Berlim poderá perder um dos últimos vestígios arquitetónicos do antigo centro de poder de Adolf Hitler. Um promotor imobiliário pretende construir um edifício de apartamentos e escritórios sobre o chamado Grande Bunker da Nova Chancelaria do Reich, um projeto que está a gerar forte contestação entre historiadores e especialistas em património, indicou o ‘El País’.
O complexo subterrâneo, localizado na Vossstrasse, junto ao Memorial do Holocausto e perto do Portão de Brandemburgo, é um dos raros vestígios físicos que sobreviveram ao antigo bairro governamental do regime nazi. Após a II Guerra Mundial, praticamente todos os edifícios associados a Hitler foram demolidos.
Segundo o projeto urbanístico aprovado em 2006, o terreno deverá receber um edifício de escritórios com seis pisos e um bloco habitacional de sete andares, com 66 apartamentos. Para isso, será necessário demolir o bunker, apesar de especialistas defenderem a sua preservação.
A associação Berliner Unterwelten, dedicada ao estudo e preservação das estruturas subterrâneas da capital alemã, considera que o local possui um enorme valor histórico. O seu responsável pela investigação, Reiner Janick, recorda que foi na Nova Chancelaria do Reich que “a II Guerra Mundial foi planeada e iniciada” e que o complexo representa igualmente “o fim catastrófico do regime nazi”.
Segundo a associação, o Conselho Regional do Património Cultural recomendou, no ano passado, a classificação do bunker como monumento histórico. No entanto, o Senado de Berlim rejeitou essa possibilidade.
As autoridades justificam a decisão com a necessidade de construir habitação numa das zonas mais valorizadas da cidade e com o receio de transformar o local num ponto de encontro de grupos neonazis.
Para Janick, esse argumento não faz sentido. O investigador defende que preservar o bunker serviria precisamente para documentar a história e não para glorificar o passado nazi. “Quando um lugar deixa de existir, surgem mitos e lendas”, afirma, citado pelo ‘El País’.
Segundo a associação, seria até possível construir o novo edifício sem destruir a estrutura subterrânea. O bunker conserva cerca de 1.200 metros quadrados e, devido à robustez da sua construção, conseguiria suportar o peso do futuro empreendimento.
Os especialistas lembram ainda que restam apenas três bunkers governamentais do antigo Reich em Berlim. Este é o único bunker pré-guerra ainda acessível no antigo distrito governamental nazi.
Construído no final da década de 1930, o bunker fazia parte da monumental Nova Chancelaria do Reich, projetada pelo arquiteto Albert Speer a pedido de Hitler. Situado cerca de seis metros abaixo da superfície, possuía paredes e tetos com 1,70 metros de espessura e estava ligado a outras galerias subterrâneas que serviam o complexo governamental.
O famoso Führerbunker, onde Hitler e Eva Braun cometeram suicídio em abril de 1945, já não existe. No local onde se encontrava existe atualmente um parque de estacionamento, assinalado apenas por um painel informativo.
Agora, a cidade volta a enfrentar uma questão delicada que acompanha a Alemanha desde o fim da II Guerra Mundial: preservar os vestígios materiais do regime nazi para manter viva a memória histórica ou eliminá-los definitivamente, mesmo que isso signifique perder parte desse património.














