O espólio de Jeffrey Epstein está a ser alvo de uma nova ação judicial apresentada por duas mulheres que alegam que o antigo financeiro possuía imagens de abuso sexual de menores que as retratavam. As duas requerentes, que permanecem anónimas no processo, pedem a intervenção de um tribunal para criar um mecanismo destinado a identificar e notificar todas as pessoas que possam aparecer em imagens de cariz sexual obtidas ilegalmente e que tenham integrado a coleção de Epstein, além de reclamarem uma indemnização.
A queixa foi apresentada esta semana no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova Iorque e é dirigida contra Darren Indyke, antigo advogado de Epstein, e Richard Kahn, antigo contabilista, na qualidade de coadministradores do espólio do falecido. Os dois já afirmaram que desconheciam os crimes cometidos por Epstein durante o período em que trabalharam para o empresário.
Os advogados de Indyke e Kahn não responderam de imediato a um pedido de comentário sobre a nova ação judicial.
A queixa sustenta que, durante mais de duas décadas, Epstein terá possuído, transportado, produzido e distribuído “pornografia infantil e/ou material de abuso sexual de crianças de inúmeras crianças”. O documento alega ainda que Epstein terá obtido através de furto imagens de nudez ou de nudez parcial da primeira autora, identificada no processo pelo pseudónimo Jane Doe, tendo depois transportado esse material entre diferentes estados norte-americanos e mantido as imagens na sua posse.
Epstein morreu em 2019, numa prisão de Manhattan, enquanto aguardava julgamento por acusações federais relacionadas com tráfico sexual.
O processo sustenta que muitas das pessoas retratadas no material de abuso sexual que, segundo a acusação, estava na posse de Epstein nunca foram identificadas ou notificadas através do programa de identificação de vítimas do National Center for Missing and Exploited Children.
No caso da segunda autora, identificada no processo pelo pseudónimo “Amy”, a ação alega que, “com base em informações e convicções”, Epstein terá adquirido imagens de material de abuso sexual que a retratavam.
Alegada coleção de imagens guardada durante décadas
Segundo a queixa, a partir da década de 1990, Epstein terá “criado e mantido” num cofre fechado da sua residência em Nova Iorque um “livro de modelos” composto por imagens sexualizadas de crianças.
O processo alega ainda que, pelo menos desde a década de 2000, Epstein terá ordenado a uma assistente que fotografasse crianças nuas ou em poses sexualizadas, pagando-lhes pelas imagens e utilizando depois essas fotografias para a sua própria satisfação sexual e, eventualmente, para a satisfação sexual de outras pessoas.
Jane Doe afirma que tinha cerca de 12 anos quando Epstein terá furtado fotografias suas parcialmente nua. Segundo a queixa, as imagens tinham sido originalmente produzidas como parte de um estudo artístico e encontravam-se catalogadas, numeradas e guardadas pelo artista numa caixa de segurança.
A ação judicial sustenta também que Epstein terá “roubado fotografias nuas ou parcialmente nuas de outra menor” e transportado essas imagens entre diferentes estados norte-americanos.
O processo acrescenta que, apesar de terem existido na altura denúncias às autoridades, incluindo informações específicas de que Epstein tinha obtido as fotografias de Jane Doe e imagens semelhantes de outra menor, nenhuma autoridade policial terá tomado medidas para instaurar um processo ou sequer investigar as denúncias.
A mulher afirma que, depois de ter tomado conhecimento de que Epstein tinha possuído imagens sexualizadas suas enquanto era criança, sofreu e continua a sofrer de “grave sofrimento emocional”.
Segunda autora diz ser vítima de imagens distribuídas durante décadas
“Amy” afirma na queixa que é vítima de material de abuso sexual de menores que terá sido “ativamente comercializado” e cuja distribuição remonta ao final da década de 1990 e se prolonga até aos dias de hoje.
A ação judicial sustenta que, “com base em informações e convicções”, imagens de Amy fazem parte do material de abuso sexual apreendido nas propriedades de Epstein.
Margaret Mabie, advogada da Marsh Law que representa as autoras, afirmou que os ficheiros divulgados indicam que um relatório sobre a coleção de Epstein identificou pelo menos 15 correspondências com séries conhecidas semelhantes às imagens de Amy.
“Segundo o nosso conhecimento, nenhuma das vítimas identificadas nesse relatório, ou em qualquer outro material de abuso sexual de crianças descoberto na coleção de Epstein, alguma vez recebeu uma notificação”, afirmou Mabie.
A queixa alega ainda que outras pessoas, incluindo funcionários de Epstein e possíveis cúmplices, tiveram acesso às imagens, as visualizaram ou receberam de Epstein material de abuso sexual que estava na sua posse, incluindo imagens de Jane Doe e de “Amy”.
Processo pretende representar outras possíveis vítimas
As duas mulheres avançaram com a ação judicial em nome próprio, mas também pretendem representar um grupo mais abrangente de sobreviventes.
A classe proposta inclui todas as pessoas que tinham menos de 18 anos quando foram retratadas em qualquer representação visual de pornografia infantil ou material de abuso sexual de menores que esteja incluída em coleções de imagens, vídeos ou outros meios eletrónicos apreendidos em propriedades ou dispositivos controlados por Jeffrey E. Epstein.
O grupo abrangeria igualmente material identificado nas divulgações realizadas ao abrigo da Epstein Files Transparency Act e os documentos e materiais descritos num memorando do FBI e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, datado de 6 de julho de 2026.
Hillary Nappi, da AWK Survivor Advocate Attorneys, afirmou que o objetivo da ação é garantir “responsabilização e identificação”.
“Queremos que o espólio preserve e contabilize tudo o que foi apreendido nas propriedades de Epstein e queremos um processo real, supervisionado pelo tribunal, para identificar e notificar todas as sobreviventes retratadas nessa coleção”, afirmou Nappi.
A advogada sublinhou que muitas das possíveis vítimas podem desconhecer que existem imagens suas nos ficheiros de Epstein e defendeu que essas pessoas “merecem saber” e “merecem ter a oportunidade de procurar justiça”.
“Os sobreviventes esperaram anos por responsabilização, e este processo abre a porta a outras pessoas retratadas na sua coleção que nem sequer sabem que estão lá”, acrescentou Nappi.
A nova ação judicial pretende, assim, não apenas obter uma compensação financeira para as duas autoras, mas também obrigar o espólio de Epstein a preservar e contabilizar o material apreendido e estabelecer, sob supervisão judicial, um procedimento para localizar e informar todas as possíveis vítimas retratadas nas imagens.

















