A guerra que eclodiu entre Israel e o grupo palestiniano Hamas terá um vencedor: e não será nenhum dos dois.
Na operação denominada “Tempestade Al-Aqsa”, o Hamas disparou milhares de foguetes contra Israel no passado sábado, tendo também infiltrado milhares de combatentes por ar, terra e mar, o que provocou já mais de um milhar de mortos.
A resposta de Israel, segundo Aaron Pilkington, da Universidade de Denver, vai promover, nas próximas semanas, à morte de mais de centenas de militantes e civis palestinianos. De acordo com o especialista em política e segurança do Médio Oriente, num artigo de opinião no site ‘The Conversation’, milhares de pessoas de ambos os lados vão sofrer. Mas quando ‘baixar a poeira’, apenas terão sido servidos os interesses de um país: o Irão.
O ataque surpresa do Hamas tem ‘impressões digitais’ de Teerão, apesar dos desmentidos dos líderes iranianos. Recorde-se que o fator decisivo que moldou a política externa do Irão foi o derrube, em 1979, do Xá do Irão, amigo dos Estados Unidos, que passou o poder para um regime revolucionário muçulmano xiita, definido pelo imperialismo antiamericano e pelo sionismo anti-israelita. A revolução não era apenas contra a corrupta monarquia do país mas também confrontar a opressão e injustiça em todo o mundo, especialmente os Governos apoiados pelos Estados Unidos – sobretudo Israel.
Para os líderes do Irão, Israel e os Estados Unidos são uma representação da imoralidade, a injustiça e a maior ameaça à sociedade muçulmana e à segurança do Irão.
O apoio à libertação palestiniana tornou-se assim, por arrasto, tema central da mensagem revolucionária do Irão. A invasão israelita do Líbano, em 1982, proporcionou ao Irão uma oportunidade de fazer jus à sua retórica antissionista, desafiando os soldados israelitas no Líbano e verificando a influência dos EUA na região.
O apoio do Irão, sobretudo através do seu Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, permitiu apoiar e organizar militantes libaneses e palestinianos. Desse bando desorganizado de combatentes à mais poderosa força política e militar do Líbano, o Hezbollah.
Desde 1980 que o Irão tem mantido o apoio a grupos e operações anti-israelitas – Teerão gere, por exemplo, uma sofisticada rede de contrabando para Gaza, há muito isolada do mundo exterior devido ao bloqueio de Israel.
Através da sua Guarda Revolucionária e do Hezbollah, o Irão encorajou e permitiu a violência da Jihad Islâmica Palestiniana e do Hamas, que representam agora um elemento crucial do chamado “Eixo de Resistência” do Irão contra Israel e Estados Unidos.
Tanto que os conflitos israelo-palestinianos, assim como o número de mortos, têm aumentado constantemente desde 2020. Não quer, no entanto, dizer que o Irão tenha ordenado o ataque do Hamas a Israel, apesar de os seus líderes terem saudado os ataques. “O que aconteceu está em linha com a continuação das vitórias da resistência antissionista em diferentes campos, incluindo Síria, Líbano e terras ocupadas”, referiu o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Nasser Kanani.
Mas é o principal trunfo da Administração Biden na zona – o acordo entre Arábia Saudita e Israel para normalizar as relações – que fica em causa, depois de o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, ter criticado os estados árabes, acusando-os de “traição contra a comunidade islâmica global”.
A esperada resposta dura de Israel irá provavelmente complicar a normalização da relação da Arábia Saudita no curto prazo, o que promove os objetivos do Irão.
Há pelo menos três resultados possíveis para a guerra, e todos eles jogam a favor do Irão.
Em primeiro lugar, a resposta dura de Israel pode afastar a Arábia Saudita e outros Estados árabes dos esforços de normalização israelitas apoiados pelos EUA. Em segundo lugar, se Israel considerar necessário avançar ainda mais em Gaza para erradicar a ameaça, isso poderá provocar outra revolta palestiniana em Jerusalém Oriental ou na Cisjordânia, levando a uma resposta israelita mais generalizada e a uma maior instabilidade.
Por último, Israel poderia alcançar os dois primeiros objetivos com a quantidade mínima de força necessária, renunciando às habituais táticas pesadas e reduzindo as possibilidades de escalada. Mas isso é improvável. Até porque abre a porta para uma próxima ronda de violência entre as partes – que vai ocorrer, garantiu o especialista -, o que vai fazer os líderes do Irão felicitar-se por um trabalho bem feito.














