A União Europeia passou o último ano a tentar conciliar as políticas climáticas com uma nova prioridade: tornar a indústria europeia mais competitiva face à China e aos Estados Unidos. Mas o verão de 2026 está a expor uma contradição difícil de ignorar. Calor extremo, seca, incêndios e rios em mínimos históricos já estão a provocar perdas de produtividade, destruir colheitas, travar fábricas e aumentar os custos da energia.
É esta a contradição destacada pelo ‘POLITICO’: enquanto Bruxelas revê e, em alguns casos, suaviza medidas do Pacto Ecológico Europeu para reduzir os encargos das empresas, os efeitos das alterações climáticas estão eles próprios a transformar-se num problema económico de grande dimensão.
“Continua a existir a ideia, completamente errada, de que há uma escolha entre economia e política climática”, afirma Bob Ward, diretor de política do Grantham Research Institute on Climate Change, da London School of Economics. Segundo o especialista, há muito que se sabe que os custos das alterações climáticas sem controlo poderão superar largamente os necessários para as combater.
O calor também pesa nas contas das empresas
Um dos efeitos mais imediatos aparece no trabalho. Segundo dados das Nações Unidas citados pelo ‘POLITICO’, a produtividade dos trabalhadores pode cair entre 2% e 3% por cada grau de aumento da temperatura acima de determinados níveis de stress térmico.
Ao mesmo tempo, as empresas gastam mais energia para climatizar escritórios, fábricas, lojas e outros espaços. Ou seja, o calor atinge as contas pelos dois lados: reduz aquilo que é produzido e aumenta os custos necessários para continuar a trabalhar.
A dimensão potencial da fatura é significativa. O grupo segurador Allianz estima perdas acumuladas de Produto Interno Bruto de até 7% entre 2026 e 2030 devido ao impacto económico do calor, num cenário de temperaturas persistentemente elevadas.
Só França poderá perder cerca de 240 mil milhões de dólares, seguindo-se Itália, com 147 mil milhões, Alemanha, com 131 mil milhões, e Espanha, com 120 mil milhões. Na Alemanha, uma estimativa preliminar aponta para pelo menos 6,3 mil milhões de euros em perdas de produtividade apenas durante a vaga de calor do final de junho.
Nove milhões de toneladas de cereais perdidas
A agricultura é outra das primeiras vítimas. As sucessivas vagas de calor, conjugadas com a falta de chuva, estão a secar os solos e a reduzir as colheitas em várias regiões europeias.
A associação europeia de cereais Coceral estima que só a vaga de calor de junho tenha eliminado cerca de nove milhões de toneladas das previsões de produção de cereais na Europa. Uma análise citada pelo ‘POLITICO’ calcula que isso representa aproximadamente dois mil milhões de euros em receitas perdidas para os agricultores.
Mas a seca já deixou de ser apenas um problema agrícola. Quando os grandes rios europeus perdem água, começam também a sentir-se consequências nos transportes, na indústria e até na produção de eletricidade.
Reno em mínimos históricos trava fábricas
O Reno, uma das principais artérias comerciais da Europa, caiu para o nível mais baixo desde que existem registos, iniciados em 1880. Pelo rio são normalmente transportadas enormes quantidades de carvão, produtos químicos, matérias-primas e outros bens essenciais à indústria alemã.
Com menos água, as embarcações têm de reduzir drasticamente a carga para não encalharem. Em alguns casos, estão a transportar menos 80%.
Isso significa mais viagens para transportar a mesma quantidade de mercadoria, custos superiores e atrasos nas cadeias de abastecimento. A Thyssenkrupp já reduziu a produção devido à dificuldade em receber materiais.
Se os níveis do Reno permanecerem tão baixos, o impacto poderá chegar às contas do país. Stefan Kooths, do Kiel Institute for the World Economy, estima que a situação poderá retirar entre 0,1 e 0,2 pontos percentuais ao PIB alemão no terceiro trimestre.
