Beber água reutilizada? Com escassez e seca, cada vez mais é esta a alternativa

A reutilização da água requer tratamentos específicos, como osmose e desinfeção por radiação ultravioleta, o que torna o processo complexo e variável dependendo do uso final.

Pedro Zagacho Gonçalves

As restrições enfrentadas em algumas regiões da Espanha, especialmente Catalunha e Andaluzia, têm levantado questões sobre o abastecimento hídrico. Enquanto soluções como transporte marítimo e construção de plantas dessalinizadoras são consideradas, autoridades e especialistas estão cada vez mais a voltar sua atenção para a reciclagem, regeneração e reutilização das águas. No entanto, há desafios técnicos e sociais a serem superados.

Com episódios de ondas de calor, secas extremas e aumento de temperaturas decorrentes das alterações climáticas, efeitos também sentidos em Portugal, a reciclagem de água cada vez mais se afigura como a alternativa a um futuro sem água.

Apenas uma pequena fração dos 4.000 hectômetros cúbicos (Hm³) de água consumidos anualmente na Espanha é atualmente reciclada, com menos de 10% dessa quantidade a ser regenerada, assinala o El Confidencial. Isso é problemático, especialmente num país cada vez mais seco, onde as regiões do Júcar e Segura lideram em termos de reciclagem, enquanto outras, como as bacias do Douro e do Minho, têm regeneração insignificante ou inexistente.

Além dos desafios de infraestrutura, há problemas significativos com a depuração inadequada das águas residuais, especialmente em municípios pequenos e costeiros. No entanto, o Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico está a procurar soluções para melhorar o tratamento das águas e promover o seu reaproveitamento.

A reutilização da água requer tratamentos específicos, como osmose e desinfeção por radiação ultravioleta, o que torna o processo complexo e variável dependendo do uso final. Embora muitas vezes destinada à agricultura e outros usos industriais, a possibilidade de tratamento terciário para torná-la potável é considerada.

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Apesar das vantagens ambientais da reutilização da água, como a redução da pressão sobre os recursos hídricos naturais, há preocupações com os custos energéticos e os impactos ecológicos do desvio de água depurada dos rios, que podem afetar os ecossistemas.

No entanto, o principal desafio para o desenvolvimento de sistemas de reutilização da água é a aceitação pública.

Um estudo do Centro Interdisciplinar de Investigação em Tecnologias Ambientais (Cretus) da Universidade de Santiago de Compostela veio apurar que, embora haja apoio para alguns usos, como irrigação de áreas verdes, a aceitação para usos diretos, como consumo humano, ainda é baixa devido à perceção de riscos para a saúde e ao desconhecimento sobre os processos de tratamento.

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Se para limpar as ruas, disparar autoclismos, regar parques e zonas verdes, a água reciclada é vista com bons níveis de aceitação pelos inquiridos, para outras atividades como lavar roupas, regar vegetais, tomar banho ou beber já faz levantar o sobrolho.

“A maioria das pessoas entende o conceito, mas não está claro para elas em que consiste o tratamento da água , há muito desconhecimento”, denuncia Sergio Vila Tojo, autor do trabalho. A verdade é que, vistas bem as coisas, na natureza toda a água é reciclada.

“Se a única solução fosse a água reciclada, seria mais aceite, mas a verdade é que ainda existem outras opções”, explica o investigador, que critica a “falsa crença de que a água da torneira não é de qualidade”, e que leva a um aumento do consumo de água engarrafada.

Apesar das barreiras atuais, especialistas acreditam que a aceitação da reutilização da água aumentará com o tempo, à medida que as alternativas se tornarem mais conhecidas e a pressão sobre os recursos hídricos aumentar. Exemplos bem-sucedidos em outros países, como Namíbia e Singapura, mostram que a reutilização da água pode se tornar uma parte importante da estratégia de gestão hídrica no futuro da Espanha.

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