Vladimir Putin enfrenta um dilema a poucas semanas das primeiras eleições parlamentares russas desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia. O Rússia Unida dificilmente perderá o controlo da Duma, mas o Kremlin tem outro problema: algumas das medidas que poderiam aliviar a pressão sobre o Exército e a economia seriam profundamente impopulares junto dos eleitores.
As eleições estão marcadas para 18, 19 e 20 de setembro e vão escolher os 450 deputados da Duma Estatal. O partido que sustenta Putin parte numa posição confortável, mas chega à votação numa altura em que os ataques ucranianos de longo alcance estão a tornar as consequências da guerra cada vez mais visíveis dentro da própria Rússia.
Segundo uma análise da ‘Newsweek’, é precisamente aí que está o dilema do Kremlin: mobilizar mais homens poderia reforçar as tropas, mas arriscaria provocar uma reação social semelhante à de 2022; continuar a evitar uma nova mobilização protege Putin politicamente, mas dá à Ucrânia mais tempo para pressionar as forças russas e atacar infraestruturas essenciais.
Mobilizar mais soldados? Putin já sabe o preço
O precedente ajuda a explicar a cautela. Em setembro de 2022, quando Moscovo anunciou a mobilização de cerca de 300 mil reservistas, dezenas de milhares de homens abandonaram rapidamente o país.
Só na semana seguinte ao anúncio, 66 mil cidadãos russos entraram na União Europeia, segundo dados da Frontex citados pela ‘Newsweek’, mais 30% do que na semana anterior. Muitos outros fugiram para países como Cazaquistão e Geórgia.
Quatro anos depois, a questão voltou a surgir. As perdas russas no campo de batalha continuam elevadas, embora seja difícil determinar com precisão a sua dimensão. O Governo russo garante que o recrutamento voluntário continua a fornecer os homens necessários: segundo Dmitry Medvedev, cerca de 200 mil pessoas assinaram contratos com o Ministério da Defesa durante o primeiro semestre deste ano.
Kiev apresenta uma leitura diferente. Volodymyr Zelensky afirmou recentemente que Moscovo poderá mobilizar entre 300 mil e 500 mil novos soldados ainda este ano, enquanto vários comentadores militares russos têm defendido que uma nova mobilização será necessária para conseguir avanços significativos na Ucrânia.
Kremlin insiste: “Não há necessidade de mobilização”
O tema tornou-se suficientemente sensível para obrigar figuras próximas do poder a tentar tranquilizar a população. Vladimir Solovyov, um dos mais conhecidos apresentadores da televisão estatal, e Andrey Kartapolov, presidente da Comissão de Defesa da Duma, garantiram que “não há necessidade de mobilização”.
Solovyov chegou mesmo a defender que os bloggers militares russos que difundem rumores sobre uma nova convocatória deveriam ser processados.
Entretanto, Moscovo procura aumentar o recrutamento por outros meios. A Duma retirou recentemente mais 11 crimes da lista de infrações que impediam arguidos ou condenados de assinarem contratos militares. Entre eles estão tráfico de droga, tráfico de pessoas e agressões cometidas por grupos.
As autoridades regionais aumentaram também os prémios pagos a quem aceite alistar-se e o Ministério da Defesa lançou campanhas de recrutamento em universidades, segundo o ‘Moscow Times’.
Uma nova mobilização poucas semanas antes das eleições poderia, porém, produzir precisamente as imagens que o Kremlin pretende evitar: filas de homens em idade militar a tentar abandonar o país.
O problema já chegou às bombas de gasolina
Mas enquanto Putin tenta evitar uma nova convocatória, a Ucrânia está a aumentar a pressão noutro ponto particularmente sensível: a infraestrutura energética russa.
Os ataques contra refinarias contribuíram para reduzir fortemente a produção de combustível. Uma análise do New Eurasian Strategies Center concluiu que a produção russa de gasolina caiu cerca de um terço em junho e julho face ao mesmo período de 2025, deixando o país a produzir menos do que consome.
O problema tornou-se suficientemente grave para obrigar Moscovo a procurar combustível no estrangeiro. Em julho, as exportações de gasolina da Bielorrússia para a Rússia atingiram um novo máximo mensal, enquanto as entregas de gasóleo duplicaram face a junho.
A Rússia, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, começou também a recorrer a fornecedores muito mais distantes. Dados conhecidos esta semana mostram que quase 30 mil toneladas de produtos refinados foram enviadas da Coreia do Sul para o Extremo Oriente russo no final de julho.
