A IA precisa de energia. A democracia também.

Opinião de Luís Rita, investigador em inteligência artificial no Imperial College London, professor em cibersegurança na Universidade Europeia e cofundador da CycleAI.

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Luís Rita
Luís Ritainvestigador em inteligência artificial no Imperial College London, professor em cibersegurança na Universidade Europeia e cofundador da CycleAI.Setembro 10, 2026 12:49

Por Luís Rita, investigador em inteligência artificial no Imperial College London, professor em cibersegurança na Universidade Europeia e cofundador da CycleAI.

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A corrida à inteligência artificial poderá reorganizar o poder mundial antes de sentirmos toda a dimensão do aquecimento global. A resposta não é um regresso sem prazo aos combustíveis fósseis, mas uma estratégia de soberania que una computação, energia limpa e firme, redes e semicondutores.

Imaginemos a Europa no início da próxima década. Reduziu as emissões mais depressa do que os seus rivais, mas os hospitais, bancos, fábricas, universidades e forças armadas dependem de modelos de inteligência artificial, semicondutores e serviços de nuvem controlados fora do espaço democrático europeu. Os dados mais sensíveis atravessam infraestruturas que a Europa não governa; as campanhas eleitorais enfrentam desinformação automatizada produzida a uma escala que os Estados já não conseguem acompanhar; e uma crise diplomática pode limitar o acesso à capacidade computacional de que depende a economia. Seria uma Europa ambientalmente mais virtuosa. Mas seria ainda soberana?

A pergunta é incómoda porque obriga a estabelecer uma hierarquia entre riscos que preferíamos tratar separadamente. No horizonte dos próximos cinco a dez anos, perder a corrida à IA pode produzir consequências políticas, económicas e militares mais rápidas do que o agravamento incremental do aquecimento global. Isto não torna a crise climática menos grave. O IPCC é inequívoco: cada fração adicional de aquecimento aumenta perdas, danos e riscos. E a Agência Europeia do Ambiente identifica em Portugal impactos crescentes associados a secas prolongadas, incêndios, erosão costeira e cheias rápidas. A comparação não deve ser feita entre vítimas ou sofrimentos; deve ser feita entre dois relógios estratégicos. Um pode retirar autonomia política em poucos anos. O outro acumula danos físicos, económicos e, em muitos casos, irreversíveis ao longo de décadas.

A corrida à IA não é uma repetição exata da corrida às armas nucleares. A bomba era concentrada, essencialmente estatal e visível; a IA é difusa, comercial, civil e militar ao mesmo tempo. Pode ser incorporada numa fábrica, num hospital, num banco, numa campanha eleitoral, num sistema de ciberdefesa ou num drone. Ainda assim, a lição estratégica é semelhante: quem controla a infraestrutura decisiva influencia as regras da ordem internacional. Não por acaso, a estratégia revista da NATO para a inteligência artificial trata a adoção, a proteção das tecnologias e a defesa contra o uso adversarial da IA como prioridades de segurança.

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Se os regimes autoritários obtiverem uma vantagem persistente, o risco não é apenas económico. A IA pode reduzir drasticamente o custo da vigilância, identificar dissidentes, automatizar a censura, produzir propaganda sintética personalizada, acelerar ciberataques e reforçar sistemas militares autónomos. O relatório Freedom on the Net 2025 documenta o décimo quinto ano consecutivo de deterioração da liberdade na Internet e alerta para a forma como o investimento em IA pode ampliar a vigilância e a chamada “soberania cibernética” em contextos autoritários. As democracias também podem abusar destas tecnologias; a diferença reside na possibilidade de escrutínio, recurso judicial, imprensa livre, alternância de poder e correção pública. Perder capacidade própria significa também perder margem para impor essas salvaguardas.

A dependência raramente se apresenta como uma capitulação formal. Surge quando um Estado não consegue auditar os modelos que usa, não pode transferir os seus dados para outro fornecedor, fica sem atualizações de segurança ou não tem capacidade computacional para responder a uma emergência. Soberania não é autarcia. É a capacidade de escolher, limitar, diversificar e substituir dependências. Uma democracia que apenas consome a IA produzida por outros continuará a ter leis próprias no papel, mas verá diminuir a sua autonomia real.