Sem água nos rios, centrais nucleares também param
Mais a leste, o Danúbio está a provocar outro problema: falta água suficiente para garantir o funcionamento normal de algumas centrais nucleares.
Na Hungria, a central de Paks, responsável normalmente por cerca de 40% da eletricidade consumida no país, está a produzir apenas uma fração da sua capacidade habitual. A redução da oferta já contribuiu para uma forte subida dos preços da eletricidade e aumentou os receios de escassez.
Na Roménia, as autoridades chegaram a fazer explodir uma formação rochosa para desviar água do Danúbio em direção ao último reator nuclear em funcionamento, depois de outro ter sido encerrado. Fabricantes automóveis aceitaram também suspender temporariamente a produção para reduzir o consumo de eletricidade.
França enfrenta dificuldades semelhantes. A EDF encerrou três reatores devido à redução dos caudais dos rios Meuse e Moselle e diminuiu a produção noutros locais.
Incêndios: uma fatura que pode disparar
Depois há os incêndios florestais. Até ao final de julho, cerca de 465 mil hectares tinham ardido na União Europeia, numa altura em que a época de fogos ainda estava longe de terminar.
O custo não se resume às casas, estradas ou florestas destruídas. Empresas são obrigadas a fechar, turistas abandonam as regiões afetadas, trabalhadores ficam impossibilitados de chegar aos locais de trabalho e a atividade económica pode ficar condicionada durante semanas ou meses.
Um estudo sobre Portugal, Espanha, Itália e Grécia calculou que os incêndios provocaram perdas de até 2,1 mil milhões de euros por ano entre 2011 e 2018.
Sarah Meier, especialista em economia climática da ETH Zurich e uma das autoras do trabalho, considera que esse valor poderá revelar-se muito baixo perante aquilo que está a acontecer em 2026. Os incêndios analisados nesse período estavam longe da dimensão dos grandes fogos registados este ano.
Em França, o Ministério da Transição Ecológica calcula que recuperar cada hectare de floresta ardida poderá custar até 10 mil euros. Na Gironda, uma das regiões atingidas pelos grandes incêndios deste verão, milhares de empresas tiveram de encerrar e muitos turistas abandonaram a zona.
Reconstruir aumenta o PIB — mas não significa riqueza
Há ainda um paradoxo económico. Reconstruir uma casa, uma estrada ou uma fábrica destruída por uma catástrofe gera investimento e atividade e, por isso, pode aparecer nas estatísticas como crescimento do PIB.
Mas isso não significa que o país tenha ficado mais rico. Como explica Meier, trata-se simplesmente de gastar dinheiro para reconstruir capital que já existia antes de ser destruído.
E os prejuízos podem prolongar-se muito para além do momento da catástrofe. Uma empresa que produz menos num determinado ano ganha menos dinheiro, investe menos no ano seguinte e reduz a sua capacidade de crescer no futuro.
“São perdas que se acumulam ano após ano”, explica Anders Levermann, cientista climático do Potsdam Institute for Climate Impact Research.
Bruxelas enfrenta uma contradição difícil de resolver
É precisamente aqui que surge o problema político para a União Europeia. Bruxelas quer reduzir custos regulatórios e recuperar competitividade industrial perante a China e os Estados Unidos, razão pela qual várias medidas climáticas estão a ser revistas ou suavizadas.
Ao mesmo tempo, porém, o próprio aquecimento está a aumentar os custos das empresas, reduzir a produtividade dos trabalhadores, destruir produção agrícola, perturbar transportes e limitar o funcionamento de centrais elétricas.
E a fatura poderá continuar a crescer. Os cientistas ouvidos pelo POLITICO alertam que estes episódios não serão necessariamente excecionais: enquanto as emissões e as temperaturas continuarem a aumentar, crescerá também o risco de vagas de calor, secas e incêndios mais severos.
A questão económica colocada à Europa pode, por isso, estar a mudar. Já não se trata apenas de saber quanto custa combater as alterações climáticas. Trata-se também de perceber quanto custará não o fazer.



















