Embora a expressão “próximo ano lectivo” possa parecer remeter para algo distante, a verdade é que é já em Setembro, daqui a pouco mais de três meses. Importa, por isso, começar já a desenhar aquilo que será o regresso às aulas, aproveitando os ensinamentos e as lições da fase de desconfinamento.
Recorde-se que já na próxima segunda-feira, dia 18, os alunos dos 11.º e 12.º anos voltarão a ter aulas presenciais das disciplinas com exames nacionais. Será uma espécie de experiência para perceber quais as arestas a limar, o que resulta e aquilo que não poderá mesmo ser replicado no final do Verão.
Segundo João Dias da Silva, líder da Federação Nacional dos Sindicatos de Professores (FNE), saber o que podemos esperar do próximo ano lectivo «é a pergunta de um milhão de euros». Em declarações reportadas pelo Observador, o secretário-geral refere que conhecer o exemplo de outros países poderá ajudar, mas que também será essencial aprender com o regresso dos alunos do secundário e das crianças às creches.
«Até podemos fazer um plano muito bonito para Setembro. Chegamos a Outubro e volta tudo para casa. Não sabemos como vai ser. Vamos ter de aprender com o regresso de 18 de Maio e com o de outros países — vamos ter essa vantagem de poder ver o que acontece pelo mundo e o próximo mês será decisivo», conta, acrescentando ainda que a imunidade comunitária será determinante. Neste momento, este indicador estará nos 15%, de acordo com dados divulgado por Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, após reunião com peritos de saúde pública. O ideal é que a imunidade de grupo chegue aos 60 a 70%.
Já Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, aponta para um ano de «recuperação e de soluções inovadoras». À mesma publicação, indica que existem vários cenários em cima da mesa, mas não concretiza.
«Se em Fevereiro, aparecesse um aluno de máscara numa turma era alvo de processo disciplinar. Agora, é o contrário. Se não trouxer a máscara, arranja problemas. O mundo mudou muito», nota Filinto Lima, presidente da Associação de Directores de Escolas Públicas (ANDAEP). Esta afirmação ajuda a perceber o porquê de ser tão complicado prever o futuro.
Para já, a solução apontada por pais, professores e directores, envolve sistemas mistos de ensino presencial e à distância. O Observador menciona também o emagrecimento dos currículos (sugestão de Maria Emília Brederode, do Conselho Nacional de Educação, e do professor Paulo Guinote) e muitas horas de recuperação da matéria que ficou por leccionar.
Na vizinha Espanha, o governo tem trabalhado com as comunidades autónomas no desenvolvimento de um modelo misto, com turmas com um máximo de 15 alunos de modo a garantir o distanciamento social. Mas haverá salas, professores, funcionários e dinheiro suficiente para esta solução?
Rodrigo Queiroz e Melo, presidente da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular (AEEP), defende que «as regras da Direcção-Geral da Saúde são impraticáveis, principalmente as de idades mais novas. Há um alijar de responsabilidades». Citado pela mesma publicação refere ainda que, se houver condições para aulas presenciais em Setembro, «terá de ser um regresso em condições normais». Aceita a utilização de máscaras ou luvas, por exemplo, mas não o distanciamento: «Seria um logro prometer às pessoas que vamos conseguir, com todos os alunos na escola, mantê-los afastados uns dos outros.»
Manuel Pereira, presidente da ANDE, concorda. Diz que já havia escolas com falta de espaço antes da pandemia e que agora será ainda mais complicado.
Uma solução mista parece, por isso, cada vez mais apetecível. «O que podemos é ter um novo normal, menos tempo presencial nas escolas, uma parte das aulas ser online, dividir turmas pela manhã e pela tarde para conseguirmos ter menor densidade de alunos a cada momento», sugere Rodrigo Queiroz e Melo. Porém, Filinto Lima, também director do agrupamento Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, acredita que esta seria uma possibilidade apenas para alunos a partir do 5.º ano. Considera que o primeiro ciclo «é de afectos e o ensino presencial é importantíssimo».
Há que considerar ainda o tamanho das turmas, que poderão ser reduzidas para apenas 15 elementos. Filinto Lima descreve-o como o critério que «mexe com tudo», incluindo a eventual necessidade de contratar mais professores. E, por falar em contratações, será preciso também rever os quadros de auxiliares, tal como nota Manuel Pereira, da ANDE: «Não são só os professores que já são de provecta idade, e que precisam de ser protegidos, também temos muitos assistentes operacionais com mais de 60 anos e que poderão não voltar.»














