreanas, embora as estimativas apontem para dezenas.
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, afirmou anteriormente que Pyongyang poderá estar a produzir entre 15 e 20 novas ogivas por ano.
Seul propôs conversações. Pyongyang não respondeu
A expansão nuclear decorre ao mesmo tempo que Seul tenta reabrir uma via diplomática com o Norte.
Em agosto, Lee Jae Myung propôs conversações com Pyongyang para formalizar o fim da guerra entre as duas Coreias, defendendo que esse diálogo poderia também servir para discutir “formas eficazes de travar o avanço das capacidades nucleares do Norte”.
A Coreia do Norte ainda não respondeu à proposta.
Lee já tinha defendido que apoiaria um eventual acordo entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, e Kim Jong Un que permitisse congelar a produção nuclear norte-coreana.
Por enquanto, porém, aquilo que a AIEA consegue observar aponta precisamente na direção contrária.
Há uma nova instalação de dois pisos em Yongbyon, capacidade potencial para dezenas de cascatas adicionais de centrifugadoras e sinais de atividade numa ampliação em Kangson.
E permanece uma incógnita que os satélites não conseguem resolver completamente: quantas outras instalações poderão existir sem serem conhecidas.



















