O número de casos de legionela em Portugal atingiu em 2024 o valor mais elevado da última década. Segundo o ‘Diário de Notícias’, foram notificadas 489 situações da doença dos legionários, de acordo com o relatório anual da Entidade Reguladora do Setor das Águas e dos Resíduos (Ersar). O total só encontra paralelo em 2014, ano do surto de Vila Franca de Xira, que infetou mais de 400 pessoas e provocou 12 mortes.
A Direção-Geral da Saúde (DGS) explica a tendência ascendente com o “aumento do alerta clínico”, a “melhoria na adesão à notificação” e a “completude do sistema”. Entre 21 de setembro e 21 de outubro deste ano, foram notificados 36 casos em todo o país.
De acordo com o mesmo relatório, o crescimento do número de ocorrências está associado não apenas ao reforço da vigilância epidemiológica, mas também ao aumento de infraestruturas que utilizam água e geram aerossóis, à maior exposição da população e ao envelhecimento, fatores agravados pelas alterações climáticas. Entre 2015 e 2024, a DGS registou 2.665 casos confirmados de doença dos legionários, sendo 355 em 2023 e 489 no último ano.
2014 continua a ser o ano mais mortal
O surto de 2014 em Vila Franca de Xira permanece o mais grave alguma vez registado em Portugal, com 403 infetados e 12 vítimas mortais. Algumas das pessoas afetadas chegaram a acordo com as empresas alegadamente responsáveis, a Adubos de Portugal e a General Electric, evitando o julgamento. No entanto, cerca de 330 vítimas continuam sem indemnização ou apoio estatal, segundo a Associação de Apoio às Vítimas da Legionela, criada após o episódio.
A DGS sublinha que, entre 2015 e 2024, 8,3% dos casos notificados tiveram como desfecho a morte, percentagem considerada dentro dos valores observados a nível internacional.
Médicos avisam que há instituições sem planos de controlo
O aumento de notificações preocupa os profissionais de saúde pública. Em declarações ao ‘Diário de Notícias’, Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), recorda que a atualização do decreto-lei de 2023 já previa a pesquisa obrigatória de legionela em locais prioritários, como hospitais e escolas. No entanto, admite que “nem todas as instituições públicas implementaram os planos de prevenção e controlo previstos na portaria”.
O especialista alerta que a responsabilidade maior “recai em empresas e organismos públicos na manutenção dos equipamentos com potencial para provocar surtos”. Para Bernardo Gomes, o problema não está na falta de legislação, mas na sua aplicação: “A maioria das ações de mitigação já está publicada. O que falta, em muitos casos, é a implementação efetiva”.
Prudência e vigilância
O presidente da ANMSP defende que é preciso cautela na leitura dos números. A subida pode refletir uma melhor capacidade de diagnóstico e vigilância, mas também o envelhecimento das infraestruturas e a falta de manutenção. Por agora, não há dados que confirmem um aumento da mortalidade. Segundo o ‘Surveillance Atlas of Infectious Diseases’ do ECDC, a taxa de mortalidade proporcional por legionela em Portugal foi de 10,79% em 2024.
A legionela transmite-se por via aérea, através da inalação de gotículas de água contaminadas, e não pela ingestão. As autoridades recomendam a higienização regular de depósitos, termoacumuladores e chuveiros, bem como a desinfeção de sistemas de água não controlada. A bactéria vive naturalmente em ambientes aquáticos, podendo contaminar fontanários, sistemas de refrigeração ou redes prediais.














