A enxurrada que atingiu a fronteira entre o Nepal e o Tibete deixou dezenas de mortos e mais de mil pessoas desaparecidas. Mas, para perceber a dimensão da tragédia, é preciso recuar algumas horas e subir milhares de metros nos Himalaias.
A hipótese mais forte é a de que uma enorme massa de gelo e rocha se desprendeu de um glaciar e caiu sobre o vale, desencadeando uma sequência rápida de acontecimentos: o impacto libertou água, mobilizou sedimentos e detritos e criou uma torrente capaz de fazer subir o nível de um rio até nove metros em apenas meia hora.
Segundo o The Guardian, os especialistas acreditam que um colapso glaciar esteve certamente envolvido no desastre, embora ainda não seja claro se foi a única causa.
O que aconteceu exatamente?
Na manhã de quarta-feira, uma massa de gelo e rocha caiu na região montanhosa junto à fronteira entre o Nepal e a China.
O material atingiu a zona do rio Trishuli, também conhecido como Bhotekoshi, e originou uma corrente violenta de lama, água, rochas e outros detritos.
Casas, estradas, pontes e infraestruturas de produção de energia foram arrastadas.
As autoridades do Nepal contabilizaram 403 desaparecidos, dos quais 341 estrangeiros. No Tibete, a televisão estatal chinesa indicou pelo menos três mortos e 265 desaparecidos.
Especialistas do International Centre for Integrated Mountain Development, em Catmandu, estimaram que a água no rio Trishuli subiu até nove metros em cerca de 30 minutos.
O rio Lhende Khola, um afluente do Bhotekoshi, foi uma das zonas mais atingidas.
Foi um terramoto que provocou a enxurrada?
Foi essa a primeira suspeita.
As autoridades nepalesas admitiram inicialmente que um sismo pudesse ter desencadeado um deslizamento de terras.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Nepal, Shisir Khanal, chegou a dizer no Parlamento que os primeiros dados apontavam nessa direção.
Mas a análise do Serviço Geológico dos Estados Unidos alterou essa interpretação.
O USGS concluiu que não ocorreu um terramoto. O sinal sísmico detetado resultou, afinal, de um colapso glaciar e do movimento de uma grande massa de detritos.
O evento foi suficientemente intenso para ser registado como um fenómeno equivalente a magnitude 5,2.
Ou seja: não foi um sismo que fez cair o glaciar. Foi o próprio colapso do glaciar que gerou um sinal semelhante ao de um abalo sísmico.
Que dimensão tinha o colapso?
As primeiras imagens de satélite dão uma ideia da escala.
Daniel Shugar, geomorfólogo da Universidade de Calgary, estimou que uma área de cerca de 0,2 quilómetros quadrados de gelo se desprendeu.
Segundo a análise do investigador, a parte inferior de um glaciar que se encontrava a aproximadamente 5.200 metros de altitude terá caído cerca de 1,2 quilómetros até ao fundo do vale.
É esta queda abrupta que ajuda a explicar a enorme energia libertada.
Quanto maior for a massa de gelo e rocha e maior for a diferença de altitude, maior será a capacidade de deslocar água, sedimentos e material acumulado no vale.
Como é que um glaciar consegue provocar uma enxurrada?
O mecanismo funciona como uma reação em cadeia.
Quando uma grande massa de gelo cai de uma encosta, não transporta apenas gelo. Pode arrastar rochas, neve, terra e outros materiais.
O impacto pode também libertar grandes volumes de água.
À medida que essa água se mistura com sedimentos e detritos, a corrente ganha volume, peso e velocidade.
Andrew Mackintosh, glaciologista da Universidade Monash, explica que o colapso pode desencadear uma sequência em cascata: a água mistura-se com os sedimentos, aumenta rapidamente de volume e transforma-se numa corrente de detritos altamente destrutiva.
É por isso que um fenómeno localizado numa zona elevada da montanha pode, em pouco tempo, provocar destruição muitos quilómetros a jusante.
O glaciar caiu sozinho ou desabou parte da montanha?
Essa é uma das questões ainda em aberto.
Mackintosh admite que ainda não é possível determinar se apenas uma parte do glaciar se desprendeu ou se ocorreu um colapso mais amplo da encosta, envolvendo simultaneamente gelo e rocha.
Um grupo internacional de investigadores considera igualmente que o colapso glaciar esteve “certamente envolvido”, mas poderá não explicar sozinho toda a catástrofe.
Outros fatores podem ter contribuído para amplificar o fenómeno.
O calor pode ter tido influência?
As imagens analisadas por Daniel Shugar mostram uma alteração significativa na cobertura de neve nas 24 horas anteriores ao desastre.
