A cimeira europeia dos últimos dias, em Bruxelas fica marcada por mais promessas de apoio contínuo à Ucrânia, mas essa ajuda já pode estar a ser posta em causa, avisam responsáveis e diplomatas (sob anonimato), devido à pressão sobre os governos e autoridades europeia, gerada pelos protestos de agricultores dos últimos meses.
Estes acusam o mercado de estar inundado por produtos agrícolas ucranianos a preços mais baixos e têm vindo a protestar de forma intensa, desde bloqueios de fronteiras a ocupações de capitais, levando os líderes políticos europeus a repensar as suas posições.
A Comissão Europeia, sob a liderança da Presidente Ursula von der Leyen, que tinha a sustentabilidade e o livre comércio como pilares fundamentais da sua agenda, viu-se obrigada a recuar em algumas das suas propostas ambientais para aliviar a pressão sobre os agricultores.
O conselheiro político do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, Balázs Orbán, declarou em entrevista ao Politico que “se querem proteger a vossa própria indústria e agricultores, e salvar a face da Europa, têm de explicar que a Europa não está contra vocês, mas ao vosso lado”. Balázs Orbán sublinhou ainda que atualmente “não é o caso”.
Na semana passada, Bruxelas apresentou propostas que visavam reduziras exigências ambientais para os agricultores, argumentando que estes requisitos burocráticos os tornam incapazes de competir com as importações mais baratas. Esta semana, foi alcançado um acordo para impor restrições adicionais às importações de produtos agrícolas ucranianos, numa tentativa de equilibrar o apoio à economia ucraniana e as preocupações dos agricultores europeus.
Contudo, o acordo não foi suficiente para países como França, Polónia e Hungria, que ameaçam bloquear o acordo. O Ministro da Agricultura francês, Marc Fesneau, afirmou que “há um sinal de solidariedade, mas há um limite que tem de ser estabelecido”. Paris exige limites mais rigorosos para as importações de trigo ucraniano e outros produtos.
O influente grupo de lobby agrícola da UE, Copa-Cogeca, alertou que ignorar as preocupações dos agricultores hoje poderia comprometer a futura adesão da Ucrânia à UE.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, fez um apelo aos líderes europeus, sublinhando a importância de manter as medidas de comércio com a UE para a resistência à agressão russa. “Qualquer perda no comércio é uma perda de um recurso [para parar] a Rússia”, afirmou.
Embora os líderes europeus estejam determinados em confirmar o seu “apoio à Ucrânia enquanto for necessário”, há um sentimento de descrença, com um diplomata europeu a ironizar, ao Politico: “Talvez devessem adicionar àquela frase ‘a menos que os agricultores polacos e franceses estejam envolvidos'”, referindo-se às táticas de Tusk e Macron, que tentaram, à margem da cimeira, conquistar outros líderes para a sua posição, sedo que, para a semana, os responsáveis europeus voltam a discutir a extensão das importações ucranianas isentas de impostos (e das condições associadas).