Apesar de toda a retórica sobre algoritmos, a corrida assenta em dois recursos profundamente físicos: chips avançados e eletricidade. Dados e talento são igualmente essenciais, mas energia e semicondutores são os estrangulamentos mais difíceis de expandir rapidamente. Segundo a análise de 2026 da Agência Internacional de Energia, o consumo elétrico mundial dos centros de dados poderá passar de cerca de 485 TWh em 2025 para aproximadamente 950 TWh em 2030, enquanto o consumo dos centros orientados para IA poderá triplicar. Ao mesmo tempo, a OCDE estima que a TSMC detenha mais de 60% do mercado mundial de fabrico por contrato e cerca de 90% no segmento dos chips mais avançados. A “nuvem” depende, afinal, de fábricas caríssimas, redes elétricas, transformadores, sistemas de arrefecimento, água, terrenos e cadeias logísticas vulneráveis.

É aqui que surge o dilema dos combustíveis fósseis. Há uma parcela de verdade na ideia de que o gás e o carvão oferecem eletricidade firme e disponível a qualquer hora, enquanto o sol e o vento variam. Um centro de dados não pode desligar sempre que anoitece ou o vento abranda. Mas concluir que nova capacidade fóssil é necessariamente a forma mais rápida de ganhar a corrida à IA é demasiado simples. A Agência Internacional de Energia prevê que as renováveis satisfaçam cerca de metade do crescimento da procura elétrica dos centros de dados, precisamente devido aos seus prazos de construção relativamente curtos e à competitividade económica. E até as novas turbinas a gás enfrentam filas de encomendas de vários anos. A IRENA continua a mostrar que a solar e a eólica estão entre as opções mais competitivas para nova geração. O problema é que um megawatt-hora barato não equivale a um megawatt garantido em todas as horas do ano.

A escolha real não é, por isso, “renováveis e derrota tecnológica” ou “fósseis e soberania”. É construir um sistema capaz de fornecer energia abundante, firme, previsível e progressivamente descarbonizada. Isso exige acelerar solar e eólica, repotenciar parques existentes, expandir bombagem hidroelétrica e baterias, reforçar redes e interligações, flexibilizar a procura e desenvolver fontes firmes de baixo carbono. A nível europeu, inclui acelerar nuclear e geotermia onde forem tecnicamente e socialmente viáveis. Em Portugal, a discussão sobre nuclear exige uma avaliação própria, mas o país não pode ficar ausente do debate europeu sobre eletricidade firme de baixo carbono.

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Pode ainda ser racional preservar, durante a transição, alguma capacidade térmica despachável para reserva e segurança do sistema. Porém, essa flexibilidade deve ter limites de emissões, prazos de desativação, testes regulares de necessidade e ausência de subsídios sem termo. Uma emergência temporária não pode transformar-se numa dependência fóssil permanente. Da mesma forma, os centros de dados devem aceitar ligações não firmes ou interrompíveis para cargas de treino que possam ser deslocadas para horas de maior produção renovável, deixando a capacidade mais segura para serviços críticos. A política energética deve distinguir entre computação que precisa de resposta instantânea e computação que pode esperar algumas horas.

Portugal encontra-se numa posição invulgarmente favorável — e exposta. No primeiro semestre de 2026, as renováveis cobriram 71% do consumo elétrico nacional. Em julho, a energia solar tornou-se pela primeira vez a principal fonte de geração, com 19% do consumo; no mesmo mês, 34% foi assegurado por importações. É uma fotografia das duas realidades portuguesas: recursos renováveis excecionais em determinadas horas e a necessidade de complementar o sistema, noutras, com hídrica, armazenamento, gás ou trocas externas. A vantagem portuguesa não está apenas em produzir eletricidade verde, mas em aprender a transformá-la em disponibilidade firme e competitiva.