Filas, racionamento e preços mais altos
Para milhões de russos, esta é uma consequência da guerra difícil de esconder. Em várias regiões foram registadas filas prolongadas nas estações de serviço, limitações à quantidade de combustível vendida e aumentos de preços.
O investigador Sergey Aleksashenko, do New Eurasian Strategies Center, alertou que, caso a quebra da produção se mantivesse ao ritmo observado em junho, os stocks nacionais de gasolina poderiam aproximar-se de níveis críticos no outono.
Os dados mais recentes mostram alguns sinais de recuperação na atividade das refinarias, mas os ataques continuam. A Rússia mantém restrições às exportações de combustíveis e as suas exportações marítimas de produtos petrolíferos caíram cerca de 33% em julho face ao mês anterior.
É uma situação particularmente incómoda para o Kremlin: um país que exporta enormes quantidades de petróleo está a precisar de importar combustível para abastecer o próprio mercado.
Armazéns destruídos levam a guerra às compras online
A pressão ucraniana não termina na energia. Nas últimas semanas, ataques atingiram também instalações da Wildberries, a maior plataforma russa de comércio eletrónico e frequentemente descrita como uma espécie de “Amazon russa”.
Segundo estimativas citadas pela ‘Newsweek’, mais de um quarto do espaço logístico da empresa poderá ter sido afetado, provocando uma forte quebra nas entregas de encomendas em Moscovo.
Os efeitos chegam diretamente aos consumidores através de atrasos, cancelamentos, indisponibilidade de produtos e preços mais elevados. Pequenas empresas que dependem da plataforma para vender e distribuir mercadorias também podem sofrer perdas.
É precisamente este tipo de consequência que torna a estratégia ucraniana politicamente relevante: a guerra deixa de ser algo distante, concentrado nas trincheiras do Donbass, e começa a aparecer na bomba de gasolina, na encomenda que não chega e no preço pago nas lojas.
Economia quase parada e impostos mais altos
A pressão coincide com uma economia que perdeu grande parte do dinamismo. O Banco Central russo reduziu recentemente a previsão de crescimento para 2026 para um intervalo entre 0% e 1%, enquanto a inflação deverá ficar entre 6% e 7%, segundo os números citados pela ‘Newsweek’.
O Governo aumentou ainda impostos no início do ano. O IVA passou de 20% para 22% e mais pequenas empresas passaram a ficar abrangidas pelo imposto devido à redução do limite de faturação a partir do qual este é aplicado.
Para já, o Kremlin continua a conseguir financiar a guerra. Mas os custos tornam-se progressivamente mais difíceis de manter fora da vida quotidiana: consumidores enfrentam combustível e produtos mais caros, enquanto empresas suportam impostos superiores, problemas de abastecimento e atrasos nas entregas.
Putin não deverá perder as eleições. Mas esse não é o verdadeiro teste
Nada disto significa que o Rússia Unida esteja perante uma ameaça real de perder o controlo parlamentar. O partido domina atualmente mais de 300 dos 450 lugares da Duma e poderia perder dezenas de deputados sem colocar em causa a capacidade de Putin para governar.
Há, contudo, sinais de preocupação dentro do próprio sistema. Segundo a ‘Newsweek’, o Rússia Unida começou por estabelecer como objetivo obter 55% dos votos, com uma participação de cerca de 50%. O Meduza noticiou posteriormente que o Kremlin terá reduzido a meta primeiro para 50% e, em algumas regiões, para 45%.
As sondagens também sugerem crescente pessimismo económico. Um levantamento da Gallup realizado entre março e maio concluiu que 60% dos russos consideravam que a economia local estava a piorar, o resultado mais negativo em duas décadas, enquanto 56% afirmavam sentir uma deterioração do nível de vida.
O Rússia Unida deverá, ainda assim, conseguir em setembro a vitória de que o Kremlin necessita. O verdadeiro problema de Putin está no que acontece até lá — e sobretudo depois.
Adiar uma nova mobilização pode evitar uma decisão explosiva antes das urnas. Mas não resolve a necessidade de homens na frente. Importar combustível pode aliviar temporariamente a escassez. Mas não impede novos ataques às refinarias. E controlar a narrativa nos meios de comunicação estatais não faz desaparecer filas nas estações de serviço, encomendas que não chegam ou preços que continuam a subir.
Como resume a análise da ‘Newsweek’, a Ucrânia não precisa de derrotar Vladimir Putin nas urnas. Está a tentar tornar cada vez mais caro para o Kremlin manter a guerra longe da vida dos russos.



















