A crise dos combustíveis está a agravar-se em França, com os preços da gasolina a atingirem novos máximos históricos e cerca de 10% dos postos de abastecimento a registarem falta de pelo menos um tipo de combustível. Ao mesmo tempo, os protestos de pescadores contra o aumento dos custos e a degradação das condições de trabalho intensificaram-se, levando ao bloqueio de depósitos petrolíferos no sul do país.
Os dados divulgados pelo Governo francês mostram que o preço médio do litro de gasolina SP95-E10 atingiu os 2,11 euros na sexta-feira, 11 de setembro, mais 2,3 cêntimos do que na semana anterior. Foi a sexta semana consecutiva de subida. O SP95-E5 também atingiu um novo máximo histórico, com um preço médio de 2,17 euros por litro, depois de uma subida de 2,7 cêntimos numa semana.
O gasóleo chegou aos 2,29 euros por litro, depois de uma subida de 3,4 cêntimos, aproximando-se do máximo histórico de 2,38 euros registado em abril de 2026. Como o gasóleo é o combustível mais utilizado em França, a subida tem um impacto particularmente significativo sobre os condutores.
Os valores médios incluem os postos geridos pela TotalEnergies, onde continua em vigor um limite de 1,99 euros por litro para a gasolina e de 2,25 euros para o gasóleo, o que significa que alguns postos apresentam preços consideravelmente superiores.
Os valores oficiais têm, contudo, um desfasamento temporal, uma vez que são calculados com base em informação da semana anterior. Os preços acompanhados em tempo real pelo Carbu.com apontavam para uma ligeira descida do preço da gasolina no início desta semana, mas não existe garantia de que essa tendência se mantenha ou de que os preços estabilizem nas próximas semanas.
Preços podem continuar sob pressão
A possibilidade de a gasolina chegar aos três euros por litro nas próximas semanas foi considerada irrealista por Philippe Casbas, presidente da Ufip Énergies et Mobilités. Ainda assim, o responsável admitiu que, se as tensões no Médio Oriente continuarem e os abastecimentos forem sujeitos a uma pressão adicional, os condutores poderão vir a enfrentar preços dessa ordem.
A subida dos preços ocorre apesar de os franceses estarem a reduzir a utilização dos automóveis. Muitos condutores passaram a evitar deslocações não essenciais ou a recorrer à partilha de viaturas para diminuir os custos.
O consumo de combustível caiu 6,6% em agosto, com uma redução de 9,2% no caso do gasóleo e de 2% na gasolina. A diminuição das deslocações poderia representar uma poupança para as famílias, sobretudo num contexto em que cerca de um quinto dos agregados familiares franceses gasta, num mês, o equivalente a um mês do rendimento anual em combustível.
No entanto, a redução do volume de vendas pode não se traduzir numa diminuição efetiva da despesa. Os postos podem compensar a quebra nas vendas através do aumento dos preços praticados por litro.
Ao mesmo tempo, alguns condutores estão a procurar alternativas fora de França, deslocando-se a países vizinhos como Itália, Espanha e Luxemburgo para abastecerem os veículos.
A diferença é particularmente expressiva em Andorra. O preço médio do gasóleo situa-se nos 1,66 euros por litro e o do SP95 nos 1,63 euros, valores suficientemente baixos para levar alguns franceses a percorrer até 250 quilómetros para abastecer.
A diferença de preços está relacionada com a fiscalidade. Os impostos governamentais sobre os combustíveis em Andorra representam cerca de 4,5%, enquanto em França mais de metade do preço total pago pelos consumidores corresponde a impostos.
Um em cada dez postos está sem pelo menos um combustível
A pressão sobre os preços é acompanhada por sinais de escassez. Uma atualização das 9h00 de 15 de setembro no portal governamental prix-carburant indicava que 10% dos postos de abastecimento franceses estavam sem pelo menos um tipo de combustível.
A situação era ainda mais significativa em algumas regiões. No Pays de la Loire, a percentagem chegava aos 13%, enquanto na região de Grand Est atingia 14%.
Apesar da dimensão do problema, os números representavam uma ligeira melhoria face aos dias anteriores. No fim de semana passado, 11% dos postos registavam falta de pelo menos um combustível em todo o país, enquanto no inicio desta semana a percentagem tinha chegado aos 12%.
Muitas das situações de falta de combustível verificavam-se em postos da TotalEnergies, que foram particularmente procurados por condutores interessados nos preços mais baixos praticados pela empresa.
A pressão sobre a oferta surge, assim, num momento em que o consumo está a diminuir, o que evidencia a influência de outros fatores sobre o mercado.
Tensões no Médio Oriente pressionam abastecimentos
A evolução dos preços está relacionada com a pressão sobre o abastecimento mundial de combustíveis provocada pelas tensões no Médio Oriente e pelo bloqueio do estreito de Ormuz, uma importante via marítima utilizada para o transporte de até um quinto das reservas de petróleo bruto e gás natural.
Com a disponibilidade de produtos limitada e os custos das matérias-primas a aumentar, a pressão acaba por ser transferida para os consumidores.
