Memória ou habitação de luxo? Berlim divide-se sobre demolição de um dos últimos bunkers do regime nazi

Complexo subterrâneo, localizado na Vossstrasse, junto ao Memorial do Holocausto e perto do Portão de Brandemburgo, é um dos raros vestígios físicos que sobreviveram ao antigo bairro governamental do regime nazi

Francisco Laranjeira

Berlim poderá perder um dos últimos vestígios arquitetónicos do antigo centro de poder de Adolf Hitler. Um promotor imobiliário pretende construir um edifício de apartamentos e escritórios sobre o chamado Grande Bunker da Nova Chancelaria do Reich, um projeto que está a gerar forte contestação entre historiadores e especialistas em património, indicou o ‘El País’.

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O complexo subterrâneo, localizado na Vossstrasse, junto ao Memorial do Holocausto e perto do Portão de Brandemburgo, é um dos raros vestígios físicos que sobreviveram ao antigo bairro governamental do regime nazi. Após a II Guerra Mundial, praticamente todos os edifícios associados a Hitler foram demolidos.

Segundo o projeto urbanístico aprovado em 2006, o terreno deverá receber um edifício de escritórios com seis pisos e um bloco habitacional de sete andares, com 66 apartamentos. Para isso, será necessário demolir o bunker, apesar de especialistas defenderem a sua preservação.

A associação Berliner Unterwelten, dedicada ao estudo e preservação das estruturas subterrâneas da capital alemã, considera que o local possui um enorme valor histórico. O seu responsável pela investigação, Reiner Janick, recorda que foi na Nova Chancelaria do Reich que “a II Guerra Mundial foi planeada e iniciada” e que o complexo representa igualmente “o fim catastrófico do regime nazi”.

Segundo a associação, o Conselho Regional do Património Cultural recomendou, no ano passado, a classificação do bunker como monumento histórico. No entanto, o Senado de Berlim rejeitou essa possibilidade.

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As autoridades justificam a decisão com a necessidade de construir habitação numa das zonas mais valorizadas da cidade e com o receio de transformar o local num ponto de encontro de grupos neonazis.

Para Janick, esse argumento não faz sentido. O investigador defende que preservar o bunker serviria precisamente para documentar a história e não para glorificar o passado nazi. “Quando um lugar deixa de existir, surgem mitos e lendas”, afirma, citado pelo ‘El País’.

Segundo a associação, seria até possível construir o novo edifício sem destruir a estrutura subterrânea. O bunker conserva cerca de 1.200 metros quadrados e, devido à robustez da sua construção, conseguiria suportar o peso do futuro empreendimento.

Os especialistas lembram ainda que restam apenas três bunkers governamentais do antigo Reich em Berlim. Este é o único bunker pré-guerra ainda acessível no antigo distrito governamental nazi.

Construído no final da década de 1930, o bunker fazia parte da monumental Nova Chancelaria do Reich, projetada pelo arquiteto Albert Speer a pedido de Hitler. Situado cerca de seis metros abaixo da superfície, possuía paredes e tetos com 1,70 metros de espessura e estava ligado a outras galerias subterrâneas que serviam o complexo governamental.

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O famoso Führerbunker, onde Hitler e Eva Braun cometeram suicídio em abril de 1945, já não existe. No local onde se encontrava existe atualmente um parque de estacionamento, assinalado apenas por um painel informativo.

Agora, a cidade volta a enfrentar uma questão delicada que acompanha a Alemanha desde o fim da II Guerra Mundial: preservar os vestígios materiais do regime nazi para manter viva a memória histórica ou eliminá-los definitivamente, mesmo que isso signifique perder parte desse património.

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