Ormuz fechado: o efeito dominó que pode chegar à sua casa e à sua carteira

O encerramento do Estreito de Ormuz, provocado pela escalada do conflito no Médio Oriente, está a gerar um impacto profundo na economia mundial – muito além do petróleo e do gás.

Patrícia Moura Pinto

O estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais estratégicas do mundo, está no centro de uma crise que vai muito além do petróleo e do gás. O bloqueio desta região crítica ameaça matérias-primas essenciais para a agricultura, indústria e tecnologia, incluindo fertilizantes, plásticos, hélio e alumínio, com impacto direto no dia a dia dos consumidores.

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Para Felipe Elink Schuurman, cofundador da empresa de trading de matérias-primas Sparta, “a verdadeira vulnerabilidade são os derivados, não o crude”. A crise evidencia efeitos de segunda ronda nas cadeias de fornecimento globais, silenciosos mas com potencial de causar graves perturbações na economia mundial.

Antes da escalada do conflito, cerca de cinco milhões de barris de derivados de petróleo cruzavam diariamente Ormuz. Atualmente, apenas cinco embarcações passam em média, reduzindo drasticamente a circulação de produtos essenciais. Esta interrupção afeta 19% dos produtos refinados de petróleo, 13% dos produtos químicos, incluindo fertilizantes, e 2% do granel seco, segundo a UNCTAD.

Países como Índia, China, nações do sudeste asiático e do leste de África são os mais afetados, enquanto os Estados Unidos beneficiam de alguma proteção graças à sua indústria petroquímica própria. Na Europa, os custos aumentam apesar da dependência direta mais limitada.

Um terço do comércio mundial de fertilizantes depende do Golfo Pérsico, incluindo ureia, fosfato diamónico (DAP) e fosfato monoamónico (MAP). Estes produtos são essenciais para culturas de milho, arroz e trigo. Países como Sudão, Austrália e até Portugal dependem destas importações, e a escassez poderá provocar problemas significativos na produção agrícola.

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A escalada da crise fez o barril de petróleo Brent subir 41%, refletindo-se no preço da gasolina, gasóleo e combustível para aviões e navios. A IATA alerta para um aumento de 8% a 9% nos bilhetes aéreos. O fuelóleo marinho, essencial para transporte marítimo, quase duplicou de preço em Singapura devido à oferta limitada e procura inelástica.

Ataques iranianos às instalações de Ras Laffan, no Qatar, interromperam a produção de nafta, usada na fabricação de plásticos como PVC, polietileno e polipropileno. Estes materiais são essenciais para embalagens, construção, eletrodomésticos e indústria automóvel no sudeste asiático.

O Qatar produz 33% do hélio mundial, vital na fabricação de chips. Empresas como TSMC, Samsung e Intel, e gigantes tecnológicos como Nvidia, Microsoft e Apple, dependem deste gás. Uma interrupção prolongada pode elevar o preço do hélio até 50%, devido à sua curta vida útil e dificuldade de armazenamento.

O preço do alumínio pode atingir 4.000 dólares por tonelada devido à concentração de produção no Golfo Pérsico. O carvão, alternativa energética para países como a China, subiu 17,5% desde fevereiro. Estes aumentos refletem como a instabilidade em Ormuz afeta a indústria pesada, energia e produtos de consumo globalmente.

A crise pode chegar à sua vida diária, afetando desde o preço de alimentos e embalagens até produtos tecnológicos. Embora Donald Trump afirme que a operação Fúria Épica terminará em breve, os efeitos de segunda ronda poderão prolongar-se, mostrando que a economia global é mais vulnerável do que aparenta.

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