O Governo italiano decidiu hoje socorrer o gigante siderúrgico ex-Ilva, em graves dificuldades financeiras e propriedade da ArcelorMittal, decidindo colocá-lo sob tutela do Estado, a fim de salvaguardar os milhares de postos de trabalho e relançar a produção.
Após meses de negociações infrutíferas com a ArcelorMittal, o seu principal acionista, o Governo de Giorgia Meloni anunciou a decisão numa reunião em Roma com os responsáveis das empresas da cadeia de fornecimento da siderurgia situada em Taranto (sul), segundo fontes próximas das negociações.
À beira da asfixia financeira e a braços com uma dívida de 3,1 mil milhões de euros, a antiga Ilva, uma das maiores siderurgias da Europa, já não consegue pagar a muitos dos seus fornecedores, nem pagar as contas do gás e da eletricidade.
No domingo à noite, a sociedade de investimento público Invitalia pediu ao Ministério das Empresas italiano que desse início ao processo, na sequência da “recusa” da ArcelorMittal em injetar dinheiro novo.
O gigante siderúrgico declarou-se hoje “surpreendido e desiludido” com a iniciativa, que não foi comunicada ao conselho de administração do operador siderúrgico Acciaierie d’Italia, reunido no dia anterior.
“Trata-se de uma violação flagrante do acordo de investimento” celebrado com Roma, declarou a ArcelorMittal numa mensagem de correio eletrónico enviada à Invitalia, na qual indica que “reserva todos os direitos”.
A Acciaierie d’Italia é controlada em 62% pela ArcelorMittal e em 38% pelo Estado italiano.
O Governo italiano e a ArcelorMittal acusam-se mutuamente de não honrarem os seus compromissos e de serem responsáveis pelo fracasso das negociações.
Enquanto a ArcelorMittal “não tiver intenção de investir na empresa, penso que é justo que o país recupere o fruto do seu trabalho e do sacrifício de gerações inteiras”, declarou no domingo o ministro das Empresas italiani, Adolfo Urso.
O objetivo declarado do Governo é permitir que a siderurgia, considerada estratégica para o país, continue a funcionar e reavivar a indústria siderúrgica italiana.
Ao abrigo da chamada “administração extraordinária”, o Governo nomeia comissários para gerir a empresa e preparar um plano de salvamento até à chegada de um novo investidor.
Segundo a imprensa italiana, os candidatos incluem o grupo siderúrgico ucraniano Metinvest, que tem procurado novas instalações de produção desde que o exército russo tomou o controlo da sua gigantesca siderurgia Azovstal em Mariupol (sudeste da Ucrânia) em maio de 2022.
Também na corrida para substituir a ArcelorMittal estão a siderúrgica italiana Arvedi e o grupo indiano Vulcan Green Steel, uma filial do conglomerado Jindal, que já tinha apresentado uma proposta sem sucesso para a Ilva em 2017.
Após uma série de contratempos financeiros e jurídicos, o grupo Ilva já tinha sido colocado sob administração pública em 2015, até que o Estado confiou o seu destino à ArcelorMittal em 2018.
Os gestores das empresas da antiga cadeia de abastecimento do Ilva têm más recordações desta última colocação sob administração judicial, que os deixou com 150 milhões de euros de faturas por pagar.
“[A partir de agora], o principal é garantir a sobrevivência da fábrica para retomar a produção. Caso contrário, não haverá economia nesta região do sul e todas estas empresas morrerão”, disse à agência noticiosa France-Presse (AFP) Fabio Greco, presidente da sua associação.
A ArcelorMittal adquiriu o grupo Ilva, com 10.700 empregados, dos quais 8.200 na fábrica de Taranto, altamente poluída, cujas emissões tóxicas contribuíram, segundo os juristas, para a morte de milhares de pessoas.
Segundo maior produtor de aço do mundo, a ArcelorMittal comprometeu-se, em 2018, a limpar a enorme fábrica, cujo horizonte domina a costa de Taranto, e a aumentar a sua produção anual para oito milhões de toneladas até 2025.
No entanto, a produção da siderurgia diminuiu, com apenas um dos quatro altos-fornos atualmente em funcionamento.














