A próxima crise já começou

Opinião de Pedro Moura, Responsável pela IndraMind em Portugal (Indra Group)

Pedro MouraPedro MouraResponsável pela IndraMind em Portugal (Indra Group)
Pedro Moura
Pedro MouraResponsável pela IndraMind em Portugal (Indra Group)Setembro 17, 2026 12:50

 

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Por Pedro Moura, Responsável pela IndraMind em Portugal (Indra Group)

Quando ocorre um incêndio de grande dimensão, uma inundação, uma interrupção no fornecimento de energia, uma falha de comunicações ou um ataque cibernético, a atenção concentra-se inevitavelmente na resposta. Quantos meios foram mobilizados? Quanto tempo demorou a reposição do serviço? Que impacto operacional foi gerado? Como recuperar o mais rapidamente possível?

São perguntas legítimas, mas chegam demasiado tarde.

Na maioria dos casos, os sinais estavam presentes muito antes da ocorrência. Encontravam-se dispersos em sensores, relatórios operacionais, sistemas de monitorização, previsões meteorológicas, históricos de manutenção, alertas de segurança ou pequenos desvios considerados irrelevantes. O problema não é a falta de informação. É a fragmentação: a incapacidade de a transformar, com antecedência, em conhecimento útil para antecipar o que poderá acontecer a seguir.

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Durante décadas, as organizações investiram na capacidade de resposta. Construíram centros de operação, criaram planos de contingência, reforçaram equipas de emergência e adotaram sistemas de monitorização cada vez mais sofisticados. Tudo isto continua a ser fundamental. Porém, num contexto de interdependência crescente, responder bem já não é suficiente. A verdadeira vantagem começa antes: na capacidade de antecipar, preparar e, sempre que possível, evitar.

As infraestruturas críticas modernas produzem mais informação do que nunca, mas essa abundância nem sempre se traduz em maior capacidade de antecipação. A informação permanece dispersa entre equipas, sistemas, departamentos e entidades diferentes. Cada área conhece uma parte da realidade; poucas conseguem construir uma consciência situacional única do todo. Os sinais, os dados e os alertas existem. O que falta é correlacioná-los, entre domínios e ao longo do tempo, com a velocidade, o contexto e o propósito necessários para desencadear uma ação preventiva eficaz.

Uma falha de comunicações pode ser tratada como um incidente técnico. Uma anomalia energética pode parecer uma ocorrência operacional isolada. Um aumento inesperado de temperatura pode gerar apenas um alerta de manutenção. Individualmente, nenhum destes acontecimentos parece justificar preocupação elevada. Observados em conjunto, podem significar algo muito diferente: uma interrupção operacional iminente, a degradação acelerada de um ativo crítico, uma ameaça híbrida ou o início de uma falha sistémica. E o mesmo sinal muda de significado com o contexto: um acesso autorizado a uma subestação é rotina durante uma manutenção programada e um indício de risco quando ocorre fora do plano previsto ou coincide com uma anomalia nas comunicações.

É aqui que se distingue a monitorização da antecipação. Monitorizar permite saber que algo aconteceu. Antecipar exige reconhecer padrões, compreender dependências e projetar consequências antes de estas se tornarem evidentes. E exige fazê-lo de forma contínua: as ameaças e as vulnerabilidades não têm horário, e uma capacidade de antecipação que só é ativada em momentos de alerta chega, quase sempre, tarde.

Quando falamos de resiliência, o recurso mais escasso não é apenas dinheiro, tecnologia ou capacidade operacional. É tempo. Uma organização que identifica um risco minutos antes do impacto tem poucas opções. Uma organização que o identifica dias antes pode proteger ativos, reforçar comunicações, ativar mecanismos de contingência e reposicionar recursos.

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A diferença entre uma ocorrência controlada e uma crise de grande impacto pode residir exclusivamente nessa antecedência.

É neste contexto que a capacidade de transformar informação dispersa em conhecimento acionável assume uma importância decisiva. Tradicionalmente, a superioridade era medida pela robustez dos ativos, pela dimensão das equipas ou pela capacidade de mobilização. Hoje começa também a ser medida pela superioridade cognitiva: a capacidade de reconhecer padrões, identificar relações invisíveis entre eventos aparentemente independentes e compreender consequências antes de estas se materializarem.

As infraestruturas críticas do futuro serão apoiadas por sistemas capazes de integrar diferentes fontes de informação, contextualizar sinais, apoiar decisões e ajudar a identificar riscos emergentes. Em ativos desta natureza, estes sistemas terão de ser soberanos, com os dados sob controlo de quem opera a infraestrutura, e a inteligência que os interpreta terá de ser explicável e auditável, para que cada recomendação possa ser compreendida e justificada por quem decide.

O objetivo não é eliminar a incerteza nem prometer previsões infalíveis. É detetar mais cedo, compreender melhor e colocar mais opções sobre a mesa de quem decide. A decisão continua a ser humana; o que muda é a qualidade e a antecedência da informação que a sustenta.

Energia, água, transportes, aeroportos, telecomunicações e proteção civil integram hoje um ecossistema profundamente conectado onde uma falha localizada pode produzir efeitos em cadeia. Um evento climático extremo pode afetar ativos físicos, comunicações, mobilidade, equipas e capacidade de coordenação. Um incidente digital pode ter consequências físicas, e uma ameaça deliberada pode esconder-se atrás do que parece uma simples avaria: o físico, o digital e o operacional convergem em tempo real.

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Por isso, a resiliência de uma infraestrutura já não pode ser avaliada apenas pelo estado dos seus próprios ativos. Tem de considerar a rede de dependências na qual opera, os serviços que suporta e as entidades com as quais terá de coordenar uma resposta.

A próxima crise não começa quando uma operação é interrompida, quando um incêndio se torna incontrolável ou quando um serviço essencial fica indisponível. Começa antes, na acumulação de sinais fracos, dependências não compreendidas, vulnerabilidades conhecidas e alertas que permanecem isolados.

As organizações mais resilientes não serão apenas as que mobilizam mais meios ou recuperam mais depressa. Serão as que conseguem reconhecer primeiro aquilo que ainda não é evidente, criar tempo para decidir e atuar antes de o impacto se tornar inevitável.

A próxima geração de resiliência não será construída apenas em torno da resposta. Será construída em torno da antecipação.

Porque a próxima crise já começou. A diferença estará na capacidade de a reconhecer a tempo.

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