Bastaram 90 segundos sem eletricidade para lançar o caos na ferrovia britânica durante dois dias. E houve até viagens de cinco horas sem WC

Eletricidade falhou pelas 13h40 no Manchester Rail Operating Centre, instalação responsável por controlar grande parte das operações ferroviárias no noroeste do país. A interrupção afetou também cerca de cinco mil consumidores na região de Manchester

Francisco Laranjeira

Durou apenas um minuto e meio. Mas foi suficiente para deixar sinais ferroviários sem energia, cancelar comboios, espalhar atrasos pelo norte e centro de Inglaterra e provocar perturbações que ainda se faziam sentir no dia seguinte.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Uma falha elétrica ocorrida na quinta-feira no principal centro de controlo ferroviário do noroeste de Inglaterra desencadeou dois dias de problemas na rede britânica, numa demonstração de como um incidente extremamente curto pode produzir efeitos durante muitas horas num sistema ferroviário altamente interligado.

Segundo o ‘The Independent’, a eletricidade falhou pelas 13h40 no Manchester Rail Operating Centre, instalação responsável por controlar grande parte das operações ferroviárias no noroeste do país. A interrupção afetou também cerca de cinco mil consumidores na região de Manchester.

Sinais passaram automaticamente para vermelho

Quando o centro perdeu energia, os sistemas de sinalização ferroviária foram afetados e vários sinais passaram automaticamente para vermelho, impedindo os comboios de continuar a circular normalmente.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

É um mecanismo de segurança: perante uma falha de comunicações ou energia, os sinais assumem a indicação mais restritiva para evitar que dois comboios sejam autorizados a ocupar o mesmo troço de linha.

O problema foi agravado porque, segundo informações citadas pelo ‘The Independent’, os geradores de emergência da Network Rail não entraram imediatamente em funcionamento. Foi aberta uma investigação para perceber porquê.

A distribuidora SP Electricity North West indicou que a interrupção esteve relacionada com um incidente num cabo de alta tensão na zona de Harpurhey, a nordeste do centro de Manchester.

Um minuto e meio que desorganizou toda a operação

O fornecimento foi recuperado rapidamente, mas a ferrovia não voltou simplesmente ao normal quando regressou a eletricidade.

Continue a ler após a publicidade

Comboios ficaram parados em locais onde não deveriam estar, serviços foram cancelados e tripulações deixaram de se encontrar nas estações onde estavam previstas para iniciar as viagens seguintes.

Esse efeito em cadeia explica por que razão as perturbações continuaram na sexta-feira. A Network Rail admitiu que algumas composições e respetivas equipas estavam “fora das posições normais” depois do incidente inesperado.

Na manhã seguinte, a empresa dizia que a maioria dos operadores já realizava o serviço completo, embora permanecessem atrasos e cancelamentos enquanto comboios e trabalhadores regressavam aos locais previstos.

Passageiros foram aconselhados a não viajar

Na quinta-feira, a dimensão do problema levou operadores como a Northern e a TransPennine Express a aconselhar os passageiros a não viajar.

Continue a ler após a publicidade

A TransPennine Express explicou que os seus comboios não conseguiam circular em segurança devido à falha dos sistemas de comunicações da rede.

Manchester, o noroeste de Inglaterra e partes das Midlands estiveram entre as zonas mais afetadas. Serviços da Avanti West Coast, CrossCountry, East Midlands Railway, London Northwestern, Northern, TransPennine Express e Transport for Wales sofreram cancelamentos, atrasos ou alterações.

Os passageiros foram aconselhados a verificar as viagens antes de se dirigirem às estações e algumas companhias flexibilizaram as regras dos bilhetes para permitir a utilização noutros horários.

Um centro criado para controlar toda a região

O Manchester Rail Operating Centre abriu em 2014 e é uma das grandes instalações concebidas para centralizar progressivamente o controlo ferroviário britânico.

Quando foi inaugurado, fazia parte de um plano que previa substituir centenas de antigas caixas de sinalização e centros operacionais espalhados pela rede.

Continue a ler após a publicidade

A intenção era que, até 2034, a instalação de Manchester passasse a controlar praticamente toda a ferrovia do noroeste de Inglaterra.

Esta centralização aumenta a eficiência, mas o incidente desta semana voltou a mostrar a dimensão que uma falha localizada pode assumir quando ocorre num ponto crítico da rede.

E ainda apareceu uma bomba da guerra

Como se a falha elétrica não fosse suficiente, a operação ferroviária enfrentou outro problema completamente independente.

Uma bomba da II Guerra Mundial foi descoberta junto à linha entre Tamworth e Burton-on-Trent, obrigando ao encerramento de todas as vias naquele troço e acrescentando novas perturbações às que já estavam a afetar os passageiros.

O resultado foi uma combinação particularmente difícil: uma rede ainda a tentar recuperar de uma falha elétrica de 90 segundos e, simultaneamente, um encerramento provocado pela descoberta de um engenho explosivo com mais de 80 anos.

Continue a ler após a publicidade

Viagens de cinco horas sem casas de banho

E os problemas ferroviários britânicos não ficaram por aqui.

Em alguns serviços da Lumo entre Londres e Stirling, na Escócia, passageiros chegaram a enfrentar viagens superiores a cinco horas e meia sem qualquer casa de banho disponível a bordo devido a avarias simultâneas nos sanitários.

A companhia confirmou que tem enfrentado problemas de fiabilidade nos WC dos comboios utilizados na West Coast Main Line e está a trabalhar com a Alstom para resolver as falhas.

Para minimizar o problema, alguns serviços estão a fazer paragens mais prolongadas em estações como Preston, permitindo que os passageiros saiam do comboio para utilizar as instalações existentes nas plataformas.

Esta sexta-feira, o comboio que saiu de London Euston às 06h11 acumulou 58 minutos de atraso e acabou por terminar a viagem em Motherwell, antes do destino inicialmente previsto.

Casas de banho nem sequer são obrigatórias

Continue a ler após a publicidade

Há ainda um detalhe inesperado: as operadoras ferroviárias britânicas não são legalmente obrigadas a disponibilizar casas de banho dentro dos comboios.

Os serviços da Lumo em causa utilizam composições Class 222 Meridian renovadas pela Alstom, modelos que também já registaram problemas nos sanitários quando utilizados por outros operadores.

A viagem entre Londres e Stirling tem cerca de 670 quilómetros e pode ultrapassar cinco horas, tornando a falta de instalações particularmente problemática para passageiros idosos, crianças ou pessoas com condições de saúde específicas.

Assim, em poucos dias, a ferrovia britânica juntou uma falha elétrica de apenas 90 segundos, sinais bloqueados, centenas de serviços afetados, uma bomba da Segunda Guerra Mundial e viagens de mais de cinco horas sem casas de banho.

Mas é o primeiro destes episódios que melhor demonstra a fragilidade operacional de uma rede ferroviária complexa: a eletricidade desapareceu durante minuto e meio. Colocar novamente todos os comboios, tripulações e horários no sítio certo demorou muito mais.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.