O país começou a reconhecer esta dimensão estratégica. A Agenda Nacional de Inteligência Artificial inclui capacidade computacional e redução da dependência externa entre os seus objetivos. O Plano Nacional de Centros de Dados assume estas infraestruturas como ativos de soberania e procura articular energia, licenciamento e criação de valor. Portugal participa ainda na AI Factory do Barcelona Supercomputing Center e decidiu integrar uma candidatura ibérica a uma gigafábrica europeia de IA. São passos relevantes. Mas anúncios, investimentos previstos e edifícios não são, por si só, soberania: esta mede-se pelo acesso efetivo a computação, pelo conhecimento produzido e pela capacidade de manter serviços críticos durante uma crise.

Portugal não deve ambicionar treinar sozinho todos os maiores modelos do mundo. Deve garantir acesso soberano e europeu à capacidade necessária para investigação, Administração Pública, saúde, defesa, energia, língua portuguesa, oceano e indústria. E deve evitar tornar-se apenas a “tomada elétrica” da Europa: um território que fornece solo, água e energia a centros de dados estrangeiros enquanto a propriedade intelectual, os impostos e os empregos de maior valor permanecem noutros países. Cada grande projeto deveria contribuir para nova geração e reforço da rede, divulgar o consumo de energia e água, aceitar flexibilidade operacional quando possível, aproveitar calor residual quando tecnicamente útil e reservar capacidade computacional para universidades, startups, PME e serviços públicos portugueses.

Nos semicondutores, a estratégia também deve ser realista. Construir uma fábrica de vanguarda comparável às maiores asiáticas exigiria capital, escala e conhecimento que nenhum pequeno país reúne isoladamente. Mas Portugal pode tornar-se indispensável em segmentos específicos da cadeia europeia: encapsulamento avançado, teste, chiplets, fotónica, sensores, eletrónica de potência e desenho de circuitos especializados. A parceria entre Infineon e Amkor no Porto mostra que já existe uma base industrial relevante, e a Estratégia Nacional para os Semicondutores oferece um ponto de partida. O objetivo não deve ser reproduzir toda a cadeia, mas assegurar posições difíceis de substituir dentro de uma cadeia europeia diversificada.

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Qual deve ser, então, a hierarquia? Num choque de curto prazo, a soberania democrática deve ser protegida como condição que permite todas as outras escolhas. Uma sociedade que perdeu o controlo dos seus dados, das suas infraestruturas críticas e dos instrumentos que moldam a informação pública terá menos capacidade para decidir a sua política climática, económica ou social. Mas os limites climáticos são físicos, não ideológicos. Uma estratégia baseada em combustíveis importados, emissões crescentes e ativos que terão de funcionar durante décadas também destrói soberania — através de choques de preços, dependência externa, seca, incêndios, deslocações populacionais e custos orçamentais crescentes.

A resposta sensata é uma doutrina de dupla segurança. Toda a estratégia de IA deve incluir um plano de energia, redes, semicondutores e continuidade operacional. Toda a estratégia energética deve considerar computação, cibersegurança, indústria e defesa. Portugal deve classificar capacidade computacional, cabos submarinos, redes elétricas, dados estratégicos e determinados componentes eletrónicos como infraestruturas críticas interdependentes; diversificar fornecedores; exigir portabilidade e padrões abertos; e coordenar reservas, compras e investimento com parceiros europeus e aliados democráticos. A estratégia europeia para um “continente de IA” só será credível se a capacidade computacional vier acompanhada de energia e cadeias industriais resilientes.

Portugal não ganhará esta corrida sozinho, tal como não garantiria sozinho a dissuasão nuclear durante a Guerra Fria. Mas pode tornar-se indispensável dentro da Europa. A localização atlântica, os cabos submarinos, o potencial renovável, a hídrica, o talento científico e a capacidade de encapsulamento de semicondutores são instrumentos de negociação geopolítica — desde que sejam unidos numa política coerente.

O pior resultado seria escolher um falso extremo: descarbonizar sem construir capacidade e tornar-se dependente, ou expandir combustíveis fósseis sem estratégia industrial e continuar a ser cliente tecnológico. Não devemos ganhar a corrida à IA à custa de um país habitável, nem proteger o clima entregando a outros a capacidade de decidir o nosso futuro. A verdadeira ambição é garantir que as sociedades que irão definir a próxima era da inteligência artificial permanecem suficientemente livres — e suficientemente capazes — para proteger também o planeta.

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