Já pararam uma guerra, foram usados por Colombo e deram razão a Einstein: os eclipses que mudaram a História

Os eclipses foram presságios, instrumentos de poder e acontecimentos capazes de influenciar decisões políticas e militares. Depois tornaram-se laboratórios naturais que permitiram aos cientistas estudar o Universo de formas que seriam impossíveis num dia normal

Francisco Laranjeira

Durante milhares de anos, bastava o Sol desaparecer a meio do dia para exércitos pousarem as armas, governantes temerem pela própria sobrevivência e populações procurarem explicações nos deuses. Séculos mais tarde, Cristóvão Colombo usaria o conhecimento de um eclipse para pressionar povos indígenas na Jamaica. E, em 1919, outro eclipse ajudaria a transformar Albert Einstein num dos cientistas mais famosos da História.

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Hoje é possível prever um eclipse com enorme precisão. Sabemos quando começa, quanto tempo dura, qual será a percentagem do Sol ocultada e até a estreita faixa da Terra onde a noite cairá durante alguns segundos em pleno dia.

Mas durante grande parte da história humana não era assim.

Os eclipses foram presságios, instrumentos de poder e acontecimentos capazes de influenciar decisões políticas e militares. Depois tornaram-se laboratórios naturais que permitiram aos cientistas estudar o Universo de formas que seriam impossíveis num dia normal.

Da guerra entre lídios e medos, há mais de 2500 anos, às fotografias tiradas em 1919 que ajudaram a confirmar uma das previsões da relatividade geral, há eclipses que ficaram ligados a momentos decisivos da História.

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O dia tornou-se noite e os soldados pousaram as armas

Uma das histórias mais famosas remonta ao século VI a.C.

Lídios e medos travavam uma guerra na Anatólia, território que corresponde em grande parte à atual Turquia. Segundo o historiador grego Heródoto, o conflito prolongava-se havia anos sem que nenhum dos lados conseguisse impor uma vitória definitiva.

Até que, durante uma batalha, o dia subitamente se transformou em noite.

O fenómeno é tradicionalmente associado ao eclipse solar de 28 de maio de 585 a.C.

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Perante o desaparecimento do Sol, os dois exércitos terão interpretado aquilo que viam como um sinal divino. A batalha foi interrompida e as partes procuraram chegar a um acordo de paz.

O chamado eclipse de Tales tornou-se particularmente famoso porque Heródoto escreveu que Tales de Mileto tinha previsto o fenómeno.

A afirmação continua a ser discutida pelos historiadores. Não sabemos exatamente o que Tales conseguiu prever e é difícil determinar se dispunha, naquela época, dos conhecimentos necessários para antecipar com precisão aquele eclipse.

O que permaneceu foi a história extraordinária de um acontecimento astronómico que terá conseguido aquilo que anos de combate não tinham alcançado: fazer dois exércitos parar.

Quando os eclipses eram mensagens dos deuses

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O medo não era exclusivo do mundo grego.

Muito antes de ser compreendido o alinhamento entre Sol, Lua e Terra que produz os eclipses, várias civilizações tentavam interpretar o súbito desaparecimento dos astros através das suas próprias crenças.

Um eclipse podia significar que algo estava errado na relação entre os homens e os deuses. E, quando o destino de uma sociedade estava associado ao destino do seu governante, o fenómeno podia transformar-se numa ameaça política.

Da China antiga à Mesopotâmia, existem registos de observações de eclipses realizadas muitos séculos antes da astronomia moderna.

O que começou como necessidade de interpretar aquilo que parecia sobrenatural acabou também por incentivar a observação sistemática do céu.

Os astrónomos babilónicos, em particular, reconheceram padrões na repetição dos eclipses e desenvolveram formas cada vez mais sofisticadas de antecipar estes acontecimentos.

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O céu começava lentamente a deixar de ser imprevisível.

Colombo sabia o que ia acontecer à Lua. Os indígenas não sabiam que ele sabia

Séculos mais tarde, o conhecimento astronómico poderia tornar-se uma arma.

Em 1503, durante a sua quarta viagem às Américas, Cristóvão Colombo ficou retido na Jamaica depois de os seus navios terem sofrido graves problemas.

A tripulação dependia dos habitantes locais para obter alimentos.

Com o passar dos meses, porém, as relações deterioraram-se e o abastecimento começou a diminuir.

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Colombo tinha uma vantagem: possuía tabelas astronómicas.

Através delas sabia que, na noite de 29 de fevereiro para 1 de março de 1504, ocorreria um eclipse total da Lua.

Decidiu usar essa informação.

Segundo o relato posteriormente escrito pelo seu filho Fernando Colombo, o navegador convocou líderes indígenas e avisou-os de que o seu Deus estava zangado porque tinham deixado de fornecer comida aos europeus.

Como demonstração dessa ira, afirmou que Deus faria a Lua mudar de aparência.

E a Lua mudou. O eclipse começou como previsto.

À medida que a Lua entrou na sombra da Terra, foi escurecendo até adquirir a tonalidade avermelhada característica de um eclipse lunar total.

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De acordo com o relato de Fernando Colombo preservado nas referências históricas compiladas pela NASA, a população ficou assustada e procurou os europeus levando provisões e prometendo voltar a abastecê-los.

Colombo esperou até o eclipse estar avançado antes de anunciar que Deus os perdoaria e devolveria a Lua ao seu estado habitual.

