O medo de andar de avião afeta cerca de uma em cada seis pessoas, mas um novo estudo sugere que a ansiedade associada às viagens aéreas não corresponde ao risco real. Quando se compara a probabilidade de morte tendo em conta a mesma distância percorrida, viajar de carro ou de camião apresenta um risco 626 vezes superior ao de viajar num avião comercial.
A análise foi realizada por cientistas da Embry–Riddle Aeronautical University, que compararam o risco de mortalidade associado à aviação comercial com vários outros meios de transporte, atividades recreativas, perigos domésticos e riscos profissionais. Os resultados apontam para uma conclusão clara: a aviação comercial norte-americana apresenta um nível de segurança excecionalmente elevado.
Os investigadores analisaram o risco de morte associado à aviação comercial nos Estados Unidos entre 2016 e 2025 e colocaram os resultados em comparação com diferentes formas de transporte. Quando o avião comercial é usado como referência, com um risco relativo de 1, viajar de autocarro em autoestrada apresenta um risco nove vezes superior, enquanto o comboio surge com um risco 239 vezes maior.
A diferença torna-se ainda mais expressiva quando a comparação é feita com automóveis. O risco de morte associado a viajar de carro é 626 vezes superior ao da aviação comercial. Nos veículos motorizados em autoestrada, o valor sobe para 674 vezes. Andar de bicicleta apresenta um risco 11.998 vezes superior e viajar de motociclo chega às 22.279 vezes.
O avião apresenta um risco excecionalmente baixo
Os autores defendem que a aviação comercial é “excecionalmente segura” e sublinham que a perceção pública sobre a segurança dos transportes nem sempre corresponde aos dados objetivos. Segundo os investigadores, acontecimentos raros e de grande impacto emocional tendem a receber uma atenção mediática desproporcionada, o que pode criar a sensação persistente de que viajar de avião é particularmente perigoso.
Os acidentes envolvendo aviões comerciais são extremamente pouco frequentes, mas, quando acontecem, recebem uma cobertura mediática muito superior à de muitas outras situações que provocam lesões ou mortes com maior frequência. Os investigadores salientam precisamente este contraste, apontando que causas mais comuns de morte e ferimentos, incluindo situações relacionadas com transportes quotidianos, atividades recreativas e profissões, recebem comparativamente menos atenção.
A análise procurou, assim, perceber até que ponto o risco associado ao transporte aéreo é efetivamente reduzido quando comparado com atividades que fazem parte do quotidiano.
Os resultados mostram que, considerando a distância percorrida, a aviação comercial fica muito abaixo de todas as principais formas de transporte analisadas. Mesmo quando a comparação deixa de ser feita exclusivamente entre meios de transporte, o avião continua a apresentar um risco particularmente reduzido.
Motociclos e bicicletas estão muito acima do avião
Entre os meios de transporte analisados, o motociclo apresenta a maior diferença face à aviação comercial. O risco de morte é mais de 22 mil vezes superior ao de viajar num avião comercial. No caso da bicicleta, o risco é quase 12 mil vezes maior.
Também o automóvel apresenta uma diferença muito significativa. Com um risco 626 vezes superior ao da aviação comercial, é precisamente a utilização quotidiana do carro que contrasta de forma mais evidente com o receio que muitas pessoas sentem perante uma viagem de avião.
Os autocarros de autoestrada apresentam uma diferença muito menor, mas ainda assim o risco calculado é cerca de nove vezes superior ao da aviação comercial. No caso dos comboios, o estudo aponta para um risco 239 vezes superior.
A comparação foi feita com base no risco de mortalidade e não na perceção subjetiva de segurança de cada meio de transporte.
Atividades recreativas também podem ser mais perigosas
Os investigadores alargaram a análise para além dos transportes e verificaram que várias atividades recreativas apresentam um risco de morte superior ao de viajar num avião comercial.
Esquiar ou praticar snowboard, por exemplo, apresenta um risco 73 vezes superior ao da aviação. No mergulho, o risco é 180 vezes maior, enquanto correr uma maratona surge com um risco 202 vezes superior. No paraquedismo, a diferença chega às 422 vezes.
Os números mostram que algumas atividades que são encaradas como formas normais de lazer podem apresentar riscos significativamente superiores aos associados à aviação comercial, apesar de os acidentes aéreos serem muito mais visíveis no espaço público.
Até alguns acidentes do quotidiano apresentam maior risco
A análise também comparou o risco associado a diferentes tipos de lesões e acidentes. Os resultados indicam que uma pessoa tem três vezes mais probabilidades de morrer devido a um raio do que numa viagem de avião.
O risco de morte provocado por uma mordedura de cão é oito vezes superior ao associado à aviação comercial, enquanto uma tempestade catastrófica apresenta um risco 16 vezes maior.
Estas comparações reforçam a ideia central defendida pelos investigadores: a frequência e a visibilidade de determinados acontecimentos podem influenciar a perceção que as pessoas têm sobre o perigo, mesmo quando os dados apontam para uma realidade diferente.
O medo de voar não corresponde ao risco estatístico
Os investigadores consideram que a perceção do público é frequentemente influenciada pela dimensão emocional e pela visibilidade de acontecimentos raros. Um acidente aéreo com grande número de vítimas tende a ser amplamente noticiado e a permanecer na memória coletiva, enquanto muitos acidentes rodoviários ou outros acontecimentos fatais que ocorrem com maior frequência recebem muito menos atenção.
Essa diferença pode contribuir para uma perceção distorcida do risco associado às viagens aéreas. O facto de um acidente ser raro, mas ter um impacto mediático elevado, pode fazer com que a aviação pareça mais perigosa do que atividades que, estatisticamente, representam um risco superior.
Os dados analisados pela equipa da Embry–Riddle Aeronautical University apontam precisamente no sentido contrário.
“O risco foi reduzido para níveis excecionalmente baixos”
A conclusão central dos investigadores é que a aviação comercial moderna nos Estados Unidos funciona com “um nível de segurança excecionalmente elevado”. A análise indica que, quando o risco é medido por milha percorrida, viajar de avião é mais seguro do que utilizar outros grandes meios de transporte.
Os autores acrescentam que a vantagem permanece quando o risco é analisado por viagem ou por hora de exposição, sendo a aviação comercial também mais segura do que muitas atividades recreativas e profissões quotidianas.
De acordo com a análise, a contribuição da aviação comercial para o risco de mortalidade anual e ao longo da vida é “extremamente pequena”. Os investigadores reconhecem, contudo, que nenhuma atividade é completamente isenta de risco, mas consideram que a aviação comercial norte-americana é um sistema de transporte maduro e altamente regulado, no qual o risco foi reduzido para níveis excecionalmente baixos.
O estudo traça, assim, um contraste claro entre a perceção e os dados: apesar de o medo de voar continuar a afetar uma parte significativa da população, a probabilidade de morrer numa viagem de avião comercial é muito inferior à de enfrentar vários riscos presentes no transporte rodoviário, em atividades de lazer e até em alguns acidentes do quotidiano.