A situação é particularmente relevante para o gasóleo, uma vez que França importa a maioria deste combustível e dispõe de uma capacidade de refinação doméstica relativamente reduzida. Essa dependência esteve na origem de uma subida acentuada dos preços do gasóleo no início do ano, numa altura em que os preços da gasolina permaneciam mais estáveis.
No caso da gasolina, França consegue refinar uma parte significativa do combustível consumido internamente nas suas próprias refinarias. Ainda assim, a subida do preço do petróleo bruto e a incerteza nos mercados continuam a exercer pressão sobre os preços.
Pescadores bloqueiam depósitos petrolíferos
A crise dos combustíveis está também a alimentar protestos no setor da pesca. Ontem, pescadores bloquearam durante várias horas um depósito petrolífero em Fos-sur-Mer, em Bouches-du-Rhône, antes de uma intervenção das forças de segurança que permitiu levantar o bloqueio.
No dia seguinte, 16 de setembro, uma nova mobilização teve como alvo o depósito petrolífero de Frontignan, no departamento de Hérault. Cerca de uma centena de pescadores participou no bloqueio, que acabou por ser levantado sem confrontos após a intervenção das Companhias Republicanas de Segurança (CRS).
Por volta das 9h30, várias colunas de CRS chegaram ao local com os escudos levantados perante os manifestantes. Os pescadores acabaram por dispersar, depois de terem interpelado os agentes. Um dos manifestantes dirigiu-se aos polícias e afirmou: “vocês também estão envolvidos! Não se esqueçam de que também vão à bomba! Nós estamos a morrer à fome”.
A mobilização ocorre no terceiro dia de protestos destinados a pressionar o Governo francês devido à subida do preço dos combustíveis e à deterioração das condições de trabalho no setor.
Pescadores exigem reunião com a ministra
Uma delegação de representantes dos pescadores deslocou-se entretanto a Sète para uma reunião com a região da Occitânia, autoridade responsável pela tutela do porto de Sète.
Ange Natoli, representante dos pescadores, explicou à AFP que o objetivo era manter o movimento até que os profissionais fossem recebidos pela ministra da Pesca, Catherine Chabaud. Segundo os pescadores, estava prevista uma reunião com a ministra para quinta-feira, 17 de setembro, no final da manhã.
“Estamos sempre com as mesmas reivindicações”, afirmou também Christine Poncharreau, representante do Comité Paca dos pescadores, apontando como exigências o pagamento rápido dos apoios e o alívio das regras West Med, que restringem a pesca de arrasto no Mediterrâneo.
Os pescadores pretendem utilizar a reunião para avaliar os próximos passos do movimento. O objetivo, segundo Ange Natoli, é “mostrar que não baixamos a pressão” e, depois do que for dito no encontro, decidir a continuação da mobilização.
Protestos alastram pela costa mediterrânica
O bloqueio de Frontignan ocorreu depois de outras ações realizadas nos dias anteriores.
Na passada segunda-feira, pescadores bloquearam durante várias horas o depósito petrolífero de Fos-sur-Mer, também no sul de França. As forças de segurança acabaram por intervir para levantar o bloqueio.
Durante esse protesto foram colocadas faixas com mensagens como “A Europa mata-nos” e “A União Europeia afunda os nossos barcos e Paris olha para nós”.
Em Sète, no Hérault, pescadores impediram também, esta terça-feira, a partida de um navio da Corsica Ferries.
O movimento conjunto foi lançado na segunda-feira pelos comités regionais das pescas da Occitânia, de Paca e da Córsega, pelas três organizações de produtores da região mediterrânica e pelos sindicatos de trabalhadores marítimos, tanto representantes dos trabalhadores como das entidades patronais.
Os profissionais denunciam uma “degradação contínua das suas condições de atividade”, associada ao aumento dos custos de exploração e do preço do combustível, mas também ao que descrevem como uma multiplicação das exigências administrativas e regulamentares.
Governo mantém recusa de novos apoios aos combustíveis
O setor da pesca é um dos que continuam abrangidos pelos pacotes de apoio governamental relacionados com os preços dos combustíveis, juntamente com a agricultura e a construção. O setor da logística, por sua vez, está a ser retirado do regime.
Apesar da pressão exercida pelos profissionais, o Governo francês mantém a posição de que não irá avançar com novos mecanismos de apoio através de limites aos preços dos combustíveis ou de reduções dos impostos aplicados à gasolina e ao gasóleo.
Ao mesmo tempo, foi prolongado até ao final de setembro o apoio de 100 euros destinado aos combustíveis.
A crise ocorre, assim, num cenário marcado simultaneamente por preços elevados, redução do consumo, dificuldades de abastecimento em parte dos postos e protestos de setores particularmente expostos ao custo dos combustíveis.
A mobilização dos pescadores mantém-se centrada na exigência de medidas para fazer face ao aumento dos custos de exploração, ao preço do combustível, às restrições aplicadas à atividade e ao pagamento dos apoios prometidos. A reunião prevista com a ministra da Pesca deverá ser determinante para a decisão sobre a continuação dos protestos.