Naturalmente, sabia pelas tabelas aproximadamente quando isso aconteceria.

A Lua reapareceu.

E Colombo conseguiu os mantimentos de que precisava.

O episódio tornou-se um dos exemplos históricos mais famosos da enorme vantagem que o conhecimento científico pode proporcionar quando apenas uma das partes sabe aquilo que vai acontecer.

De ameaça sobrenatural a instrumento científico

A grande transformação ocorreria nos séculos seguintes.

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Quanto melhor os astrónomos conseguiam prever os movimentos dos astros, menos os eclipses pertenciam ao domínio dos presságios.

Passaram a ser oportunidades científicas.

Durante um eclipse solar total acontece algo extraordinariamente útil: a Lua bloqueia a superfície intensamente luminosa do Sol e permite observar estruturas que normalmente ficam escondidas pelo seu brilho.

Foi durante eclipses que se fizeram algumas descobertas importantes sobre o Sol.

No século XIX, por exemplo, observações espectroscópicas durante um eclipse contribuíram para a identificação de um elemento até então desconhecido na Terra.

Recebeu um nome inspirado precisamente no Sol: hélio, derivado de Helios.

Mas o eclipse que viria a tornar-se provavelmente o mais famoso da história da ciência aconteceu em 1919.

E no centro da história estava Albert Einstein.

Einstein tinha uma teoria extraordinária. Faltava vê-la funcionar

Einstein apresentou a teoria da relatividade geral em 1915.

Uma das suas previsões era revolucionária: a gravidade não deveria ser entendida simplesmente como uma força entre objetos. A massa deforma o espaço-tempo e até a trajetória da luz é afetada quando passa perto de um objeto muito massivo.

O Sol fornecia um teste perfeito.

Se Einstein estivesse certo, a luz proveniente de estrelas distantes deveria sofrer uma pequena deflexão ao passar junto do Sol.

Havia, contudo, um problema bastante óbvio.

Durante o dia, o brilho solar impede normalmente que essas estrelas sejam fotografadas.

Era preciso apagar o Sol.

A Lua faria o trabalho.

29 de maio de 1919: o eclipse que tornou Einstein mundialmente famoso

O eclipse solar total de 29 de maio de 1919 ofereceu uma oportunidade excecional para testar a previsão.

Foram organizadas duas expedições britânicas: uma para Sobral, no Brasil, e outra para a ilha do Príncipe, no golfo da Guiné.

Arthur Eddington participou nas observações realizadas no Príncipe, enquanto outra equipa recolheu dados em Sobral.

Durante os minutos de totalidade, os astrónomos fotografaram estrelas que se encontravam aparentemente próximas do Sol.

Depois compararam as posições registadas durante o eclipse com as posições habituais dessas mesmas estrelas.

A pergunta era simples de formular e extraordinariamente difícil de medir: a gravidade do Sol tinha desviado a luz?

Os resultados foram anunciados meses depois.

As posições aparentes das estrelas tinham sofrido uma deslocação compatível com a previsão da relatividade geral.

As observações de 1919 tornaram-se um dos primeiros grandes testes experimentais da teoria de Einstein.

Um eclipse transformou Einstein numa celebridade

A importância foi muito além da astronomia.

A Royal Society recorda que o eclipse ofereceu condições particularmente favoráveis para testar a teoria, permitindo medir a deflexão angular da luz das estrelas junto ao Sol e comparar o resultado com as previsões disponíveis.

As expedições ao Príncipe e a Sobral obtiveram fotografias que mostravam a alteração aparente da posição das estrelas.

Quando os resultados foram apresentados em Londres, em novembro de 1919, a notícia correu mundo.

Einstein, então com 40 anos, tornou-se praticamente de um momento para o outro uma celebridade internacional. A ESA descreve aquele eclipse como provavelmente o mais importante da história da ciência.

E havia ainda um poderoso simbolismo.

A Primeira Guerra Mundial terminara apenas meses antes. Cientistas britânicos tinham realizado uma experiência para testar a teoria desenvolvida por um físico que trabalhava na Alemanha.

Depois de uma guerra que dividira a Europa, o eclipse tornou-se também um exemplo da capacidade da ciência para atravessar fronteiras.

Primeiro temidos, depois estudados

A História dos eclipses acaba, assim, por contar também uma parte da história da própria humanidade.

Durante milénios, o desaparecimento do Sol ou da Lua foi interpretado como uma intervenção sobrenatural.

Depois aprendemos a reconhecer padrões, a prever eclipses e, finalmente, a utilizá-los para descobrir coisas que não conseguíamos observar em circunstâncias normais.

A NASA destaca precisamente o papel destes fenómenos em grandes avanços científicos, incluindo as observações de 1919 que forneceram evidência para a relatividade geral.

Aquilo que fez soldados pousarem armas há mais de dois milénios tornou-se, muitos séculos depois, uma ferramenta para perceber que o espaço e o tempo não funcionavam exatamente como Newton imaginara.

E talvez seja essa transformação que explica por que razão os eclipses continuam a fascinar.

Hoje sabemos exatamente por que razão o céu escurece. Conseguimos prever o fenómeno com décadas ou séculos de antecedência. Já não precisamos de procurar mensagens dos deuses quando a Lua tapa o Sol.

Mas, durante alguns minutos, continuamos todos a fazer aquilo que os seres humanos fazem há milhares de anos quando chega um eclipse: parar o que estamos a fazer e olhar para o céu.

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