Alguns glaciares que apareciam cobertos de neve num dia mostravam, no seguinte, grandes áreas de gelo exposto.
O investigador considera que esta transformação sugere temperaturas elevadas, embora tenha sublinhado que ainda não tinha consultado dados de estações meteorológicas que permitissem confirmar essa hipótese.
Shugar apontou também a construção humana como um possível fator adicional, sem avançar conclusões definitivas.
As alterações climáticas podem provocar este tipo de colapso?
A resposta não é simples.
Os cientistas ainda não dispõem de casos documentados suficientes para afirmar que as alterações climáticas provocam diretamente grandes colapsos glaciares como este.
Andrew Mackintosh considera estes acontecimentos preocupantes precisamente porque são pouco frequentes e ainda insuficientemente estudados.
Há, contudo, uma relação muito mais sólida entre o aquecimento global e o recuo dos glaciares.
Os cientistas têm também elevada confiança de que o aumento das temperaturas está a degradar o permafrost das regiões montanhosas.
O que é o permafrost e porque é importante?
O permafrost é solo que permanece congelado ao longo de todo o ano.
Nas montanhas, pode funcionar como uma espécie de “cola” natural, ajudando a manter juntas rochas e massas de gelo em encostas muito inclinadas.
Quando as temperaturas aumentam, este terreno congelado começa a degradar-se.
Ao perder estabilidade, as encostas podem tornar-se mais vulneráveis a deslizamentos, avalanches e colapsos de grandes massas de rocha e gelo.
Isto não significa que o aquecimento tenha sido identificado como causa direta da enxurrada desta semana. Significa, sim, que as condições de estabilidade das zonas de alta montanha estão a mudar.
Porque são os Himalaias particularmente vulneráveis?
Os Himalaias estão a aquecer cerca de duas vezes mais depressa do que a média global.
A cordilheira atravessa Nepal, Índia, China, Butão e Paquistão e concentra enormes massas de gelo em terrenos extremamente inclinados.
O aumento das temperaturas está associado a maior risco de avalanches, deslizamentos de terras e inundações.
As Nações Unidas indicaram em 2023 que as montanhas do Nepal tinham perdido quase um terço do seu gelo em pouco mais de três décadas.
Nesse mesmo ano, uma avaliação concluiu que os glaciares da região do Hindu Kush-Himalaia desapareceram 65% mais rapidamente entre 2011 e 2020 do que durante a década anterior.
Já aconteceu algo semelhante?
Sim.
Em 2021, um glaciar desprendeu-se no estado indiano de Uttarakhand, também nos Himalaias.
O episódio provocou uma cheia repentina e deixou cerca de 200 pessoas mortas ou desaparecidas.
Investigações posteriores concluíram que uma avalanche de cerca de 27 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo se transformou num enorme fluxo de detritos.
O mecanismo apresenta semelhanças com aquilo que os cientistas estão agora a tentar compreender no Nepal.
E os lagos glaciares? Podem causar fenómenos semelhantes?
Podem, embora não sejam apontados como a causa desta catástrofe.
À medida que os glaciares derretem, a água pode acumular-se atrás de barreiras naturais formadas por gelo, rocha e sedimentos.
Formam-se assim lagos glaciares.
Se a barreira que contém essa água ceder, milhões de metros cúbicos podem ser libertados num curto período, dando origem a uma cheia súbita e altamente destrutiva.
Adrian McCallum, glaciologista e engenheiro polar da University of the Sunshine Coast, resume o processo: com o aquecimento, os glaciares recuam, o gelo transforma-se em água e essa água pode ficar retida.
Mais de 12 mil mortes em todo o mundo já foram associadas a este tipo de cheias.
Segundo as Nações Unidas, o Nepal tem mais de 2.000 lagos glaciares, dos quais 21 são classificados como potencialmente perigosos.
Então, o que se sabe até agora sobre a tragédia?
A investigação ainda não permite reconstruir todos os passos da catástrofe.
O que os dados disponíveis indicam é que uma grande massa de gelo e rocha se desprendeu nos Himalaias, caiu cerca de 1,2 quilómetros e desencadeou um fluxo de água e detritos que avançou rapidamente pelo vale.
O fenómeno foi inicialmente confundido com um terramoto devido à força do impacto, mas o USGS concluiu que o próprio colapso glaciar produziu o sinal sísmico.
Falta agora determinar até que ponto o calor, a instabilidade da encosta, o estado do permafrost e outros fatores contribuíram para transformar o colapso numa das cheias repentinas mais destrutivas registadas recentemente na região.
















